31 julho 2006

Fui a banhos. Ir à praia no Algarve é uma experiência multicultural incomparável. Podemos adivinhar a nacionalidade das crianças pelas brincadeiras que têm. As francesas passam o dia a construir pequenas fortificações e castelos de areia que são rapidamente destruídos pela subida da maré ou pela corrida intrépida das crianças alemãs. As holandesas escavam redes de canais na areia molhada para encaminharem a água salgada para lagos interiores. As crianças suecas e dinamarquesas passam simplesmente o dia sentadas dentro das poças a cismar sobre o sentido da vida. Já regressei.

Copy-paste

The pleasures of expectation are the pleasures that result from the contemplation of any sort of pleasure, referred to time future, and accompanied with the sentiment of belief.

Jeremy Bentham, Introduction to the Principles of Morals and Legislation, 1789

20 julho 2006

*

Na verdade, de um ponto de vista puramente gastronómico, eu deixava de ter pena do porco acabado de matar, quando o meu avô aparecia com o fígado (acabado de extrair) grelhado na brasa, mal passado, temperado com azeite, vinagre e alho. Se eu fosse Prometeu, a minha história seria uma metáfora da inveja, por inveja ao abutre.

* para ser lido com um ligeiro sotaque alentejano.

14 julho 2006

*

De um ponto de vista puramente gastronómico, tenho menos pena do Prometeu que do abutre que lhe tem de comer o fígado todos os dias.

* Pensamento do dia ao estilo Agora Escolha. Deve ser lido com a entoação de voz da Vera Roquete.

05 julho 2006


Para quem tinha saudades de vitórias morais...



O Deco jogou?

A horagá



Este homem vai ser o orgulho da nação!

Até lá, à hora H, vou: trabalhar qualquer coisa, almoçar com uma pessoa, moderar uma conversa, levar o carro à inspecção, encomendar frangos, comprar bujecas, ufff, vestir o Miguel, meter a sopa dele, o biberão e o Blédine na mochila e voltar ao carro, esperando que a Carla consiga chegar a horas, para ir ver esse grande momento no estádio talismã: a casa da Blan e do Afonso. Que os deuses nos protejam!

Relógios e queijos suíços


A França é um mecanismo perfeito, só não digo que é um relógio suíço porque o Zidane podia irritar-se (os argelinos são danados). E Portugal não tem cometido erros, por isso, não podem esperar os franceses que deste lado encontrem um queijo suíço. Daqui das Linhas de Torres não há buracos, e as tropas napoleónicas (sabendo que tivemos a ajuda dos ingleses) sabem que este rectângulo não é fácil de tomar. Ora tenho para mim que desta vez ganhamos. Ai ganhamos sim. O Deco, esse representante da genuína alma lusitana, vai marcar. Vão ver....

29 junho 2006

Idade da pedra

Quando uma frase sublinha a que vem a seguir, não basta depois corrigir as palavras ditas porque o sublinhado fica lá. Qualquer criança da primária sabe que uma frase sublinhada a vermelho dá mais trabalho a apagar. Foi grave que Fernando Ruas, presidente da ANMP, tivesse dito para os autarcas correrem com os fiscais do ambiente "à pedrada". Mas antes desta ele tinha dito outra frase: "Olhem que pensei muito bem no que vou dizer..." Para no dia seguinte, por ter sido apanhado por uma rádio, vir desculpar-se com linguagem figurada. Pobres metáforas.... E com ele ninguém corre? Nem precisa de ser à pedrada.

28 junho 2006

Martin Adler

Há vidas que valem a pena ser vividas. Quando vi, no DN, a foto de um jornalista sueco assassinado não dei conta. O choque assolou-me depois, quando percebi ser Martin Adler, que tantas vezes me contou o que ia por esse mundo nas reportagens de guerra publicadas na Grande Reportagem. Essas páginas, estão guardadas ali atrás, no meu arquivo no escritório. Senti a morte dele como a de um amigo que me fez confidências, que contou grandes aventuras, que mostrou o mundo. Aquele tiro nas costas pareceu-me, estranhamente, demasiado próximo... Na notícia do DN ninguém escreveu que ele era colaborador regular de uma publicação portuguesa, ainda por cima que era do próprio grupo. O ex-director da GR, Francisco José Viegas, na Origem das Espécies, fez-lhe uma homenagem. Hoje, no DN, Pedro Rolo Duarte faz-lhe justiça. Obrigado Martin. A tua vida valeu a pena ser vivida.

