27 setembro 2004

146 - Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.

90 - Os homens graves e melancólicos ficam mais leves graças ao que torna os outros pesados, o ódio e o amor, e assim surgem de vez em quando à sua superfície.

74 - Um homem de génio é insuportável se, além disso, não possuir pelo menos duas outras qualidades: gratidão e asseio.

98 - Quando adestramos a nossa consciência, ela beija-nos ao mesmo tempo que nos morde. (Nietzsche, Para Além de Bem e Mal)

São frases como estas que justificam o meu interesse por Nietzsche. Um interesse mais estético do que intelectual. As frases perfeitas são tão verdadeiras ou falsas como as outras. Não luto com monstros nem olho para abismos, por precaução, só venho à superfície respirar, tomo banho todos os dias. Já só me falta o génio e cicatrizante para os lábios.

22 setembro 2004

Battlestar Galactica na Rua de São Pedro

Somos a geração mais melancólica ou estamos com a idade mais melancólica. Recomeçou ontem à noite a Galactica (SIC Radical). Quando acabou a reposição do primeiro episódio tive vontade de ir tocar às campainhas do Armando, do Pedro, do Paulinho, do Eduardo, do Paulo Sérgio,... para descerem à rua e começarmos a decidir quem é o Apollo e quem é o Starbuck. Mas o Eduardo mudou-se para o Porto, o Paulo Sérgio para o Algarve, o Paulinho regressou há pouco do Brasil e não sei onde está, muitos dos outros vivem em Alfa de Centauro, Aldebarã ou outros lugares longínquos com nomes suburbanos e a nossa rua é a de uma cidade-fantasma, por onde rolam aquelas plantas redondas dos westerns. Só o Armando e o Pedro é que continuam mais perto, mas somos poucos para formarmos uma esquadrilha de caças inter-galácticos.
O grau de sofisticação da tecnologia e dos efeitos especiais não é tão elevado e a ingenuidade da história e dos diálogos é maior do que me lembrava, mas não deixa de ser a melhor série de ficção científica de sempre.

(Armando, está bem, como és louro podes ser o Starbuck. Eu fico com qualquer outro, desde de acabe com a irmã do Apollo.)

16 setembro 2004

(Blood), Sweat and Tears

Foi com surpresa que acordei hoje de manhã, pois julgava ter assistido ao fim do mundo ontem à noite, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. Cerca de vinte actores-bailarinos apresentaram o resultado final de um estágio orientado por Jan Fabre, com uma coreografia intitulada (Blood), Sweat and Tears. E houve de facto muitas lágrimas, muito suor e, provavelmente, muito sangue nas múltiplas hemorragias internas que os espectadores iam adivinhando nos corpos contorcidos e maltratados dos actores. (Talvez essa a razão para o Blood estar entre (), por o sangue ser interno.)
Há um fenómeno psicológico qualquer em que as vítimas começam a sentir simpatia pelos seus raptores. Só consigo encontrar essa justificação para o facto de ter gostado muito do espectáculo, apesar da prova psicológica a que fui submetido nos primeiros vinte minutos de corpos contorcidos, de choros e de gritos. Depois, corpos vestidos de negro, semi-vestidos de negro e nús; com muito suor e lágrimas e a utilização inteligente de um texto escasso. Sentia-se que a coreografia conseguia despertar emoções extremas não só nos bailarinos mas também nos espectadores que, a julgar por mim, começaram a sentir-se fisicamente extenuados. No final, não houve standing ouvation, mas apenas porque uns, como eu, estavam demasiado cansados para se levantarem, e outros queriam esconder possíveis erecções.

(Obrigado Nuno Moura, vai-nos mantendo informados.)

