10 maio 2005

A vida antes do «Pictionary»



A história é conhecida. William S. Burroughs – autor beat que escreveu Naked Lunch –, bêbedo, decide brincar ao Guilherme Tell com a sua mulher, um revólver e um copo com água. Joan Vollmer aparentemente achou boa ideia, mas também já não estava muito sóbria. Estavam no México, de visita a casa de uns amigos e talvez se tenha instalado um silêncio constrangedor. Como se provou alguns segundos mais tarde, foi um dos desbloqueadores de conversa mais infelizes da história das relações sociais. William acerta em cheio na cabeça e Joan e o copo com água acabam ambos estilhaçados no chão. A história não tem moral – a não ser talvez a de que a brincadeira resulta melhor com frutos do que com objectos de vidro –, apenas uma constatação: a escassez de pensamento racional no neto (William S. Burroughs) de um homem que enriqueceu a produzir máquinas de calcular (Burroughs Adding Machine Company).

09 maio 2005

Sobre referendos e a prioridade da democracia sobre as concepções de bem

Nem todos os assuntos deveriam poder ser objecto de deliberação colectiva. Nas democracias liberais existe um razoável consenso em torno desta ideia. Não é por isso estranho ouvir-se dizer com alguma frequência que a liberdade individual não se referenda ou que a vida não se referenda. Existem questões que não deveriam depender da vontade de uma maioria conjuntural, cuja salvaguarda deveria estar consagrada a nível constitucional, mas numa sociedade em que ainda não chegou a acordo sobre todas elas, a democracia deve ter prioridade sobre as diversas concepções de bem. A alternativa à deliberação democrática é, no extremo, a guerra civil. Existem assuntos e tempos extremos que merecem uma guerra civil, para todos os outros, os limites à deliberação democrática são tão extensos e frágeis como os da própria democracia liberal.

Sobre referendos e o princípio representativo

No Federalista N.º 10, James Madison traça a distinção entre uma república, um tipo de governo baseado na representação, e uma democracia pura. Segundo ele, a principal vantagem da primeira sobre a segunda seria: «to refine and enlarge the public views, by passing them through the medium of a chosen body of citizens, whose wisdom may best discern the true interest of their country». A ideia de que a tomada de decisões por representantes eleitos não é apenas um mecanismo inevitável em sociedades complexas, em que os cidadãos não podem reunir-se eles próprios para decidir tudo a todo o momento, mas preferível, esteve sempre de alguma forma presente nos debates teóricos sobre a democracia representativa. Desde algumas concepções elitistas de direita sobre a existência de uma aristocracia natural até algumas concepções elitistas de esquerda sobre o partido como a vanguarda do proletariado. As assembleias representativas têm legitimidade para tomar decisões em nome dos cidadãos que as elegem, mas não contra eles, de forma preventiva, quando existam dúvidas sobre se o conteúdo da sua deliberação será diferente da opinião dos seus representantes.

06 maio 2005

Dia feliz

Mexia as mãozinhas, esperneava, confortável, num conforto morno que nunca mais voltamos a sentir. E lá estava, no écrã. O rapaz.
Passei há minutos por um velhinho frágil, de saco na mão, numa esquina da Duque d'Ávila. Só depois me pareceu que era o Eduardo Lourenço. Era mesmo.

O terceiro "D"

Em simultâneo com a presença na final do Euro 2004, temos em três anos consecutivos uma equipa portuguesa nas finais das competições europeias. Parabéns ao Sporting! Portugal é finalmente uma nação desenvolvida. O José Barroso deve andar cheio de cachecóis e gravatas da sorte lá pelos corredores de Bruxelas.

05 maio 2005

Antes do tempo

Existem vários testes práticos para se avaliar se uma pessoa é conservadora ou progressista, cuja total falta de validade científica não deve impedir-nos de os utilizar com segurança. Um dos mais conhecidos é o da máquina do tempo: se encontrássemos uma estacionada em segunda fila, com a chave na ignição, visitaríamos o passado ou o futuro? As probabilidades apontam para que um conservador viajasse até ao passado e um progressista até ao futuro. Pessoalmente, prefiro uma variante: interrogarmo-nos se teremos nascido demasiado cedo ou demasiado tarde. A maioria dos conservadores sentirá que nasceu demasiado tarde, que a idade de ouro da humanidade já terá passado. A maioria dos progressistas achará o contrário. Perante o dilema, acho que nasci demasiado cedo. Não porque não me compreendam, porque esteja demasiado à frente do meu próprio tempo ou qualquer outra explicação fascista do género. Apenas porque a exploração espacial está apenas no começo, é provável que não venha a assistir às primeiras colonizações de planetas desabitados, ainda não se descobriram energias limpas capazes de satisfazerem as nossas necessidades inesgotáveis de consumo e a genética é ainda uma ciência quase inexplorada. Este último ponto é bastante importante. Embora não acredite na imortalidade da alma, tenho esperança que a ciência nos aproxime da imortalidade do corpo ou, pelo menos, do prolongamento da vida. Neste aspecto, como em outros, a humanidade tem progredido em sentido inverso aos relatos da Bíblia. No Génesis contam-nos que os primeiros homens viviam muito tempo e que a esperança média de vida tem vindo a decrescer consideravelmente. Adão viveu 930 anos, Set 912, Enós 905, Quenan 910, Maalaleel 895, Jéred 962, Henoc 365, Matusalém 969, Lamec 777, Noé 950. Mas os últimos homens viverão certamente muito mais.

