18 fevereiro 2005

A semiótica de Menino Guerreiro - o auto-retrato de Santana

Esta cantiga de Gonzaguinha, esquerdista brasileiro, é o hino de Santana. Vamos analisar a letra de "Menino Guerreiro" segundo a qual o líder do PPD se define.

Um homem também chora
Santana não tem razões para rir. Tem feito o PSD a passar as maiores vergonhas da sua história e, assim, choroso assumido, pode soltar as lágrimas quando assumir a derrota no domingo. O primeiro verso é muito próprio para toda e qualquer vítima da vida.
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura
Primeiro, sublinha-se que o candidato gosta de meninas morenas, o que só abona a seu favor, em matéria de colos. Depois, precisa de ternura, de carinho. Na verdade, o que Santana quer é ser amado, em declarações de amor assinadas de cruz em boletins de voto. É um bebé numa incubadora, que sofre quando os irmãos mais velhos lhe dão pontapés e estaladas. Ele precisa de amor, para poder amar o povo que tem o dever de o adorar. Se o povo não o ama, ele chora. É muito pungente...
Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Santana é um guerreiro que faz da linguagem bélica o eixo da sua retórica: as batalhas, os combates, os adversários... Mas é um lutador frágil, um pouco ingénuo, por agir mais com emoção do que com a razão. É um menino, uma criança que não faz o que faz por mal, mas porque é assim mesmo, genuína. Não tem maldade, os episódios, os casos, são fruto dessa meninice adolescente que o impele, como os loucos ou os ininputáveis, a dizer o que pensa em cada momento, em vez de pesar o sentido das palavras e dizer o que diz um homem de Estado.
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem refeitos
O guerreiro não pode apenas lutar. Alguém deve enxugar-lhe as lágrimas, porque os pontapés doem e as facadas nas costas fazem mal às cruzes. Se alguém , todos nós, não dermos um espaço de remanso ou um tempo de descanso ao menino-guerreiro, ele não se refaz. Mas o rapaz tem "um sonho para Portugal". Ou para si mesmo, e é disso que se alimenta.
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Sim, é muito triste ver o peso que ele carrega por sobre os ombros, cada vez mais, em cada entrevista, como a de ontem ao Público/Renascença. É triste ver como um homem assim chegou a primeiro-ministro deste país, da maneira que chegou. Ninguém lhe acaba com este sofrimento de ter tanta responsabilidade sobre uma coluna vertebral tão menina que ainda está imatura para tamanhos encargos?
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Só falta dizer que ele também esperneia. Santana berra conta o Presidente da República, contra os irmãos mais velhos que lhe dão pontapés, contra os companheiros que lhe dão facadas nas costas, contra as empresas de sondagens que não o acarinham, contra a comunicação social que não lhe dá o colo, contra os poderosos banqueiros, contra tudo o que mexe. E depois sangra, sofre que é uma coisa dolorosa de se ver, e até nós temo dó só de olhar para ele. Apenas Santana não se enxerga no meio do círculo que criou à sua volta. Apenas sente a dor que leva no peito.
Pois ama e ama
É verdade. Ama as mulheres que amou, ama os filhos que são muitos, ama o país. Como um líder populista sul americano, poderia amar todo o povo e fazer tudo por esse amor. Mas acima de tudo ele ama-se a si mesmo, o que também é típico.
Um homem humilha-se
Se lhe castram os sonhos
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
Sim, tem-se humilhado bastante porque Sampaio lhe castrou o sonho de uma vida. Ser esmagado numas eleições, ele que sempre se achou imbatível no jogo eleitoral, é uma grande humilhação, de facto.
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Morre-se, mata-se
Vamos ver. Se ele perder o trabalho, ou seja, o emprego como líder do PSD, se tiver consciência de que tudo o que fez nestes cinco meses lhe mancha a honra, o que fará? Matará? Morrerá? Dará lugar a outro? Lutará em congresso contra "os outros" para recuperar a honra? Morrerá de pé, no campo de batalha, como um guerreiro?
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz
Esta é a maior de todas as verdades. Quem vive assim não pode ser feliz. Não dá mesmo. Os altos cargos da nação não foram feitos para meninos guerreiros. Na pior das hipóteses só para guerreiros ou amazonas. Dos musculados e racionais, que não choram, e que fazem aquilo que tem de ser feito, mesmo que não lhe dêem o tal carinho. Santana não pode ser feliz assim, consigo mesmo e com os outros.

O génio da sua campanha que escolheu esta letra para hino foi assassino, autofágico, suicidário. Com amigos destes... Santana já estava à beira do abismo, mas foi dando uns passos em frente, facilitando a tarefa todos os que o empurravam ou que o levavam amigavelmente pela mão. No dia 21 o menino-guerreiro estará livre de todos estes pesos e poderá finalmente viver feliz para sempre.

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