02 dezembro 2004

The end of the affair

A falta de legitimidade é uma coisa terrível, por mais legalidades que justificassem a nomeação de Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro. O homem nunca se sentiu legitimado, foi sempre uma espécie de adolescente vigiado pelos tutores. Isso ficou provado durante estes longos quatro meses trapalhões, em que o Governo andou trôpego e o PSD passou o tempo encalhado em si mesmo. De qualquer maneira, valeu a pena para sabermos o que vale Santana em S. Bento. Jorge Sampaio percebeu e emendou a mão, com todas as consequências que isso agora vai ter.

Vivemos em democracia. Num regime semi-parlamentar - ou mais para o semi-presidencial desde há dois dias (ou desde há quatro meses) -, ir a eleições não pode ser um drama. Mais dramático seria viver com um Governo artificial, ligado à máquina, a precisar de oxigénio a toda a hora, sem autonomia para respirar. Mas se não é um drama, não deixa de ser grave que agora funcionamos em ciclos de dois anos. Das próximas eleições devia sair um Governo de maioria, fosse de quem fosse, para isto normalizar.

Só que a realidade e a Constituição estão desfazadas: as pessoas votam para o primeiro-ministro, que não é eleito, e não para os representantes parlamentares; o sistema partidário não permite um esquema de alianças possíveis à direita e à esquerda como vemos noutros países europeus; e o Presidente da República é percebido como uma Rainha de Inglaterra ou um notário que, de facto, como vemos, não é.

Vivemos uma crise de regime. Da maneira que as coisas estão, quem vai querer meter-se nisto?

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