Devemos à conjunção de um espelho e de uma enciclopédia a descoberta deste mundo. Por Vítor Matos e Tiago Araújo
23 fevereiro 2005
Como o tempo passa. Três dias sem um post e tudo a acontecer. Santana a demitir-se apesar de achar que nem era preciso; Marques Mendes a fazer aquilo que sempre quis, tentar chegar a líder; Luís Filipe Menezes a dar-lhe caça; e os notáveis do partido à procura de alguém mais sólido e abrangente. Até parece que nem foi histórica a vitória do PS e que vamos ter Governo novo. O PSD em crise é um espectáculo, e o próximo congresso vai bater os recordes de audiências da SIC Notícias. Para já, os socialistas agradecem. Espero que os laranjinhas acertem na escolha, desta vez, porque as boas oposições são fundamentais para as maiorias absolutas.
22 fevereiro 2005
O catenaccio político de Sócrates... e o resto
José Sócrates inaugurou a era do catenaccio político. Alcançou a maioria absoluta da mesma maneira que a Grécia bateu Portugal no Euro: sem arriscar, sem dar um passo em falso, a jogar sem na verdade jogar, a confiar no excesso de voluntarismo do adversário, à espera que o concorrente demasiado atacante se espalhasse sozinho e abrisse os flancos, a defesa, o ataque. Um jogo rígido, plástico, sem mostrar o que tem de bom para também não se ver o mau. E, no caso em concreto, a outra equipa ajudou. Nos últimos dias de campanha Santana comportava-se com o desespero das equipas que estão a perder 3-0, e Sócrates como as que têm o jogo garantido. Curiosamente, o PS conquista a sua maior vitória de sempre sem euforias. Quando uma equipa pratica catenaccio (ciência do futebol defensivo), tem a consciência que vence mais por demérito do adversário que pelos seus grandes pergaminhos.
Pedro Santana Lopes, na sua declaração de derrota, olhos avermelhados e voz baça, começou por dizer que tinha a "honra" de ser amigo de Paulo Portas. Porque Portas fez o que fez: demitiu-se assumindo uma derrota enorme, pouco mais de um por cento. Nesse momento, pareceu que ele havia de dizer: "O Paulo também terá a honra de me ter como amigo, porque a minha derrota é muito maior, e até contribui para a dele, portanto, demito-me e saio destas funções, porque fui derrotado e dei à esquerda a sua maior vitória de sempre, e é esta a melhor maneira de me responsabilizar por isso". Ora, nada de mais errado esperar tal coisa: Santana deixou o PSD no limbo: não se demitiu para ver quem eram os coelhos que saíam da toca. Só apareceu Marques Mendes, todos os outros estão por agora perdidos na confusão da contagem de espingardas. O Pedro tem um sonho, mas não percebe que o sonho dele se está a tornar o pesadelo da instituição que devia salvaguardar, caso se inspirasse verdadeiramente em Sá Carneiro. A sua permanência na liderança e uma possível recandidatura é uma tragédia que ultrapassa as fronteiras do PSD: porque Portugal precisa desse partido saudável.
Paulo Portas criou o happening da noite. Alguém acredita que pode haver um CDS sem P.P.? A vaga de fundo para trazer o Paulo de volta já começou. Resta saber se ele não colocou a fasquia eleitoral tão alta (logo ele, um conservador calculista) para não ter de passar quatro anos a fazer números de trapézio com cambalhota no Parlamento. Ainda terá paciência para isso? Prognóstico: se Portas sair mesmo - e se não se candidatar à Presidência da República -, voltará ao CDS como um messias dentro de dois ou três anos para disputar outras eleições em que possa regressar ao Governo.
Jerónimo de Sousa fez o PCP crescer em percentagem e em votos (50 mil), o que não deixa de ser extraordinário, já que não o fez à custa nem do PS nem do Bloco de Esquerda. Apesar de rouca, a voz do operário fez-se ouvir. O declínio final do PCP fica adiado por mais uns tempos, enquanto não se peceber muito bem o que a cabeça daquele homem simpático na realidade pensa.
Francisco Louçã não podia imaginar. Oito (oito) deputados, quando o Bloco só pedia o dobro de parlamentares e votação. Agora, e com a maioria absoluta do PS, isto não significa que o BE venha a ter o dobro da influência que tinha. Estarão eles desradicalizar-se? Temos de esperar para ver se Louçã consegue irritar Sócrates como tão bem conseguia fazer com Barroso.
