05 fevereiro 2008

Filosofia de cova

Everyman, de Philip Roth, é um livro sobre a falência do corpo e a inevitabilidade do tempo como realidade irreversível. Enquanto o corpo se gasta e a solidão da velhice toma conta do que resta da vida, o passado assombra o espírito de quem cometeu demasiados erros que não pode reparar. A conversa com o coveiro que lhe enterrou os pais é eloquente, pela normalidade habitual da sua vida enquanto enterra mortos: "It's a good education for an old person", disse-lhe o antigo publicitário. Páginas antes há esta frase terrível: "Old age isn't a battle; old age is a massacre". Portanto, como já senti o meu corpo falir várias vezes, e ainda sou novo, penso frequentemente que a liberdade de escolher caminhos como se nada me condicionasse seria a melhor maneira de combater a irreversibilidade do tempo, antes da falência do corpo. Mas como há sempre um mundo de condicionantes, seria certo que os erros cometidos por excesso de voluntarismo me assombrariam o envelhecimento - se ele ocorresse. É difícil comandar o destino e não deixar que simplesmente a vida nos viva a nós. Afinal, nas mãos do coveiro seremos um dia todos iguais.

Também Hamlet falou com um coveiro, impressionado com a banalidade do seu trato com os restos dos mortos: "Não terá este homem senso no que faz que cante quando cava sepulturas?", perguntou Hamlet a Horácio, que lhe respondeu: "O hábito criou-lhe esta displicência nos modos". É como em Philip Roth, quando a mulher chega com o almoço do coveiro num termo. A estranheza que nos assombra perante a inevitabilidade da morte, um destino impossível - como a caveira do bobo sem os lábios que tinham beijado Hamlet quando criança -, é o mistério que permanece em Everyman: a linha invisível que separa os vivos dos mortos também separa a totalidade da irrelevância. O resto é o caminho até lá se chegar.

04 fevereiro 2008

My kingdom for a chicken soup

Estou a ler o Everyman (Todo-o-Mundo) de Philip Roth. É um livro sobre a decadência física, a doença e, também, sobre a ilusão da reforma como período para a concretização de projectos adiados. Eu já tenho alguns, apesar da distância: ler os restantes seis livros de Em busca do tempo perdido, aprender a tocar saxofone e a pintar. Mas não podemos saber se a nossa qualidade de vida vai ser adequada aos nossos planos. A minha visão pode não ser suficiente para toda a leitura desejada, as mãos podem tremer-me demasiado para a pintura e o fôlego pode não chegar sequer para um apito de caça. Este fim-de-semana tive uma amostra do que me pode esperar. Estive com uma constipação masculina.* Ou seja, às portas da morte: febre altíssima (chegou aos 38,1º), tosse, prostração, conjuntivite e herpes labial. As sete (cinco) pragas do Egipto. A médica receitou-me anti-inflamatórios, quando é óbvio que a situação requeria internamento hospitalar. Não consegui ler mais do que uma página do meu livro e (felizmente) assistir a mais do que dez minutos dos filmes de fim-de-semana. Já estou a recuperar e a trabalhar, graças à paciência da J. Podem, no entanto, enviar os típicos bombons da convalescença para a morada habitual.

*Encontrei há uns tempos, no blogue da Cláudia, um vídeo que explica bem o fenómeno. Incompreensivelmente, em tom humorístico.

29 janeiro 2008

Cada vez mais ninguém

Grândola está cheia de buracos, ausências de gente que devia ocupar o devido lugar e não está lá. Na minha imaginação por ali andam, fantasmas. A vila que existe é uma farsa por ser menos eu. A vizinha que morreu há uma semana - eu só lhe dizia bom dia boa tarde - é como se lá estivesse à janela; o vizinho que morreu há meses e não sabia, eu esperava vê-lo e dizer-lhe "olá como vai!", sem ele me reconhecer por não me imaginar com mais 15 anos; e o pai do meu amigo "que já lá está", afinal esquecera-me disso, por ser mais evidente que estivesse vivo. São assim as coisas. Olho para os velhos e penso que já têm mais mortos na vida que vivos. Têm os lugares cheios de ninguém. E depois a memória tudo afasta e vidas inteiras se resumem a uma frase. Macondo também desapareceu do mapa, levando para o esquecimento as suas ruas com nomes de generais.