15 setembro 2004

Quando se começa a instalar um silêncio constrangedor, é habitual falar-se do tempo. Segundo o Instituto de Meteorologia, a previsão do estado do tempo no continente para amanhã é de céu geralmente limpo, com vento fraco (inferior a 15 Km/h) soprando moderado (15 a 25 km/h) de noroeste no litoral oeste durante a tarde. Pequena subida da temperatura, em especial nas regiões do interior. Neblina ou nevoeiro matinal. Para os dias seguintes, espero que o Vítor suba à superfície ou que caia uma boa trovoada, para manter o interesse.

12 setembro 2004

Daqui a umas horas vou para o mar, cinco dias debaixo de água. Já quase me falta o ar. E o submarino não é amarelo. Atravesso o espelho para outra dimensão, um mundo diferente, mas apesar de tudo real. Tiago, este lado do espelho é todo teu.

A nova biografia de Eichmann faz de nós genocidas

O historiador David Cesarini acabou de publicar uma nova biografia de Eichmann, onde contraria alguns argumentos de Hannah Arendt no famoso livro "Eichmann em Jerusalém", escrito nos anos 60 (traduzido em Portugal pela Tenacitas o ano passado). Em "Eichmann: His Life and Crimes", Cesarini diz que o nazi burocrata que concretizou a Solução Final à secretária, não só distinguia o bem do mal, como, apesar de não ser um psicopata, "aprendeu a odiar os judeus". Com isto ele conclui que uma pessoa à partida normal pode transformar-se num genocida, uma teoria que, aliás, não choca com a de Arendt, pelo contrário.

Numa entrevista ao Público, por Cláudia Monteiro (28 Agosto 04), Cesarini diz:

"A maioria das pessoas pensa que nunca poderia estar neste papel, que indivíduos perfeitamente normais nunca cometeriam este tipo de crime. O que Eichmann nos ensina é precisamente o contrário, que um ser humano normal pode tornar-se naquilo que os franceses chamam 'genocidaire', fora do quadro das explicações psicológicas e das explicações políticas sobre os regimes totalitários" - vejamos a Bósnia, Ruanda, Sudão: todos os assassinos são psicopatas ou robôts às ordens de um governo ou ideologia? Onde é que está a linha que separa a guerra do genocídio?

"Existem pessoas em Portugal que lutaram em guerras coloniais brutais e que não são psicopatas" - quem conhece antigos combatentes sabe o que fizeram esses jovens na guerra e o que eles não teriam feito se para lá não os tivessem levado. Mas aí, mais uma vez sobrepõe-se o colectivo ao individual, que é uma ordem do governo que condiciona a experiência dessas pessoas. Nunca tivessem ido à guerra, e nunca teriam matado um ser humano.

"A terrível verdade é que os seres humanos em situações de conflito são capazes de cometer genocídio" - será que a nossa espécie está assim tão condenada como diz Cesarini?

Ver artigo no Guardian sobre o livro.

Há vezes em que triunfa o bem: uma lição do 11 de Setembro

As torres caíram há três anos. E o mundo mudou mesmo, como previram os comentadores, poucas horas depois dos atentados. A propósito do último post, sobre Hitler e por que o bem não triunfa no mundo, uma correcção: os passageiros do voo que se dirigia para Washington e que fizeram despenhar o avião numa zona sem perigo para terceiros, deviam ser os ícones do triunfo do bem moderno. Morreram. Morreriam de qualquer forma. Mas não morreram em vão. Há gente que está viva e nem sabe estar em dívida para com eles. O mal absoluto também foi derrotado pelo bem nesse dia.

10 setembro 2004

O lado humano de Adolf Hitler

O filme sobre os últimos 12 dias de Hitler, "Der Untergang" (O Crepúsculo), do realizador Oliver Hirchbiegel, só estreia no dia 16 na Alemanha, mas já está a criar polémica. Porque a figura do líder nazi aparece humanizada, e por depois de Auschwitz não ser aceitável mostrar o lado humano de um ser assim.

