A Joana faz anos, mas não muitos. Já andei pela casa à procura do retrato que envelhece por ela. Fez um bolo de chocolate, que irá atormentar-me toda a manhã, com o seu ar caseiro, apetitoso e intocável em exposição na banca da cozinha.
Deixem-lhe mensagens simpáticas nos comentários.
Devemos à conjunção de um espelho e de uma enciclopédia a descoberta deste mundo. Por Vítor Matos e Tiago Araújo
22 julho 2004
21 julho 2004
Aviso de recepção
Obrigado pelo postal. Não é comum recebermos postais de férias com imagens de cidades em ruínas e reconstrução. Vai já mentalmente para a porta do frigorífico, suspenso por um íman. Bom regresso.
Um postal da Bósnia (versão acentuada e cedilhada)
Dubrovnic. Croácia.
Ontem passámos o dia na Bósnia-Herzegovina. Dez anos depois, e a guerra continua demasiado visível. Ao longo da estrada, de Split para Sarajevo, percorremos uma paisagem deslumbrante, de planaltos e planícies pontuados por casa metralhadas e montes de feno, depois com montanhas rochosas e mais tarde floresta densa, quase alpina. Cruzámo-nos com militares portugueses, perto da capital. Soube depois que um tropa nosso tinha morrido na semana anterior num acidente estúpido, perto de Tuzla. Há portugueses que vêm morrer a esta terra em nome de uma paz que talvez seja para sempre hesitante.
À entrada de Sarajevo começamos a ver os buracos da balas nas casas, os prédios destruídos, as placas nas paredes com o nome dos mortos civis que tombaram naqueles lugares, e as pessoas na sua vida normal. O estranho nestas cidades são as marcas nas paredes e os habitantes, tal como nós em Lisboa, aparentemente no seu quotidiano banal. As marcas nas paredes são evidentes, as marcas no íntimo de cada bósnio não são visíveis. Também não perguntei, não procurei saber mais, estivemos pouco tempo na cidade. Num lugar onde a seguir a uma mesquita aparece uma igreja católica, onde logo depois de vermos e ouvirmos o canto do "muezzin" numa mesquita, damos com uma igreja ortodoxa e, num recanto, a um quarteirão de distância, se ergue uma sinagoga, num lugar assim, ou encontraríamos o paraíso da tolerância, ou as coisas haviam mesmo de dar para o torto.
Na velha biblioteca de Sarajevo uma inscrição dizia que esta tinha sido incendiada pelos "criminosos sérvios". Está a ser reconstruída com a ajuda internacional e exibia uma instalação de um artista plástico, que enchia os velhos nichos onde um dia tinham estado os antigos volumes com sacas de sarapilheira (como as que servem para as barricadas), livros, sacos-sarcófagos, pedras. Tocante.
Seguimos para Mostar, onde só chegámos à noite, para vermos a ponte secular que tinha sido destruída pelos próprios bósnios-croatas, em combates contra as milícias muçulmanas. Entrámos pelo lado muçulmano, onde os jardins públicos e a frontaria de casas estão cheios de lápides de vítimas dos bombardeamentos, enterradas a pressa. Passámos para o outro lado do rio, onde um em cada quatro predios está completamente esventrado. Na zona velha encontramos, porém, uma cidade em festa: Mostar 2004. A ponte que simboliza a ligação entre as culturas está pronta. Foi reconstruída com a ajuda da Unesco. Vai ser inaugurada amanhã, sexta-feira dia 23 de Julho, com a presenca de personalidades de todo o mundo. À noite, iluminada assim, com uma luz amarelada, vista dos restaurantes à beira rio, temos uma bela imagem: a de uma vida nova. Talvez o futuro venha a ser melhor.
Seguimos para Sul. Hoje chegámos a Dubrovic, um enclave croata que esteve cercado sete meses pelos sérvios e montenegrinos. A maior parte da cidade foi bombardeada. A maior parte ja foi reconstruída. É património mundial. Um lugar invejável. Que devia fazer-nos pensar. Esta guerra foi demasiado perto de nós. E nunca tivemos essa percepção de proximidade, quando olhavámos para aqui a partir de Portugal.