21 janeiro 2008

Quando éramos pequenos, o meu pai passava a noite toda a fumar, entre o telejornal e a novela brasileira. Os rolos de fumo iam-se espalhando da sala para o resto da casa, como uma ondulação. Durante a noite filtrávamos o ar com os pulmões. Lembro-me também das visitas ao pediatra. Quando entrava, acompanhado pela minha mãe, o consultório estava envolto em fumo e o médico dava a consulta de cigarro da boca. «O que é que tem o miúdo?» «São os pulmões, sr. doutor. Está com uma tosse de cão.» Fumava-se sem culpa. Até os Radio Macau faziam boas letras sobre fumadores (Vai-se o tempo desfiando em anéis de fumo baço.) Ah, os bons velhos tempos. Sempre que me dá a nostalgia, dá-me também vontade de acender um cigarro, inclinar a cabeça para trás e libertar o fumo devagar. Um cigarro imaginário, para um fumador imaginário.

O juramento do court de ténis

These wonderful things / Were planted on the surface of a round mind that was to become our present time. [John Ashbery, A Last World]

Um dia, perto de Versalhes, durante os Estados-Gerais de 1789, quando os representantes do Terceiro Estado chegaram à porta da sala onde se costumavam reunir, encontraram-na fechada e guardada por soldados. Decidiram reunir-se num pequeno pavilhão onde se jogava um jogo semelhante ao ténis actual e proclamar que a assembleia existia onde quer que os seus membros se encontrassem reunidos. Foi pintado, pelo menos, um quadro sobre o tema e, muitos anos mais tarde, até foi escrito um livro de poesia com o título The Tennis Court Oath, por John Ashbery. A ideia principal do juramento é a de que as pessoas são mais importante do que os lugares. Como a maioria das pessoas, já mudei de casa, de cidade e de local de trabalho. É preciso habituarmo-nos a procurar o interruptor da luz num sítio diferente, a subir e a descer outras escadas. As pessoas, vou-as sempre encontrando, por vezes nos sítios mais improváveis. Apesar de já ter abandonado a rua da minha infância há alguns anos, por exemplo, continuo a estar de vez em quando com alguns dos meus amigos dessa altura e a saber por eles notícias dos restantes. Os da faculdade, encontro-os um pouco por todo o lado. Já não estão nos corredores do palácio ou em volta da mesa de matraquilhos. Alguns até já usam gravata. Juro, existimos onde nos encontrarmos.

16 janeiro 2008

Em Persona, de Bergman, há uma actriz que deixa subitamente de falar. Há uma enfermeira que, para preencher o vazio, fala a noite toda sobre si própria. Estão as duas sozinhas numa casa de verão. O silêncio de Elisabet é uma recusa em continuar a representar o papel que criou para si própria, com uma carreira, um marido e um filho. Alma começa então a representar pelas duas, a falar e a agir pelas duas. Descreve os pormenores de uma orgia numa praia nórdica. Conta como começou a fumar. Reconforta o marido cego de Elisabet. No fundo, o filme é sobre o facto de todos usarmos múltiplas máscaras, de o silêncio ser apenas mais uma e de nenhuma delas ser verdadeira.
{Para a L., que aprendeu a andar e gosta de ovelhas (embora não tão melancólicas).}

Sheep in Fog

The hills step off into whiteness.
People or stars
Regard me sadly, I disappoint them.

The train leaves a line of breath.
O slow
Horse the colour of rust,

Hooves, dolorous bells ----
All morning the
Morning has been blackening,

A flower left out.
My bones hold a stillness, the far
Fields melt my heart.