Brancos foram os votos que cresceram quase o dobro. O resultado dos votos de protesto tem significado (mais de 100 mil) e devíamos reflectir sobr eo fenómeno, porque pertencem a cidadãos preocupados que não ficaram em casa a coçar a micose.
Abstenção não é preocupante. O nível alto de participação sim. Porque as pessoas perceberam que isto bateu mesmo no fundo e mais uns 300 mil resolveram ir votar. É bom, porque os portugueses se preocupam com o seu país e não se querem alhear. É mau, porque cidadãos mais despreocupados correspondem a sociedades e a momentos em que o contexto é menos grave.
Jorge Sampaio deve estar contente. Mesmo sem ter encomendado sondagens, interpretou o que sentia a sociedade portuguesa, que baniu Santana com uma maioria absoluta de um PS que tinha deixado má memória recente. Mas este momento dissolvente deve ser absolutamente excepcional. Tal como sucedeu, deve ser justificado apenas por razões políticas e de dignidade do Estado, e não por discordância em relação às políticas - de policy - (democráticas) que um Governo queira implementar. Para isso há o veto.
Pedro Santana Lopes, na sua declaração de derrota, olhos avermelhados e voz baça, começou por dizer que tinha a "honra" de ser amigo de Paulo Portas. Porque Portas fez o que fez: demitiu-se assumindo uma derrota enorme, pouco mais de um por cento. Nesse momento, pareceu que ele havia de dizer: "O Paulo também terá a honra de me ter como amigo, porque a minha derrota é muito maior, e até contribui para a dele, portanto, demito-me e saio destas funções, porque fui derrotado e dei à esquerda a sua maior vitória de sempre, e é esta a melhor maneira de me responsabilizar por isso". Ora, nada de mais errado esperar tal coisa: Santana deixou o PSD no limbo: não se demitiu para ver quem eram os coelhos que saíam da toca. Só apareceu Marques Mendes, todos os outros estão por agora perdidos na confusão da contagem de espingardas. O Pedro tem um sonho, mas não percebe que o sonho dele se está a tornar o pesadelo da instituição que devia salvaguardar, caso se inspirasse verdadeiramente em Sá Carneiro. A sua permanência na liderança e uma possível recandidatura é uma tragédia que ultrapassa as fronteiras do PSD: porque Portugal precisa desse partido saudável.
Paulo Portas criou o happening da noite. Alguém acredita que pode haver um CDS sem P.P.? A vaga de fundo para trazer o Paulo de volta já começou. Resta saber se ele não colocou a fasquia eleitoral tão alta (logo ele, um conservador calculista) para não ter de passar quatro anos a fazer números de trapézio com cambalhota no Parlamento. Ainda terá paciência para isso? Prognóstico: se Portas sair mesmo - e se não se candidatar à Presidência da República -, voltará ao CDS como um messias dentro de dois ou três anos para disputar outras eleições em que possa regressar ao Governo.
Jerónimo de Sousa fez o PCP crescer em percentagem e em votos (50 mil), o que não deixa de ser extraordinário, já que não o fez à custa nem do PS nem do Bloco de Esquerda. Apesar de rouca, a voz do operário fez-se ouvir. O declínio final do PCP fica adiado por mais uns tempos, enquanto não se peceber muito bem o que a cabeça daquele homem simpático na realidade pensa.
Francisco Louçã não podia imaginar. Oito (oito) deputados, quando o Bloco só pedia o dobro de parlamentares e votação. Agora, e com a maioria absoluta do PS, isto não significa que o BE venha a ter o dobro da influência que tinha. Estarão eles desradicalizar-se? Temos de esperar para ver se Louçã consegue irritar Sócrates como tão bem conseguia fazer com Barroso.
Brancos foram os votos que cresceram quase o dobro. O resultado dos votos de protesto tem significado (mais de 100 mil) e devíamos reflectir sobr eo fenómeno, porque pertencem a cidadãos preocupados que não ficaram em casa a coçar a micose.