27 junho 2006

Desintoxicação

Com a mudança de casa decidimos ficar sem televisão por uns tempos. A decisão tem resultado parcialmente. Tenho lido mais, mas ainda não consegui abandonar o hábito do zapping compulsivo. Ontem fui até à estante dos livros só para ver o que é que estava a dar. No primeiro estava a dar a novela brasileira (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Cubas Brás). Mudei para outro: Durante o dia, e por consideração para com os pais, Gregor não queria chegar à janela. Nos poucos metros quadrados do quarto também não podia deambular muito, ficar deitado sem se mexer era coisa que nem de noite já suportava muito bem, passado pouco tempo a comida já não lhe dava grande prazer, e assim, para se distrair, ganhou o hábito de rastejar em todas as direcções pelas paredes e pelo tecto. Não era mau, mas nunca se sabe se está a começar uma coisa melhor noutro canal. Mudei e Mrs. Dalloway tinha ido comprar ela própria as flores. As séries inglesas de época são demasiado aborrecidas e por isso desisti e fui-me deitar.
A noite de hoje vai ser diferente, vou pôr uma cadeira frente à máquina de lavar e fazer zapping entre o programa da roupa clara e o programa da roupa delicada.

20 junho 2006

Não sei que deusa da fertilidade andou a passear pela brisa da tarde, mas descobrimos que mais uns amigos vão ser pais, lá para o final de Novembro. Na Antiguidade dizia-se que na Lusitânia as éguas eram fecundadas pelo vento. As mulheres, felizmente, contam também com a nossa preciosa ajuda para conceberem filhos velozes.
Sempre que me anunciam um futuro nascimento tenho vontade de escrever duas cartas. Uma ao Prof. Medina Carreira, a pedir-lhe para rever as suas previsões sobre a falência do sistema de segurança social, e outra para as maternidades, a perguntar se fazem descontos para grupos. Mas é só enquanto dura o efeito do champanhe.
Parabéns, Mafalda e Zé Pedro.

19 junho 2006

Diário de Barcelona em 126 palavras

Estive de férias. Fui engolido por um grande peixe, como Jonas, nas casas Batló e Milà, de Gaudí, com tectos suportados por arcos parabólicos, como o interior de um tórax, e linhas curvas e orgânicas, como as entranhas de um animal marinho. Se fosse como nos desenhos animados, teria encontrado um marinheiro sentado nos destroços de um barco de madeira e saído no jacto do buraco de respiração da baleia. Como são apenas casas, saí pelas portas de vidro e ferro forjado para as ruas de Barcelona, onde há pessoas a andar por todo o lado, a todas as horas, e sentadas nas esplanadas ou nos bancos públicos das praças. Comi gaspapxo, paella e frango com ameixas e volto gordo e cansado como um pugilista reformado.

01 junho 2006

♀

Ontem à noite as condições meteorológicas estavam favoráveis para uma ecografia. O céu estava limpo no interior da J. Mesmo assim, como os físicos e os astrónomos sabem, é tão difícil interpretar o infinitamente grande como o muito pequeno. A actividade mais parecida é a observação de nuvens: vemos o que queremos ver. Um círculo luminoso pode ser uma cabeça vista de cima ou uma lua cheia; um traço branco tanto pode ser uma luz fluorescente como um fémur. O médico, que é astrónomo amador, viu uma menina.

30 maio 2006

Blogóidismo

Anda aqui um tipo a escrever coisas sérias e ninguém liga, sobre política, ou sobre filosofia, ou literatura clássica, a mostrar que somos (muito, muito) inteligentes e (muitíííssimo) cultos... Depois um gajo escreve umas patacoadas com umas fotos de cuecas e o pessoal vá de postar comentários. Tá mal, esse estímulo ao blogóidismo. Oh, Tiago, damos ao povo o que o povo quer, pão e circo (neste caso circo), escrevemos de vez em quando um post blogóide, ou mantemos o registo de um blog dito sério?...