They threaten
To let me through to a heaven
Starless and fatherless, a dark water.

[Sylvia Plath]

02 janeiro 2008

Por estranhas ligações, há músicas que associamos a momentos ou pessoas. A música do nascimento da L. é o Dead Beat Club dos B52’s. Devo tê-la ouvido pouco tempo antes e transformou-se na banda sonora original. Lembro-me de ter descido a pé do Hospital São Francisco Xavier até Belém, numa dessas noites de Outubro, já perto da meia-noite, com a música na cabeça. Podia ter apanhado um táxi ou esperado pelo autocarro, mas estava demasiado excitado e a precisar de caminhar em passo acelerado para libertar a tensão. Tenho-a usado desde essa altura como música de embalar. Uma das muitas. Como não gosto particularmente de canções infantis, uso uma versão mais lenta de outro tipo de música. Para além de B52’s, é natural que quem entre no quarto da L. ao início da noite me oiça a cantar, para além de B52’s, The Smiths, Cure, Nick Cave ou mesmo Joy Division. A minha voz é horrível. Desconfio que a L. não adormece, finge apenas para eu me calar. Na noite de fim de ano, achei que o Dead Beat Club era a música apropriada para a adormecer. Foi o ano mais longo das nossas vidas. Cansada, adormeceu num fechar de olhos. Eu voltei para a festa, com um chapéu de aviador na cabeça, um cachecol vermelho em volta do pescoço e a satisfação de mais uma missão cumprida.

27 dezembro 2007

Nunca consegui perceber as ideias de Espinoza. É difícil ler mais de duas páginas de axiomas, proposições e postulados da Ética sem que a concentração se comece a dispersar para os desenhos do tapete, as rachas da parede ou os padrões da madeira do soalho (nalgumas tábuas, os nódulos e veios formam figuras mais ou menos humanas). A maioria das enciclopédias refere que tentou aproximar a filosofia moral da geometria. Talvez seja verdade, mas apenas para encobrir um profundo erotismo. Agora que fiz mais uma tentativa, numa leitura aleatória, descobri páginas e páginas que falam sobre corpos, o efeito de uns corpos sobre outros corpos. Continuo sem perceber, mas a gostar muito mais.

When the fluid part of the human body is determined by an external body to impinge often on another soft part, it changes the surface of the latter, and, as it were, leaves the impression thereupon of the external body which impels it. [Ética, Parte 2, Postulado 5]

25 dezembro 2007

Desejo ao funcionário da EMEL que me multou no dia 24 de Dezembro um feliz Natal e um próspero Ano Novo.

18 dezembro 2007

17 dezembro 2007

O Pai Natal não existe

O M. vê o Pai Natal importado da China pendurado em varandas e janelas e pensa, quando chegará aqui? E pergunta: "Quando é o Pai Natá chega à janeia do quato do M.?" A cabecinha do M. está cheia de pais natais e outras coisas de uma inocência irrecuperável. Se à janela dele chegar alguém, ele terá a esperança de que é o Pai Natal com as prendas. Se à minha janela chegar alguém, leva uma marretada, que não é decente andar a subir aos prédios a espreitar para a intimidade dos outros. Adorava saber o que vai dentro da cabeça de uma criança de dois anos. Já não somos puros há tanto tempo...

19 novembro 2007

Telecomando e controlo

À noite, antes de me deitar, alinho os quatro telecomandos em cima de um dos aparelhos que respondem com obediência ao meu polegar. O controlo que sobre eles exerci durante o dia satisfaz-me. Perder o controlo não é o mesmo que perder o telecomando. Sem telecomando, tenho de me levantar do sofá, mas levantar-me do sofá aborrece-me. Então tenho de escolher o telecomando certo para a máquina certa, o que também não é fácil, e então tenho de me levantar à mesma para ter todos os telecomandos à mão.