Abstenção não é preocupante. O nível alto de participação sim. Porque as pessoas perceberam que isto bateu mesmo no fundo e mais uns 300 mil resolveram ir votar. É bom, porque os portugueses se preocupam com o seu país e não se querem alhear. É mau, porque cidadãos mais despreocupados correspondem a sociedades e a momentos em que o contexto é menos grave.
Jorge Sampaio deve estar contente. Mesmo sem ter encomendado sondagens, interpretou o que sentia a sociedade portuguesa, que baniu Santana com uma maioria absoluta de um PS que tinha deixado má memória recente. Mas este momento dissolvente deve ser absolutamente excepcional. Tal como sucedeu, deve ser justificado apenas por razões políticas e de dignidade do Estado, e não por discordância em relação às políticas - de policy - (democráticas) que um Governo queira implementar. Para isso há o veto.
19 fevereiro 2005
A Carta
Esta carta que o Tiago Araújo recebeu na caixa do correio, esta semana, mostra mais uma das verdadeiras faces de Santana Lopes. A missiva não tem logótipo, nem remetente, nem qualquer referência a um partido. Parece daquelas mensagens que são deixadas no correiro pela igreja Maná. Mas é mais grave. Se fizermos uma análise aprofundada sobre o que o ainda primeiro-ministro aqui diz, chegamos a conclusões preocupantes. Ao longo da história, muitas vítimas anti-sistema e populistas tornaram-se ditadores. Contra tudo e contra todos, em nome dos mais fracos, Robin dos Bosques a mendigar o voto junto dos descamisados. Fica a transcrição da Carta de um pedinte, que ainda merecerá uma análise mais cuidada:
Caro(a) Amigo(a)
Não pare de ler esta carta.
Se o fize, fará o mesmo que o Presidente da República fez a Portugal, ao interromper um conjunto de medidas que beneficiavam os portugueses eas portuguesas.
Portugal precisa do seu voto para fazer justiça.
Só com o seu voto será possível prosseguir as políticas que favorecem os que menos ganham e que exigem mais dos que mais têm e mais recebem.
Você não costuma votar, e não é por acaso.
Afastou-se pelas mesmas razões que eles nos querem afastar.
E quem são eles?
Alguns poderosos a quem interessa que tudo fique na mesma.
Incluindo a velha maneira de fazer política.
Eles acham que eu sou de fora do sistema que eles querem manter. Já pensou bem nisso?
Provavelmente nós temos algo em comum: não nos damos bem com este sistema.
Tenho defeitos como todos os seres humanos, mas conhece algum político em Portugal que eles tratem tão mal como a mim?
Também o tratam mal a si. Já somos vários.
Ajude-me a fazer-lhes frente.
Desta vez, venha votar. É um favor que lhe peço!
Por todos nós,
Pedro Santana Lopes
Caro(a) Amigo(a)
Não pare de ler esta carta.
Se o fize, fará o mesmo que o Presidente da República fez a Portugal, ao interromper um conjunto de medidas que beneficiavam os portugueses eas portuguesas.
Portugal precisa do seu voto para fazer justiça.
Só com o seu voto será possível prosseguir as políticas que favorecem os que menos ganham e que exigem mais dos que mais têm e mais recebem.
Você não costuma votar, e não é por acaso.
Afastou-se pelas mesmas razões que eles nos querem afastar.
E quem são eles?
Alguns poderosos a quem interessa que tudo fique na mesma.
Incluindo a velha maneira de fazer política.
Eles acham que eu sou de fora do sistema que eles querem manter. Já pensou bem nisso?
Provavelmente nós temos algo em comum: não nos damos bem com este sistema.
Tenho defeitos como todos os seres humanos, mas conhece algum político em Portugal que eles tratem tão mal como a mim?
Também o tratam mal a si. Já somos vários.
Ajude-me a fazer-lhes frente.
Desta vez, venha votar. É um favor que lhe peço!
Por todos nós,
Pedro Santana Lopes
18 fevereiro 2005
A semiótica de Menino Guerreiro - o auto-retrato de Santana
Esta cantiga de Gonzaguinha, esquerdista brasileiro, é o hino de Santana. Vamos analisar a letra de "Menino Guerreiro" segundo a qual o líder do PPD se define.
Um homem também chora
Santana não tem razões para rir. Tem feito o PSD a passar as maiores vergonhas da sua história e, assim, choroso assumido, pode soltar as lágrimas quando assumir a derrota no domingo. O primeiro verso é muito próprio para toda e qualquer vítima da vida.