Um abraço. Nos próximos dois dias regressamos a Portugal via Veneza. Ainda temos muitos quilómetros à nossa frente.
Ontem passámos o dia na Bósnia-Herzegovina. Dez anos depois, e a guerra continua demasiado visível. Ao longo da estrada, de Split para Sarajevo, percorremos uma paisagem deslumbrante, de planaltos e planícies pontuados por casa metralhadas e montes de feno, depois com montanhas rochosas e mais tarde floresta densa, quase alpina. Cruzámo-nos com militares portugueses, perto da capital. Soube depois que um tropa nosso tinha morrido na semana anterior num acidente estúpido, perto de Tuzla. Há portugueses que vêm morrer a esta terra em nome de uma paz que talvez seja para sempre hesitante.
À entrada de Sarajevo começamos a ver os buracos da balas nas casas, os prédios destruídos, as placas nas paredes com o nome dos mortos civis que tombaram naqueles lugares, e as pessoas na sua vida normal. O estranho nestas cidades são as marcas nas paredes e os habitantes, tal como nós em Lisboa, aparentemente no seu quotidiano banal. As marcas nas paredes são evidentes, as marcas no íntimo de cada bósnio não são visíveis. Também não perguntei, não procurei saber mais, estivemos pouco tempo na cidade. Num lugar onde a seguir a uma mesquita aparece uma igreja católica, onde logo depois de vermos e ouvirmos o canto do "muezzin" numa mesquita, damos com uma igreja ortodoxa e, num recanto, a um quarteirão de distância, se ergue uma sinagoga, num lugar assim, ou encontraríamos o paraíso da tolerância, ou as coisas haviam mesmo de dar para o torto.
Na velha biblioteca de Sarajevo uma inscrição dizia que esta tinha sido incendiada pelos "criminosos sérvios". Está a ser reconstruída com a ajuda internacional e exibia uma instalação de um artista plástico, que enchia os velhos nichos onde um dia tinham estado os antigos volumes com sacas de sarapilheira (como as que servem para as barricadas), livros, sacos-sarcófagos, pedras. Tocante.
Seguimos para Mostar, onde só chegámos à noite, para vermos a ponte secular que tinha sido destruída pelos próprios bósnios-croatas, em combates contra as milícias muçulmanas. Entrámos pelo lado muçulmano, onde os jardins públicos e a frontaria de casas estão cheios de lápides de vítimas dos bombardeamentos, enterradas a pressa. Passámos para o outro lado do rio, onde um em cada quatro predios está completamente esventrado. Na zona velha encontramos, porém, uma cidade em festa: Mostar 2004. A ponte que simboliza a ligação entre as culturas está pronta. Foi reconstruída com a ajuda da Unesco. Vai ser inaugurada amanhã, sexta-feira dia 23 de Julho, com a presenca de personalidades de todo o mundo. À noite, iluminada assim, com uma luz amarelada, vista dos restaurantes à beira rio, temos uma bela imagem: a de uma vida nova. Talvez o futuro venha a ser melhor.
Seguimos para Sul. Hoje chegámos a Dubrovic, um enclave croata que esteve cercado sete meses pelos sérvios e montenegrinos. A maior parte da cidade foi bombardeada. A maior parte ja foi reconstruída. É património mundial. Um lugar invejável. Que devia fazer-nos pensar. Esta guerra foi demasiado perto de nós. E nunca tivemos essa percepção de proximidade, quando olhavámos para aqui a partir de Portugal.
Um abraço. Nos próximos dois dias regressamos a Portugal via Veneza. Ainda temos muitos quilómetros à nossa frente.