We have more beginnings

As primeiras rugas de expressão começaram a notar-se. Podíamos deixar-nos envelhecer graciosamente mas optámos por fazer um lifting. Baixámos as luzes: decidimos passar a ter imagens e queremos que a experiência de atravessar os espelhos seja semelhante à de entrar numa sala escura de cinema, na matiné de um filme estranho em que o espectador está sentado numa sala vazia com a cumplicidade do projeccionista e do arrumador. É favor desligar os telemóveis durante a sessão e não fazer muito barulho com as pipocas.

Vítor (projeccionista) e Tiago (arrumador)

[O nosso sistema de comentários teve uma morte súbita. Já o substituímos por um novo mas, infelizmente, as mensagens antigas perderam-se no limbo dos comentários.]

03 maio 2005

O estilo, qual estilo?

Santana Lopes disse ontem à SIC-Notícias que apreciava o estilo de José Sócrates. Ora, o estilo de Sócrates - que é mais uma gestão criteriosa de silêncios do que uma medição cuidadosa de palavras -, está exactamente nos antípodas do estilo espalhafatoso que Santana cultivou desde a primeira hora. Ou estaria o Pedro a referir-se àquele fato Hugo Boss que vai tão bem com a gravatinha de uma só cor do primeiro-ministro? É que, de facto, o homem tem estilo...

Aborto empurrado para outro inquilino

Não surpreeende. Jorge Sampaio não vai convocar o referendo sobre a despenalização do aborto. Já tinha avisado que não o faria para uma data que prejudicasse a participação popular: ou seja, Julho, como obrigavam os prazos legais. Quem como Sampaio deseja despenalizar o aborto, tem de concordar que, dado o calendário eleitoral, a pergunta só deve ir a votos em 2006. Nem já, nem com as autárquicas, nem com as presidenciais.

O Presidente usou de um bom senso elementar: mais vale adiar o referendo um ano do que fazê-lo mal e à pressa (com menos de 50% de votantes), o que nos deixaria mais sete ou oito anos reféns da situação actual.

Sócrates perdeu, mas já pode dizer à esquerda do seu partido que tentou; e assim ganhou tempo com mais um debate inútil para que não se falasse da governação. Mendes ganhou, condicionando com a sua chantagem a estratégia do PS e do Presidente - que desejam o referendo europeu em conjunto com as autárquicas e por isso precisam do PSD para a revisão constitucional. Para já, o aborto foi empurrado com a barriga para o próximo inquilino do Palácio de Belém. Esperemos que Cavaco seja sensível...

30 abril 2005

Paul Auster no Chiado: o oráculo das ilusões

Somos todos provincianos. Há pouco mais de uma hora, a sala da FNAC do Chiado estava tão à cunha que alguém teve de abrir a janela senão os admiradores do senhor escritor Paul Auster desfaziam-se em suores. Eram nove da noite, a hora a que estava marcado o encontro para ouvir o americano a falar, a dizer alguma coisa dos seus livros, pelo menos dos sete volumes que eu e a Carla temos aqui na estante, mesmo atrás de mim, entre o Ian McEwan e o Michael Cunningham.

O senhor escritor chegou vinte minutos atrasado. Como a sala já estava cheia pelo menos desde as oito e meia, a espera foi de 45 minutos para a maioria das pessoas. Quase todas em pé. Auster chegou. Aplausos. O editor da Asa pediu desculpas. "Agradeço em nome da Asa a vossa Presença", afirmou, sem notar a menção ao nome da concorrência. "E o sr. Paul Auster não vai falar porque está cansado". Ooooohh!

Bem, o senhor Auster disse uma frase ou duas, como por exemplo, que esta viagem a Lisboa tinha sido uma das melhores da sua vida. Que bom. Ou que não ia falar, porque lhe tinham dito que esta noite era só para assinar livros, e assiná-lo é isso mesmo, não mais do que uma assinatura: explicou que estava ali tanta gente, que não ia escrever uma dedicatória sequer, apenas o seu autógrafo, porque uma sessão de autógrafos é para assentar a grafia do autor, não é para dedicar, trabalho mais elaborado que exige cachets generosos e negociações demoradas.