Mas é bom que se mostre o lado humano de Hitler.
Para que vejamos como um ser humano, de carne e osso, como outro qualquer, consegue tornar o mal ao mesmo tempo mais absoluto do que uma catástrofe natural, e tão banal que toda uma sociedade o aceitou e seguiu ao longo de anos. O pior que o monstro pode encerrar é essa humanidade, essa semelhança com cada um de nós, no beijo a uma amante, na festa a um animal doméstico, na fragilidade quando se aproxima do fim. É muito fácil defendermo-nos da impossibilidade de erradicar o mal do mundo concentrando toda a culpa numa aberração da natureza como pensamos que Hitler foi. Realçar o lado humano dele é espalhar por todos nós a culpa de o bem não triunfar em definitivo, que é o retrato do mundo em que vivemos...

Helena Ferro Gouveia, correspondente do Público em Berlim escreve (na quinta-feira, dia 09 de Setembro) que o "'Die Welt' recorda que cada vez que a Alemanha se confronta com o III Reich isso é ocasião para debater sobre o trauma alemão e a 'normalidade'". Jornais britânicos acusaram os alemães de estarem a fazer o papel de vítimas. É uma polémica a seguir com atenção.
"Eu sou a luz do mundo!", disse o homenzinho. E abriu a mão, ofuscando a pequena multidão que aguardava, ansiosa, naquela cidadezinha americana, a exibição do pedacinho de sol que ele tinha roubado nos destroços da sonda despenhada.

08 setembro 2004

A Sonda Caída

Tentámos capturar raios de sol para investigação mas, como tem acontecido nos últimos milhões de anos, eles despenharam-se sobre a Terra. Mais intacto do que a sonda, também eu estou de regresso à Terra depois de umas férias sem diário.

06 setembro 2004

Viver com a loucura da realidade

Passaram quatro dias. Os mortos quadriplicaram naquela escola. Porquê a loucura? Ou o horror... o horror, como repetia Marlon Brando em Apocalypse Now. Sempre que perguntamos porquê e não há respostas (porque a razão não encontra razões para certos tipos de mal), damos com algo em que não conseguimos pensar. Como é que, como seres humanos, nos podemos reconciliar com esta realidade, com todas as realidades do que não devia ser mas é? Hannah Arendt dá uma das respostas possíveis em Essays in Understanding 1930-1954. Para sobrevivermos a tudo isto, e ao resto, é preciso encontrarmos o nosso lugar na realidade sem nos resignarmos a ela:
(...) to find my way around in reality without selling my soul to it the way people in earlier times sold their souls to the devil. (citado em Evil in Modern Thought, de Susan Neiman, Princeton University Press)

Menos loucos do que os sãos são os loucos. A loucura está ali na esquina à nossa espera, basta ligar a TV, tão palpável como esta mão. A loucura alienada de quem vê o que não existe é uma benção divina que protege uns eleitos daquilo que é real. Não vender a alma à realidade pode ser tão alienante como viver do outro lado do espelho.

03 setembro 2004

A loucura...

...mais recente vai em 150 mortos e 550 feridos. Na Ossétia. O mundo existe para nos enlouquecer.

O espelho da loucura

Mês e meio depois do terramoto de 1755, Voltaire escreveu esta carta a um pastor protestante:

"Tenho pena dos portugueses, como vós, mas os homens continuam a fazer mais mal uns aos outros no seu pequeno montículo de terra do que a natureza lhes faz. As nossas guerras massacram mais homens do que a terra engole em terramotos. Se neste mundo apenas tivéssemos de temer o inesperado acontecimento de Lisboa, ainda devíamos estar numa situação tolerável".

Avançamos 250 anos. O mundo está o mesmo. Pensamos naquilo de que vivamente melhor nos lembramos dos noticiários mais recentes, e a conclusão não é diferente do que o mesmo Voltaire pôs na boca de um dos seus personagens em Cândido: Martin concluiu que o mundo existe para nos enlouquecer. Vivemos do lado real do espelho, onde habitam os corpos, mas tudo o que é verdadeiro é cada vez menos tolerável.