19 julho 2004
Guido, o dálmata português
Split. Croácia. Guido apareceu-nos estávamos a descansar no pátio da casa-museu do famoso escultor croata, Ivan Mestrovitć, na zona alta e antiga de Zagreb. Estão a falar português, percebi, disse-nos antes de mais. E dirigiu-se-nos em espanhol. Alto, magro, de olhos azuis, e cabelos grisalhos, um misto de marinheiro, estudioso e viajante mediterrânico, garantiu que há quinhentos anos a sua família tinha vindo de Portugal, embora sem ter explicado porquê. Depois, este professor de história de arte que fora director daquele museu durante alguns anos, contou-nos esta curiosa história: Na sua terra Natal, Split (onde escrevo num pequeno ciber-café, apesar de a Carla questionar que necessidade tenho eu de vir escrever em férias), mantém-se a tradição de queimar os barcos que são abatidos: depois, parte das cinzas são atiradas ao mar, enquanto outra parte vai num porte, para o barco novo do mesmo proprietário. E a família de Guido tinha um barco. E não só a família tem antepassados portugueses, como parece que o próprio barco era de origem lusa, provavelmente de Lisboa. Quando resolveram comprar uma embarcação nova, queimaram a antiga, cumprindo a tradição na Dalmácia. E dividiram as cinzas. Uma parte foi para um pote, colocada como se num altar no barco novo; e a outra parte viajou, por vontade de Guido, até Lisboa, na bagagem do Presidente da Croácia, em 1998. O Presidente (decerto amigo de Guido, mas não entramos nesses pormenores), de oficial visita a Lisboa durante a Expo'98, transportou as cinzas com a missão de as devolver ao Rio Tejo. Tarefa que terá desempenhado com solenidade, quem sabe, porque Guido também não explicou muito mais, durante a nossa breve conversa. Guido, o académico dálmata, nunca foi a Portugal a procura das suas raízes, mas uma tia esteve em Lisboa e disse-lhe que era a cidade mais bela que já tinha visto.
Tiago, corrige-me por favor este texto, que o teclado croata obrigou-me a assassinar o português.
(Da cidade mais bela de todas as visitadas pela tia do Guido, já corrigi as faltas. Achava melhor ter deixado o texto como estava: mais exótico, com as dificuldades das férias em viagem por lugares afastados do quotidiano; mas cumpri o pedido. Boa viagem. Tiago Araújo)
Tiago, corrige-me por favor este texto, que o teclado croata obrigou-me a assassinar o português.
(Da cidade mais bela de todas as visitadas pela tia do Guido, já corrigi as faltas. Achava melhor ter deixado o texto como estava: mais exótico, com as dificuldades das férias em viagem por lugares afastados do quotidiano; mas cumpri o pedido. Boa viagem. Tiago Araújo)
Postal de um exilado na Croácia
Split. Croácia. Como um golpe de Estado é uma coisa que dá muito trabalho e comporta os seus riscos, resolvi não emigrar, mas exilar-me durante algum tempo. Quinze dias, de Veneza a Dubrovnic, ao longo de toda a Croácia, passando por Sarajevo e Mostar, na Bosnia-Herzebžgovina, tornou-se num suave e breve exílio para quem vê a pátria nesta estranha situação. A escolha do itinerário foi inocente, mas agora deixou de o ser, porque, ao tomar consciência do que sofreram recentemente estes povos mediterrânicos como nós, ganha-se alento para voltar a um país que está como está. Se eles recuperaram assim, pelo menos aparentemente, de uma guerra como foi a guerra na Jugoslávia espartilhada, também Portugal sobreviverá aos santanistas e às santanettes.
Split, na zona antiga, é um misto de cidade romana, com o palácio de Diocleciano a dominar tudo o resto, de cidade medieval, e de centro renascentista dominado por Veneza. Como devem calcular é um lugar belo, apesar do excesso de esplanadas (eles têm-nas a mais, enquanto nós as temos a menos), e do excesso de turistas, como eu, aliás.
Nunca tinha ido a Veneza. Trago de lá a maior vontade de regressar, de preferência no Inverno, com poucos turistas, para explorar a história e os significados de um lugar singular.