Ora o povo agradecido perante tão magnânimo gesto, aplaudiu. Não apupou. Nem pateou. Ainda havia a possibilidade de possuir a assinatura daquele punho soberbo. A assinatura. Sem palestra. Sem dedicatória. Fomo-nos embora, eu e a Carla, envergonhados. Mesmo assim, fiquei com esta dúvida: é ele que é arrogante, presunçoso e desrespeitador dos que lhe permitem aquele modo de vida; ou somos nós todos pacóvios provincianos?

29 abril 2005

Até não me importava de passar a noite em claro

Estranho o silêncio do Tiago sobre a vitória do Sporting contra o AZ Alkmaar. Estranho, pela mesma razão, o que levou o Martim Silva a exagerar em sentido contrário e a mudar o nome do seu blogue Mau Tempo no Canil para Bom Tempo no Canil, e a impingir-nos o emblema do clube no cabeçalho. OK, até compreendo o sentimento daqueles adeptos pouco habituados a ganhar. Dou um desconto, pois sofro pelo FCP, e habituei-me às glórias do meu clube, mas ontem dei por mim a torcer patrioticamente pelo Sporting. Já sei que me vou arrepender: quando os lagartos ganham, o que felizmente é raro, passo uma noite sem dormir embalado pelas cavalgaduras que passam por debaixo da minha janela, na rua do Arsenal, a caminho da Praça do Município e a cantar: "Só eu sei por que não fico em casa..."Pois se o Sporting ganhar desta vez (a UEFA, não o campeonato) vou cantar com eles também.

28 abril 2005

Ditadura segundo Arnaldo

"Temos uma ditadura. Chama-se democracia", disse por estes dias o camarada e grande educador do povo Arnaldo de Matos, ex-grande líder do MRPP, num debate sobre o 25 de Abril - conta-nos o jornalista Adelino Gomes no Público de hoje.

É claro que se mantém o interesse em ouvir estas velhas carcaças revolucionárias, do mesmo modo que o arqueólogo olha para a cerâmica em cacos. "A democracia é a mais suave das ditaduras", ensina-nos ele, cujo ideal seria quem sabe uma ditadura mais rija. O mundo de quem ainda pensa assim hoje é um gueto mental, onde também habitam os comunistas. A esquerda não é isto, nunca o devia ter sido. O camarada Arnaldo é uma velha pintura num mural de uma parede decrépita.

Mas não esqueçamos: foi ele que moderou alguns dos ímpetos mais revolucionários do jovem que hoje preside à Comissão Europeia, quando mandou o camarada Zé Manel devolver à procedência a mobília roubada ao presidente do Conselho Directivo da Faculdade de Direito...

27 abril 2005

Casadebanhosferas

O Voz do Deserto faz esta curiosa referência: Escrevia Maria Filomena Mónica há umas semanas: "a maioria dos blogues são versões modernizadas do que dantes se escrevia nas paredes das casa de banho públicas". Ora, ao contrário de Mena Mónica, nem todos tivemos o privilégio de frequentar as casas de banho certas. Coisas de berços…
Hoje está sol. O dia vai ser límpido. Boa sorte, Tiago!

A luz municipal

A luz, numa das grandes janelas do edifício da Câmara Municipal e Lisboa, estava acesa ontem à noite, às onze horas, quando fui estacionar o carro. Pensei: será o Santana, será o Carmona? Aquele candelabro imenso e aceso dava a impressão de estar a alumiar alguém que trabalhava por nós. Que nos cuidava, uma coisa assim à la Salazar, a tratar do país, a bem da nação. Tirei o carro da rua Nova do Almada e estacionei-o no largo de São Julião. Quando passei na Praça do Município, as luzes já estavam apagadas. Fomos todos abandonados.

25 abril 2005

Viva a República! Viva a democracia!

O regresso do velho CDS

A inesperada eleição de José Ribeiro e Castro como líder do CDS/PP autoriza-nos as seguintes conclusões:
1- Monteiro e Portas não mataram o velho CDS democrata-cristão.
2 - Afinal o CDS não é uma imagem reflectida de Paulo Portas, senão Telmo Correia e os portistas teriam ganho;
3 - Não há vencedores por antecipação;
4 - Nem sempre a gestão dos tabus dá bom resultado; muito menos quando o autor do tabu se anuncia como um homem comum e não como um prometido ou um providencial;
5 - O CDS é um partido desestruturado: a vitória de uma figura inesperada, contra a direcção que está, só é possível quando as estruturas de liderança intermédias são fracas;
6 - O candidato apoiado por Nobre Guedes ganha sempre; resta saber qual foi o papel de Paulo Portas junto do amigo Guedes nestes bastidores;
7 - Se, por ventura, Portas ajudou à vitória de Ribeiro e Castro contra Telmo, é porque estará de volta daqui a uns tempos...