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura
Primeiro, sublinha-se que o candidato gosta de meninas morenas, o que só abona a seu favor, em matéria de colos. Depois, precisa de ternura, de carinho. Na verdade, o que Santana quer é ser amado, em declarações de amor assinadas de cruz em boletins de voto. É um bebé numa incubadora, que sofre quando os irmãos mais velhos lhe dão pontapés e estaladas. Ele precisa de amor, para poder amar o povo que tem o dever de o adorar. Se o povo não o ama, ele chora. É muito pungente...
Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Santana é um guerreiro que faz da linguagem bélica o eixo da sua retórica: as batalhas, os combates, os adversários... Mas é um lutador frágil, um pouco ingénuo, por agir mais com emoção do que com a razão. É um menino, uma criança que não faz o que faz por mal, mas porque é assim mesmo, genuína. Não tem maldade, os episódios, os casos, são fruto dessa meninice adolescente que o impele, como os loucos ou os ininputáveis, a dizer o que pensa em cada momento, em vez de pesar o sentido das palavras e dizer o que diz um homem de Estado.
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem refeitos
O guerreiro não pode apenas lutar. Alguém deve enxugar-lhe as lágrimas, porque os pontapés doem e as facadas nas costas fazem mal às cruzes. Se alguém , todos nós, não dermos um espaço de remanso ou um tempo de descanso ao menino-guerreiro, ele não se refaz. Mas o rapaz tem "um sonho para Portugal". Ou para si mesmo, e é disso que se alimenta.
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Sim, é muito triste ver o peso que ele carrega por sobre os ombros, cada vez mais, em cada entrevista, como a de ontem ao Público/Renascença. É triste ver como um homem assim chegou a primeiro-ministro deste país, da maneira que chegou. Ninguém lhe acaba com este sofrimento de ter tanta responsabilidade sobre uma coluna vertebral tão menina que ainda está imatura para tamanhos encargos?
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Só falta dizer que ele também esperneia. Santana berra conta o Presidente da República, contra os irmãos mais velhos que lhe dão pontapés, contra os companheiros que lhe dão facadas nas costas, contra as empresas de sondagens que não o acarinham, contra a comunicação social que não lhe dá o colo, contra os poderosos banqueiros, contra tudo o que mexe. E depois sangra, sofre que é uma coisa dolorosa de se ver, e até nós temo dó só de olhar para ele. Apenas Santana não se enxerga no meio do círculo que criou à sua volta. Apenas sente a dor que leva no peito.
Pois ama e ama
É verdade. Ama as mulheres que amou, ama os filhos que são muitos, ama o país. Como um líder populista sul americano, poderia amar todo o povo e fazer tudo por esse amor. Mas acima de tudo ele ama-se a si mesmo, o que também é típico.
Um homem humilha-se
Se lhe castram os sonhos
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
Sim, tem-se humilhado bastante porque Sampaio lhe castrou o sonho de uma vida. Ser esmagado numas eleições, ele que sempre se achou imbatível no jogo eleitoral, é uma grande humilhação, de facto.
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Morre-se, mata-se
Vamos ver. Se ele perder o trabalho, ou seja, o emprego como líder do PSD, se tiver consciência de que tudo o que fez nestes cinco meses lhe mancha a honra, o que fará? Matará? Morrerá? Dará lugar a outro? Lutará em congresso contra "os outros" para recuperar a honra? Morrerá de pé, no campo de batalha, como um guerreiro?
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz
Esta é a maior de todas as verdades. Quem vive assim não pode ser feliz. Não dá mesmo. Os altos cargos da nação não foram feitos para meninos guerreiros. Na pior das hipóteses só para guerreiros ou amazonas. Dos musculados e racionais, que não choram, e que fazem aquilo que tem de ser feito, mesmo que não lhe dêem o tal carinho. Santana não pode ser feliz assim, consigo mesmo e com os outros.
O génio da sua campanha que escolheu esta letra para hino foi assassino, autofágico, suicidário. Com amigos destes... Santana já estava à beira do abismo, mas foi dando uns passos em frente, facilitando a tarefa todos os que o empurravam ou que o levavam amigavelmente pela mão. No dia 21 o menino-guerreiro estará livre de todos estes pesos e poderá finalmente viver feliz para sempre.