Zabreb é uma capital estranhamente calma, pelo que percebemos, com gente profundamente religiosa. Numa das portas da cidade antiga, um fresco da virgem com o menino, que sobreviveu a um incêndio no sec. XVIII, e adorada por quase toda a gente que passa: jovens, velhos, homens, mulheres, quase todos se benzem; uma boa parte faz uma pequena oração antes de prosseguir; e alguns ficam ali alguns minutos a rezar. Não deixa de ser impressionante num pais católico, até porque os católicos não são de mostrar assim tão em público a sua religião. Fez-me lembrar os muçulmanos nos países muçulmanos. Mas a religião define a Croácia, assim como a Sérvia ou a Bósnia, é preciso não esquecer estas estranhas fronteiras (estranhas quando observadas por um português). Disseram-nos várias vezes: "como é que foram perder com os gregos? Toda a Croácia estava a torcer por vocês". Claro, nós somos os irmãos católicos, e os gregos os inimigos ortodoxos. E claro que estas coisas são sempre muito mais complicadas do que parecem.
Está um sol fabuloso e hoje vamos voltar a gozar (eu, a Carla, o Afonso e a Blandina), um belo dia de praia sobre as rochas dálmatas suavemente banhadas pelas calmas e cálidas águas adriáticas.
Tiago, por favor, põe-me os acentos e as cedilhas nisto.
Split, na zona antiga, é um misto de cidade romana, com o palácio de Diocleciano a dominar tudo o resto, de cidade medieval, e de centro renascentista dominado por Veneza. Como devem calcular é um lugar belo, apesar do excesso de esplanadas (eles têm-nas a mais, enquanto nós as temos a menos), e do excesso de turistas, como eu, aliás.
Nunca tinha ido a Veneza. Trago de lá a maior vontade de regressar, de preferência no Inverno, com poucos turistas, para explorar a história e os significados de um lugar singular.
Zabreb é uma capital estranhamente calma, pelo que percebemos, com gente profundamente religiosa. Numa das portas da cidade antiga, um fresco da virgem com o menino, que sobreviveu a um incêndio no sec. XVIII, e adorada por quase toda a gente que passa: jovens, velhos, homens, mulheres, quase todos se benzem; uma boa parte faz uma pequena oração antes de prosseguir; e alguns ficam ali alguns minutos a rezar. Não deixa de ser impressionante num pais católico, até porque os católicos não são de mostrar assim tão em público a sua religião. Fez-me lembrar os muçulmanos nos países muçulmanos. Mas a religião define a Croácia, assim como a Sérvia ou a Bósnia, é preciso não esquecer estas estranhas fronteiras (estranhas quando observadas por um português). Disseram-nos várias vezes: "como é que foram perder com os gregos? Toda a Croácia estava a torcer por vocês". Claro, nós somos os irmãos católicos, e os gregos os inimigos ortodoxos. E claro que estas coisas são sempre muito mais complicadas do que parecem.
Está um sol fabuloso e hoje vamos voltar a gozar (eu, a Carla, o Afonso e a Blandina), um belo dia de praia sobre as rochas dálmatas suavemente banhadas pelas calmas e cálidas águas adriáticas.
Tiago, por favor, põe-me os acentos e as cedilhas nisto.
15 julho 2004
A imaginação segue dentro de momentos. Enquanto isso...
(a mão negra)
O extremo poder dos símbolos reside em que eles, além de concentrarem maior energia que o espectáculo difuso do acontecimento real, possuem a força expansiva suficiente para captar tão vasto espaço da realidade que a significação a extrair deles ganha a riqueza múltipla e multiplicadora da ambiguidade. Mover-se nos terrenos dos símbolos, com a devida atenção à subtileza e a certo rigor que pertence à imaginação de qualidade alta, é o que distingue o grande intérprete do pequeno movimentador de correntes de ar.
[...]
Herberto Helder, Photomaton & Vox
(a mão negra)
O extremo poder dos símbolos reside em que eles, além de concentrarem maior energia que o espectáculo difuso do acontecimento real, possuem a força expansiva suficiente para captar tão vasto espaço da realidade que a significação a extrair deles ganha a riqueza múltipla e multiplicadora da ambiguidade. Mover-se nos terrenos dos símbolos, com a devida atenção à subtileza e a certo rigor que pertence à imaginação de qualidade alta, é o que distingue o grande intérprete do pequeno movimentador de correntes de ar.