29 maio 2006

Comprei O Mito do Eterno Retorno de Mircea Eliade na Feira do Livro e levei-o para a viagem no Alfa Pendular. Um rapaz que estava na mesma carruagem, vendo-o pousado, pediu-mo emprestado por algum tempo. O comboio era nocturno e algures depois de Coimbra adormeci. Quando acordei o rapaz já se tinha apeado, mas o livro estava à minha frente, em cima da mesa. Afinal não é um mito, o livro foi devolvido.

24 maio 2006

Neutralidade histórica

Na Vida Paralela de Sólon, Plutarco conta a história da tomada da ilha de Salamina aos megarenses. Utilizando um subterfúgio, Sólon faz chegar a notícia de que algumas das melhores mulheres de Atenas estavam numa determinada praia a praticar um sacrifício dedicado a Deméter. Quando parte dos soldados de Mégara ruma para o local, num navio transbordante de testosterona, Sólon ordena que as mulheres se retirem e que jovens atenienses imberbes vistam os seus vestidos e tomem o seu lugar, com punhais dissimulados sob as vestes. Segundo o historiador, os megarenses acabaram todos mortos na praia. O mais curioso é não existir qualquer referência ao número de baixas do lado ateniense, sobre o número de jovens violados antes de se revelar o logro.

23 maio 2006

dezasseis semanas

O pior de tudo é a opacidade. Se o umbigo fosse amplo e transparente, como uma escotilha ou um óculo de máquina de lavar, podíamos ir espreitando. Assim, é como ter um mineiro preso no fundo de um túnel. Podemos ir falando com ele para o acalmar, passar-lhe comida e bebida através de um tubo, mas temos de esperar pacientemente até chegar o momento de o trazer à superfície.

18 maio 2006

Cidade-Estado

É frequente encontrarmos em livros de história e de ciência política elogios ao sistema de autogovernação das colónias norte-americanas da Nova Inglaterra do século XVII, com descrições de town meetings onde se discutiam os assuntos da comunidade e se tomavam decisões de forma democrática e igualitária. Embora não nos apercebamos, existe em Portugal um equivalente contemporâneo, organizado em torno de uma unidade política denominada «Condomínio».
No prédio onde morávamos até há uma semana nunca constituímos condomínio, e por isso vivíamos num estado de natureza em que, por sorte, a vida nunca foi demasiado solitária, pobre, sórdida, selvagem ou curta. Com a mudança, estava à espera de passar algumas interessantes noites de Sábado a discutir com os outros condóminos a limpeza das escadas, as infiltrações no telhado e a manutenção dos animais domésticos. Mas, aparentemente, a especialização da política também chegou a estas microcidades-estado: o poder foi transferido para um pequeno leviathan, a que os aldeões chamam empresa de gestão de condomínios. A situação não é nova, não é a primeira vez que herdo um contrato social que não assinei.

16 maio 2006

A internacional da andorinha migratória


Na Guiné-Bissau foi criado um novo partido na linha do PND português, de Manuel Monteiro, noticiou a Lusa esta tarde. Daqui a um tempinho o saudoso doutor Monteiro deve aparecer por aí a anunciar a Internacional da Nova Demoracia, ou o movimento da andorinha migratória.

15 maio 2006

A revolta das cuecas


Não, isto não se está a tornar um fetiche. Mas, francamente, acho que ontem as velhinhas de Alfama deram todas em pôr cuecas solitárias ao sol. Será um sinal cabalista do fim dos tempos, esta exposição compulsiva de objectos que representam a menopausa, e logo o fim da fertilidade, e logo o fim da reprodução, e logo a falência absoluta do sistema de Segurança Social, e logo que todos vamos ter de pagar mais contribuições porque temos menos filhos, e logo que não vamos ter reformas, e logo que vai baixar ainda mais a produtividade por ficarmos desmotivados, e o país vai enterrar-se ainda mais na crise... Aaaarrgh, estamos perdidos! Portugal não tem salvação. Sr. engenheiro, proíba as velhinhas de Alfama de espalharem maus augúrios em cuecas, bandeirolas da desgraça, e tome a medida ambiental mais sensata: nada de cuequinhas na janela depois dos 60.