Um homem também chora
Santana não tem razões para rir. Tem feito o PSD a passar as maiores vergonhas da sua história e, assim, choroso assumido, pode soltar as lágrimas quando assumir a derrota no domingo. O primeiro verso é muito próprio para toda e qualquer vítima da vida.
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura
Primeiro, sublinha-se que o candidato gosta de meninas morenas, o que só abona a seu favor, em matéria de colos. Depois, precisa de ternura, de carinho. Na verdade, o que Santana quer é ser amado, em declarações de amor assinadas de cruz em boletins de voto. É um bebé numa incubadora, que sofre quando os irmãos mais velhos lhe dão pontapés e estaladas. Ele precisa de amor, para poder amar o povo que tem o dever de o adorar. Se o povo não o ama, ele chora. É muito pungente...
Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Santana é um guerreiro que faz da linguagem bélica o eixo da sua retórica: as batalhas, os combates, os adversários... Mas é um lutador frágil, um pouco ingénuo, por agir mais com emoção do que com a razão. É um menino, uma criança que não faz o que faz por mal, mas porque é assim mesmo, genuína. Não tem maldade, os episódios, os casos, são fruto dessa meninice adolescente que o impele, como os loucos ou os ininputáveis, a dizer o que pensa em cada momento, em vez de pesar o sentido das palavras e dizer o que diz um homem de Estado.
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem refeitos
O guerreiro não pode apenas lutar. Alguém deve enxugar-lhe as lágrimas, porque os pontapés doem e as facadas nas costas fazem mal às cruzes. Se alguém , todos nós, não dermos um espaço de remanso ou um tempo de descanso ao menino-guerreiro, ele não se refaz. Mas o rapaz tem "um sonho para Portugal". Ou para si mesmo, e é disso que se alimenta.
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Sim, é muito triste ver o peso que ele carrega por sobre os ombros, cada vez mais, em cada entrevista, como a de ontem ao Público/Renascença. É triste ver como um homem assim chegou a primeiro-ministro deste país, da maneira que chegou. Ninguém lhe acaba com este sofrimento de ter tanta responsabilidade sobre uma coluna vertebral tão menina que ainda está imatura para tamanhos encargos?
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Só falta dizer que ele também esperneia. Santana berra conta o Presidente da República, contra os irmãos mais velhos que lhe dão pontapés, contra os companheiros que lhe dão facadas nas costas, contra as empresas de sondagens que não o acarinham, contra a comunicação social que não lhe dá o colo, contra os poderosos banqueiros, contra tudo o que mexe. E depois sangra, sofre que é uma coisa dolorosa de se ver, e até nós temo dó só de olhar para ele. Apenas Santana não se enxerga no meio do círculo que criou à sua volta. Apenas sente a dor que leva no peito.
Pois ama e ama
É verdade. Ama as mulheres que amou, ama os filhos que são muitos, ama o país. Como um líder populista sul americano, poderia amar todo o povo e fazer tudo por esse amor. Mas acima de tudo ele ama-se a si mesmo, o que também é típico.
Um homem humilha-se
Se lhe castram os sonhos
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
Sim, tem-se humilhado bastante porque Sampaio lhe castrou o sonho de uma vida. Ser esmagado numas eleições, ele que sempre se achou imbatível no jogo eleitoral, é uma grande humilhação, de facto.
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Morre-se, mata-se
Vamos ver. Se ele perder o trabalho, ou seja, o emprego como líder do PSD, se tiver consciência de que tudo o que fez nestes cinco meses lhe mancha a honra, o que fará? Matará? Morrerá? Dará lugar a outro? Lutará em congresso contra "os outros" para recuperar a honra? Morrerá de pé, no campo de batalha, como um guerreiro?
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz
Esta é a maior de todas as verdades. Quem vive assim não pode ser feliz. Não dá mesmo. Os altos cargos da nação não foram feitos para meninos guerreiros. Na pior das hipóteses só para guerreiros ou amazonas. Dos musculados e racionais, que não choram, e que fazem aquilo que tem de ser feito, mesmo que não lhe dêem o tal carinho. Santana não pode ser feliz assim, consigo mesmo e com os outros.