[...]
Herberto Helder, Photomaton & Vox
12 julho 2004
Comentário atrasado e bastante breve
O Presidente da República tomou uma decisão para o futuro, mas não para o presente. Quis reforçar a componente parlamentarista do sistema semipresidencial, mas o poder que reforçou foi o dos partidos, não o do parlamento. Privilegiou excessivamente o elemento representativo da democracia, em detrimento do participativo.
08 julho 2004
A Adília Lopes está (diz ela) com alguns problemas psíquicos e emocionais desde o último Natal. Escreve as cartas à mão. Deixou crescer o cabelo, que apanhou em rabo de cavalo apenas para um poema. Com a cabelo apanhado, talvez para ver melhor o papel de carta, escreveu um texto fantástico para o último número da revista Relâmpago, sobre como se faz um poema com um pouco disto tudo.
Citação para a depressão
Vira tudo nitidamente assim que passou o cume dos trinta, o mais alto e escarpado de toda a travessia. A surpresa e o doloroso desconcerto que então viveu foram os de alguém que desperta bruscamente de um plácido sonho. Pois, assim como um actor enganado pode actuar numa première convencido de que se trata apenas de um ensaio geral, também ele actuara na sua juventude convencido que mais tarde, só mais tarde, chegaria a hora do début. E ao descobrir que ela já passara, mergulhou imediatamente num desconcerto tão profundo e obscuro como o fundo de um poço.
Ricardo Cano Gaviria, O Passageiro Walter Benjamin
Ricardo Cano Gaviria, O Passageiro Walter Benjamin
05 julho 2004
VI
Irmão do que escrevi
Distante me desejo
Como quem ante o quadro
P'ra melhor ver recua.
Mas tu, Neera, impões
Leis que não são as minhas.
Teus pés batem a dança
De sombra e desmesura
Em frente da varanda
Fugidias cintilas
Longas mãos brancos pulsos
Torcem os teus cabelos
Quando irrompe da noite
Tua face de toira
E acordas as imagens
Mais antigas que os deuses.
Sophia de Mello Breyner Andersen, «Homenagem a Ricardo Reis», Dual
Irmão do que escrevi
Distante me desejo
Como quem ante o quadro
P'ra melhor ver recua.
Mas tu, Neera, impões
Leis que não são as minhas.
Teus pés batem a dança
De sombra e desmesura
Em frente da varanda
Fugidias cintilas
Longas mãos brancos pulsos
Torcem os teus cabelos
Quando irrompe da noite
Tua face de toira
E acordas as imagens
Mais antigas que os deuses.
Sophia de Mello Breyner Andersen, «Homenagem a Ricardo Reis», Dual
02 julho 2004
Jorge Sampaio está a auscultar as mais altas individualidades do país. Não consigo deixar de imaginá-lo a mandá-las entrar para o seu gabinete, a pedir para se despirem da cintura para cima e a pegar no estetoscópio. «Inspire fundo,... outra vez. Pois, o seu pulmão esquerdo quer dissolução da Assembleia e o direito Santana Lopes.» Também estou a imaginar alguns a susterem a respiração, amuados, até lhes fazerem a vontade.
Morreu Marlon Brando. Como vi os filmes mais importantes em que entrou pela ordem inversa (Apocalipse Now, O Padrinho, Último Tango em Paris, Há Lodo no Cais, Um Eléctrico Chamado Desejo), foi para mim tornando-se cada vez mais novo: Stanley a gritar por Stella na base das escadas de uma casa do Bairro Francês de New Orleans. Saber que morreu hoje, num hospital da Califórnia, foi por isso uma surpresa, notícias de alguém de quem não me lembrava há muito tempo.
Um por todos, todos por nenhum
Um homem. Bastou a vontade de um homem para o país ficar num alvoroço e agora parece que ninguém serve. Isto assusta. Numa democracia não devia ser assim. A pluralidade devia ser sinónmo de existência de muitas escolhas possíveis. E de gente boa para escolher à direita e à esquerda.