01 setembro 2004

A sobrevivência ao mal segundo Mefistófeles

Diz Mefistófeles a Fausto:

Deste mundo tosco que estás a ver
Por mais que faça, e pouco não é
Não vejo jeito de nele tomar pé;
Ondas, borrascas, fogos, terramotos -
E terra e mar continuam intactos!
E os homens e os bichos, essa raça maldita?
A esses nem consigo chegar:
Quantos não levei já a enterrar!
E sempre sangue fresco gera nova vida.

Fausto, de Goethe, trad. João Barrento, Relógio d'Água

Pois por pior que tudo esteja, tudo vai seguindo.
Como escreveu Cesariny no poema Pastelaria: Afinal o que importa não é haver gente com fome/porque assim como assim ainda há muita gente que come

31 agosto 2004

Zero e infinito no Olimpo

Penso nos Jogos Olímpicos, em dois tipos de modalidades: nas que tendem para o zero e nas que tendem para o infinito, e na possibilidade de podermos ser cada vez melhores.

Nas que tendem para o zero (como em todas as corridas de atletismo), quando mais próximo do zero chega um atleta, melhor. Um dia que chegue a zero, o mundo acaba, porque essa é uma façanha impossível. Mas se o desporto não é finito, e se as melhores marcas caem todos os anos, porque razão não há ninguém que se ultrapasse tanto a si mesmo de uma só vez, que nenhum outro humano consiga vencer aquele espaço em tão pouco tempo?

O mesmo se passa nas modalidades que tendem para o infinito (como nos saltos em altura, à vara, em comprimento, no lançamento do peso ou do dardo, etc): não há ninguém que consiga uma marca tão impossível de alcançar, por estar tão perto do infinito, que mate qualquer futura tentativa de superação?

Penso que só há uma resposta possível, embora bifurcada: os humanos são tão imperfeitos que é sempre possível aparecer alguém com um maior grau de perfeição; e é verdade que podemos ser sempre melhores do que no nosso momento anterior, de modo a nos superarmos a nós mesmos nas circuntâncias mais difíceis.

30 agosto 2004

Missão aborto, missão abortada

O facto da Marinha de Guerra controlar o barco do aborto que navega em águas internacionais até seria uma boa medida se o ministro da Defesa também fizesse o Exército avançar com tropas para a fronteira com Espanha, de modo a impedir as portuguesas grávidas de irem a Badajoz fazer abortos nas clínicas da cidade.

Mais eficaz seria até, se, no regresso delas a território nacional, a tropa examinasse as referidas portuguesas, de molde ao Estado aplicar a lei tal como ela está redigida, entregando as mulheres que tivessem de facto abortado em Espanha às autoridades judiciais, pois o que temos diante de nós é uma violenta e deliberada violação da lei que rege esta abençoada Nação.

(Sejamos corajosos. Vamos até ao fim, contra essa gente estrangeira que nos conspurca os costumes. Qualquer dia até aparece por aí outro barco holandês chamado "Grass on the Waves" a levar os nossos jovens a fumar charros no mar alto, ou, pior do que isso, até me arrepia de pensar nisto, um barco com uma lanterna vermelha chamado "Red Light Boat", com profissionais sexuais que satisfazem legalmente qualquer passageiro desde que seja no mar alto e balanceante.)

Ora, como as clínicas de Badajoz não navegam em águas internacionais para se deslocarem de motu próprio até Elvas ou à Figueira da Foz - porque estão presas ao chão -, para aí praticarem a abortiva ilegalidade, e como a inexistência de fronteiras não impede as portuguesas praticarem esse crime em Espanha, então o ministro da Defesa devia mandar a Força Aérea bombardear as referidas clínicas espanholas por incitarem ao ilícito (legal e moral) deste lado do Tratado de Tordesilhas. (Como seríamos virtuosos se não fossem esses desavergonhados estrangeiros).