O génio da sua campanha que escolheu esta letra para hino foi assassino, autofágico, suicidário. Com amigos destes... Santana já estava à beira do abismo, mas foi dando uns passos em frente, facilitando a tarefa todos os que o empurravam ou que o levavam amigavelmente pela mão. No dia 21 o menino-guerreiro estará livre de todos estes pesos e poderá finalmente viver feliz para sempre.
Um novo Cavaco
Nos jornais de hoje, as sondagens dão a maioria absoluta ao PS. No entanto, o fantasma do empate ainda não passou. Permanece essa possibilidade em aberto, conforme a distribuição dos deputados.
Hoje é tão difícil imaginar Sócrates à frente de um Governo de Portugal (sobretudo com maioria absoluta) como há dois anos e meio era de rebolar no chão a rir se ouvíssemos dizer que Durão Barroso seria presidente da Comissão Europeia. Sócrates, um novo Cavaco? Também dá vontade de sorrir, mas veremos como tudo acaba daqui a umas 60 horas.
Hoje é tão difícil imaginar Sócrates à frente de um Governo de Portugal (sobretudo com maioria absoluta) como há dois anos e meio era de rebolar no chão a rir se ouvíssemos dizer que Durão Barroso seria presidente da Comissão Europeia. Sócrates, um novo Cavaco? Também dá vontade de sorrir, mas veremos como tudo acaba daqui a umas 60 horas.
Epílogo
Epílogo de um debate ao fim de uns dias: foi espantoso ver como os únicos dois homens que podem chegar a primeiro-ministro, Santana e Sócrates, estavam tão desmotivados, sem força nas palavras, seguros das suas posições de vencedor e derrotado. Nenhum deles parecia verdadeiramente entusiasmado com a ideia de mandar no destino deste país. Portas e Louçã, que têm nichos de eleitorado muito bem definidos, não precisam de fazer discursos chochos, e na televisão isso funciona a seu favor.
15 fevereiro 2005
Declarações finais - Debate XXIV
Louçã fala para a câmara, recomenda as melhoras de Jerónimo e enuncia a suas políticas essenciais (contra o aumento da idade da reforma, também).
Santana pede as melhoras do comunista, garante que fala a verdade, que não aumentará os impostos directos (e os indirectos?), diz que haverá estabilidade para se criarem empregos, pagará estágios aos jovens.
Sócrates desta vez (ao contrário do frente-a-frente) também fala para a câmara: "deixo esta ideia", repete, mas não fala de medidas, apela ao voto, diz que um voto no PS não é um voto de protesto, mas de mudança. Todavia não fala de qualquer proposta concreta, apenas enuncia generalidades. "Uma menagem de energia é absolutamente necessária". O que é que isto quer dizer?
Portas diz que Portugal precisa de liderança. Ser capaz de ter ideias claras e reunir uma equipa. Invoca o sentido de Estado do CDS (por contraposição ao do PSD), apela ao voto dos abstencionistas e aos jovens. "Não acredito em treinadores de bancada que só vendem pessimismo". E isto, o que quer dizer?
Santana pede as melhoras do comunista, garante que fala a verdade, que não aumentará os impostos directos (e os indirectos?), diz que haverá estabilidade para se criarem empregos, pagará estágios aos jovens.
Sócrates desta vez (ao contrário do frente-a-frente) também fala para a câmara: "deixo esta ideia", repete, mas não fala de medidas, apela ao voto, diz que um voto no PS não é um voto de protesto, mas de mudança. Todavia não fala de qualquer proposta concreta, apenas enuncia generalidades. "Uma menagem de energia é absolutamente necessária". O que é que isto quer dizer?
Portas diz que Portugal precisa de liderança. Ser capaz de ter ideias claras e reunir uma equipa. Invoca o sentido de Estado do CDS (por contraposição ao do PSD), apela ao voto dos abstencionistas e aos jovens. "Não acredito em treinadores de bancada que só vendem pessimismo". E isto, o que quer dizer?
Golo de Sócrates - Debate XXIII
Sócrates agora esteve bem: se o CDS crescer é à custa do PSD. Com a ferida aberta, ele foi lá mexer um bocadinho.