Gostei de Control o filme sobre Ian Curtis, vocalista dos Joy Division, ao contrário dos meus amigos. Não era a história de um poeta obscuro e genial, urbano-depressivo e romântico, que com a música dos Joy nos dava as paisagens negras que nos faziam levitar a adolescência (e ainda nos fazem levitar hoje), nem a história de uma banda histórica. Era a história de um rapazinho com menos de 23 anos, que cometeu vários erros, como tantos rapazes de 23 anos, porém um deles fatal.

PS: por causa de um post abaixo assinado, para esclarecer algumas dúvidas - não fui operado agora, fui há cinco anos, e isso dá-me recuo para ter vontade de escrever sobre a coisa neste momento.

16 novembro 2007

Joy pills

Parece que os comprimidos que Ian Curtis tomava para não ter ataques epilépticos em palco lhe causavam depressões terríveis, diz Anton Corbijn, realizador de Control, ao Público. Tirando o facto de, talvez, também o terem levado ao suicídio - e sem suicídio não haveria mito -, benditos comprimidos que nos ajudaram a deprimir também a nós.

13 novembro 2007

Grandes remédios

Quando entrei grogue na sala de operações branca ainda disse Já saltei de páraquedas. No fim depois de me coser empurrando a minha maca um homem de bata ouviu-me perguntar Então sou bonito por dentro? No recobro sozinho quando só máquinas e bips no escuro e uma braçadeira a inchar-se de tempos a tempos no antebraço para apurar números e o peito cheio de tubos com coisas a escorrerem de mim ao perceber que ali a C. pensei Estou vivo.

10 novembro 2007

O génio que cansa

Como ele diz, mais ninguém escreve assim. É verdade. Comprei O Meu Nome é Legião, o último de António Lobo Antunes, à entrada do metro, a metade do preço, mercado negro. Tão negro como os seus livros, onde cada história é contada através de uma trança de pensamentos de personagens, ou como nós, quando estamos a pensar e vem um pensamento atrás do outro, e depois outro, sem nexo ou com nexo, tanto faz, mas ele escreve-o bem. Tão bem que é brilhante. Tão genial que cansa.

08 novembro 2007

Aviso à população

Desapareceram ontem à noite de sua casa dois adolescentes, aparentando cerca de trinta anos. A última vez que foram vistos, no Coliseu, vestiam ganga e tons de preto. O rapaz tinha uma mão no bolso, a outra com uma garrafa de água e abanava muito ligeiramente a cabeça ao som dos Interpol. Não sofrem de perturbações mentais – pelo menos diagnosticadas – , nem são perigosos. Pede-se a quem tenha tido notícias sobre o seu paradeiro o favor de não o comunicar à filha de ambos, para evitar chantagens na futura adolescência.

Novembro no andar de baixo

Chove na casa de banho da minha vizinha. Se ligo o chuveiro, chove. Então, ligo o chuveiro na mesma, mas tapo o ralo da banheira. Depois tiro a água suja à baldada, mas chove na mesma. Já lhe disse: a casa dela é que está bem. Estamos em Novembro e em Novembro, por costume e hábito de muitos anos, chove.

02 novembro 2007

Como o início de um livro, um fim de tarde

As famílias felizes são todas iguais, vão todas para o Jardim da Estrela, as infelizes vão cada uma para seu lado.
Os quartos de hotel são todos iguais, os quartos de hotel são todos iguais. No interior sentimo-nos como se estivéssemos a fugir de alguma coisa, quando só queremos ser encontrados. Os quartos de hotel são quartos de motel, com um carro estacionado frente à porta, pronto para uma fuga através do deserto. Têm bíblias nas gavetas das mesas de cabeceira, marcadas onde o hóspede anterior as abandonou: Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor, estando numa terra estranha? (Sl 137:4). Têm alcatifa e um espelho ao fundo. No quarto escuro, com a luz intermitente da televisão, vê-se nele (o espelho) o reflexo do fugitivo, em cima da cama, o telecomando na mão. Os quartos de hotel são todos iguais. Mesmo quando não são.