Nas Forças Armadas, comandadas por um líder iluminado, reside a salvação nacional. O POVO ESTÁ COM O MFA! Até já estamos a ver os raides das Forças Especiais às clínicas clandestinas onde se pratica o aborto ilegal nas más condições sanitárias que tanto preocupam o ministro. Esta preocupação com as condições sanitárias ainda vai desgraçar o dr. Portas, pois, como todos sabemos, é um dos argumentos a favor da legalização.

A vinda do barco é, de facto, uma operação propagandística, e isto é inegável, mas, como defende Pacheco Pereira no Abrupto, a posição do ministro da Defesa (aliás, do Governo) é simetricamente um espelho da outra: "Agora que o governo português resolva actuar como um espelho do Bloco, como um grupo radical de sentido contrário, com todos os tiques do radicalismo ideológico, com a agravante de abusar dos meios do Estado, é que coloca uma questão muito mais grave do que o folclore do barco. Se o barco foi uma provocação, este governo respondeu-lhe ao mesmo nível".

28 agosto 2004

O jornalista vai à fonte e parte o cantarinho...

Todos aqueles que foram a favor da revelação das gravações (imprudentes ou ilegais, conforme a opinião) do jornalista do Correio da Manhã, Octávio Lopes, deviam ler com atenção dois artigos na revista The Economist do dia 21 de Agosto (artigo em editorial e peça jornalística).

Enquanto em Portugal são os próprios jornalistas que honram os leitores com a revelação das fontes dos outros jornalistas, nos Estados Unidos, um jornalista da Time, de seu nome Matthew Cooper, foi condenado a prisão efectiva de 18 meses (ou multa de mil dólares por dia) por não revelar uma fonte sensível da Casa Branca que lhe passou uma história: Copper escreveu, no Verão passado, que Valerie Plame, mulher do ex-embaixador que passou a informação aos media de que o famoso urânio nigeriano nunca tinha sido vendido ao Iraque, era uma agente encoberta da CIA.

Ora, toda esta história é muito complicada do que isto, mas o que importa é reter o seguinte: o jornalista (e outros três repórteres acusados) não revela a fonte porque, embora sendo do interesse público saber quem, na administração Bush, quis "lixar" o embaixador pondo em perigo a agente secreta e as pessoas a ela ligadas, há um valor superior que é o da liberdade de imprensa. O editorialista da Economist, escreve: "If reporters were routinely forced to identify confidential sources, those sources would dry up and the public would lose potentially valuable information. The public should not want the media to be servants of the legal system any more than it wants them servants of government".

No caso português, o mais triste é que não foi um tribunal a forçar um jornalista a revelar as suas fontes - o que, de resto, o transformaria num mártir da classe -, mas terem sido camaradas de profissão a fazê-lo. As consequências de quaisquer erros que tenham sido cometidos deveriam recair directamente sobre o jornalista e seus superiores, por cometerem ou permitirem que se tenham cometidos falhas grosseiras durante o exercício da profissão. Quando as consequências recaem apenas sobre as fontes, como aconteceu - que, caso não mintam, se arriscam pessoal e profissionalmente a passar informações de interesse público -, é a própria democracia a ficar em perigo.

Se o jornalista vai à fonte, tem de trazer o cantarinho inteiro, ou então acaba um dia morto à sede.

24 agosto 2004

A Pepsi e a Coca-Cola

As marcas dominam a nossa mente sem nós o sabermos e se compramos marcas é porque confiamos no rótulo: podemos comer e beber isto ou aquilo e sabemos que não vamos morrer envenenados, ou podemos comprar este ou aquele detergente porque não nos vai dar cabo da roupa. Na política as coisas passam-se mais ou menos assim, sendo que a marca com maior notoriedade não é forçosamente a mais confiável, se é que ainda há marcas absolutamente confiáveis na política.