Paulo mete a faca no Pedro - Debate XXII
"Sócrates não é a única pessoa a dizer que não se pronuncia pelos cenários que não lhe são favoráveis". Paulo Portas não diz que vai estar em tudo ao lado do PSD (se perder). Mais uma facadita nas costas do Santana. E mostra mais um quadro, a dizer que com mais um por cento elege mais uns oito deputados: "O sonho da maioria absoluta do PS pode tornar-se uma ideia relativa". O que é que o senhor 10% fará se não chegar lá?
(É engraçado ouvir Portas acusar o PCP de ser contra a União Europeia)
(É engraçado ouvir Portas acusar o PCP de ser contra a União Europeia)
Louçã namora com o do lado - Debate XXI
Francisco Louçã não tem a mínima dívida que o PS ganhe as eleições. É interessante assumir isto assim. "Chegaremos ao Governo quando tivermos votos para isso", diz. "Está em jogo a estabilidade política das políticas sociais". Lá está o namoro como camarada do lado, dizendo quais são as plíticas onde pode haver acordos.
Santana pela maioria - debate XX
Santana diz que o país exige uma votação forte no partido que ganhe as eleições. Sócrates agradece... Lopes diz que Governa na mesma, sem maioria (com o CDS). Pudera, só faltava dizer que se ia embora se não tivesse maioria absoluta.
Ai, ai, as coligações - Debate XIX
Sócrates volta a falar de um objectivo: a maioria absoluta. Também engoliu uma cassete, mas não ficou roufenho. Sim, e o Bloco, vais ou não vais com o Bloco? Ainda não respondeu, foge e foge, para não se comprometer. E ninguém lhe deita a mão, para ele ter mesmo de falar? Um plano B?, pergunta o jornalista. E deixa Sócrates fugir, que não responde.
O BE e a droga - Debate XVIII
"Só precisamos de aprender como que se faz bem no estrangeiro". Louçã cita o caso espanhol onde o Governo de direita introduziu as salas de chuto na prisões. Era interessante ouvir Santana sobre isto, porque tem uma posição mais heterodoxa e um dos seus melhores amigos é especialista no tema.
Portas lança os seus ministros - Debate XVII
Portas apresenta um esquema sobre a saúde e diz o que costuma dizer Maria José Nogueira Pinto, a cara do CDS para a Saúde. Aqui e ali vai atirando os nomes dos seus ministros.
A gravata guterrista de Sócrates - Debate XVI
Bem, a gravata de Sócrates é assim um bocado para o guterrista: não é preta, mas quando não lhe dá a luz até parece negra. Não está de luto, mas quem quiser pensar que sim até pode fazê-lo porque é tudo menos uma gravata festiva.
Francisco marca golo - Debate XV
Louçã diz que Santana aproveitou para fazer um telefonema para se informar porque não sabia sobre o assunto: 1-0.
Agora insinua que o Governo cedeu às pressões da banca e diz para Santana ir fazer outro telefonema. Genial. Só Portas faria melhor.
E Portas sabe tanto... não quis fazer qualquer réplica sobre o tema: o Santana que se enterre sozinho.
Agora insinua que o Governo cedeu às pressões da banca e diz para Santana ir fazer outro telefonema. Genial. Só Portas faria melhor.
E Portas sabe tanto... não quis fazer qualquer réplica sobre o tema: o Santana que se enterre sozinho.
Santana responde a Louçã - Debate XIV
Santana foi estudar as perguntas de Louçã no intervalo sobre banca e fusões. É um exercício arriscado, dar estas respostas assim na hora. Está sempre mais sujeito aos tais erros das pessoas que o informam.
PSL debita números no afã de credibilizar o discurso. Não funciona. Ninguém percebe um gráfico falado.
PSL debita números no afã de credibilizar o discurso. Não funciona. Ninguém percebe um gráfico falado.
A educação de Louçã - Debate XIII
Aquilo que o radical Louçã diz sobre educação também não é daquelas coisas que seja possível defender exactamente o contrário. Ele está a moderar-se... "A boa escola pública é decisiva para a criação de emprego". Isto é uma verdade que ninguém contestará.
Até que a voz lhe doa - Debate XII
Jerónimo saiu definitivamente. A voz não aguentou. É pena. O homem não merecia isto.
Olha agora a limpidez vocal de Louçã. Nisto só Portas o bate.
Olha agora a limpidez vocal de Louçã. Nisto só Portas o bate.
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