Ora temos assim duas marcas que vão degladiar-se no futuro próximo: a PSL, dos produtos Pedro Santana Lopes, e a JS, das produções José Sócrates.
A primeira, é uma marca popular com notoriedade firmada, líder de mercado, apesar de todos os que também a detestam. PSL é como a Coca-Cola, que se acha a maior e age como sendo a maior.
A segunda é uma marca que tem uma quota de mercado mais baixa, mas que quer chegar à liderança, e por isso procura posicionar-se de maneira diferente, apesar do seu sabor ser praticamente igual à anterior. JS é como a Pepsi, que não se apresenta como uma igual à Coca-Cola, mas como algo de novo, mesmo sem o ser: "The choice of a New Generation" (a escolha de uma nova geração). A escolha é da nova geração, mas nada sabemos sobre o produto, sobre o que é que o torna diferente da concorrência. José Sócrates já deve ter interiorizado isto de tal maneira que, na entrevista a Maria Henrique Espada, no Diário de Notícias de sexta-feira, dia 20, afirmou: "Sou um candidato de uma nova geração (...)". É o candidato Pepsi...


16 agosto 2004

O jardim dos cactos abandonados

Sábado à tarde, um calor seco no ar, e onde ir evitando os lugares de sempre... Uma ideia: o jardim botânico de Belém, euro e meio a cada um à entrada (a Carla é que pagou), passeio sossegado, jornais de fim-de-semana enfiados no saco do Expresso, lagos, água, gansos, sombra, turistas raros, portugueses ausentes, um abandono. O lugar, partes do lugar, ao desleixo, e um casal de noivos aviado nos Jerónimos em preparos diante do fotógrafo.
Num portão semi-aberto, alguém se esqueceu de pôr a placa "proibido entrar". Lá dentro, um delicioso jardim de cactos continua a ser um jardim de cactos porque os cactos podem ser deixados ao abandono e mantêm-se a cactotuar vida fora. As estufas destruídas, em ruínas, lixo e dejectos de jardinagem pelos cantos do caminho, e os cactos, com os picos ainda mais de fora, assanhados como fazem os cactos zangados, enrodilhados em árvores antigas, ora estrangulando-as ora confortando-as, erguendo-se com braços ameaçadores contra quem ousa profanar o santuário. Há um certo encanto na decadência, como se num lugar antigo e abandonado sedimentassem as memórias esquecidas. Mas o sinal da nossa decadência é deixar que lugares assim não sejam mais do que memórias forçadas ao caminho do esquecimento, a vitória da incúria. Uma vergonha. Alguém se acusa?

08 agosto 2004

Sabonetes ao poder

É injusto dizer que Santana e Sócrates são iguais. Quem olhar com atenção percebe que os dois são diferentes: o primeiro-ministro tem uma personalidade quente, emocional, é um improvisador, um espontâneo movido pelo combustível da reacção às acções dos outros; o candidato a secretário-geral do PS é frio, absolutamente cerebral, e contido ao ponto de avaliar cada gesto e cada palavra.

A zona de intersecção entre ambos é o instrumento para chegar ao mesmo fim: a comunicação social, a fábrica das imagens, e as intervenções cheias de nada.

Há umas semanas li dezenas de entrevistas e artigos de Santana Lopes publicados na imprensa desde os anos 90. A sua capacidade impressiona: é capaz de escrever lençóis de textos sem dizer absolutamente nada, sem deixar trair-se por uma ideia. É preciso peneirar milhares de linhas sobre a vida partidária para encontrar um conceito, um rumo de pensamento sobre o país, ou a defesa de uma medida. Sócrates também provou, nas últimas semanas, que é igual. A entrevista das citações ao Expresso foi um desastre, o artigo sobre o plano tecnológico no Público é um conjunto de generalidades que toda a gente defende, e a página do Diário de Notícias, dirigida à ala esquerda do PS, serviu mais para esconder do que para mostrar o que pensa.

Bem-vindos ao país moderno! Já houve quem quisesse vender Presidentes da República como se fossem sabonetes. Agora temos sabonetes que são ou querem ser primeiros-minstros.