Durão Barroso escolheu a Europa, e seria difícil a um português rejeitar essa oferta. Mas devia haver algum sucessor no Governo, membro do Governo e do partido, que as pessoas pudessem ver com naturalidade no cargo de primeiro-ministro, mesmo que não concordassem com ele. O mesmo se passa no PS. Se houver eleições, quem é que está a ver Ferro Rodrigues como primeiro-ministro, depois de ter provado que não tem esse estofo, pela maneira como reagiu ao processo da Casa Pia?
O rectângulo está em risco. Alguém nos acode? Retiro a proposta do golpe de Estado. Talvez não houvesse ninguém a quem valesse a pena entregar o poder. A dona Constança não quer entrar nesta festança?
Durão Barroso escolheu a Europa, e seria difícil a um português rejeitar essa oferta. Mas devia haver algum sucessor no Governo, membro do Governo e do partido, que as pessoas pudessem ver com naturalidade no cargo de primeiro-ministro, mesmo que não concordassem com ele. O mesmo se passa no PS. Se houver eleições, quem é que está a ver Ferro Rodrigues como primeiro-ministro, depois de ter provado que não tem esse estofo, pela maneira como reagiu ao processo da Casa Pia?
O rectângulo está em risco. Alguém nos acode? Retiro a proposta do golpe de Estado. Talvez não houvesse ninguém a quem valesse a pena entregar o poder. A dona Constança não quer entrar nesta festança?
Primeiro-ministro sob caução, não!
O FC Porto é Campeão Europeu, Portugal está na final do Euro 2004, Durão é presidente da Comissão Europeia. Fizémos o pleno. Mas no campeonato nacional ainda está tudo por decidir. Santana já lidera o PSD, mas as coisas em Belém não estão claras. Ninguém é capaz de afirmar hoje, com a mesma convicção de há uns dias, que Jorge Sampaio não vai convocar eleições antecipadas.
Há um cenário que tem sido lançado, mas é indesejável: o do Presidente aceitar Santana se ele levar nomes fortes para as pastas económicas. Se Santana Lopes for aceite por Sampaio levando como caução nomes tão fortes como António Borges (nas Finanças) ou António Mexia (na Economia), para garantir a credibilidade do Governo, esta seria uma má solução. Por quê? Ou bem que se confia em Santana, ou bem que não se confia. Nomeá-lo primeiro-ministro por causa dos seus ministros faria dele um débil chefe de Executivo, que teria de se demitir um dos seus ministros um dia se fosse embora.
Santana deve ser primeiro-minstro, se os portugueses votarem nas listas do PSD, em eleições antecipadas. Instabilidade por instabilidade, a instabilidade já foi lançada.
Há um cenário que tem sido lançado, mas é indesejável: o do Presidente aceitar Santana se ele levar nomes fortes para as pastas económicas. Se Santana Lopes for aceite por Sampaio levando como caução nomes tão fortes como António Borges (nas Finanças) ou António Mexia (na Economia), para garantir a credibilidade do Governo, esta seria uma má solução. Por quê? Ou bem que se confia em Santana, ou bem que não se confia. Nomeá-lo primeiro-ministro por causa dos seus ministros faria dele um débil chefe de Executivo, que teria de se demitir um dos seus ministros um dia se fosse embora.
Santana deve ser primeiro-minstro, se os portugueses votarem nas listas do PSD, em eleições antecipadas. Instabilidade por instabilidade, a instabilidade já foi lançada.
26 junho 2004
Santana ganha na secretaria
Afinal Durão Barroso sempre se vai embora. Santana Lopes deve ser o sucessor, com Paulo Portas a vice-primeiro ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros. Ao que este País triste chegou. Santana ganhou na secretaria aquilo que nem o seu próprio partido alguma vez lhe deu. Será que o próprio PSD aceita uma coisa assim?
Se Jorge Sampaio agir à Sampaio, ficará tudo na mesma. Sem eleições antecipadas. Com Santana e Portas à frente da nação. Os próximos meses vão ser muito animados. É a única certeza.
Do outro lado temos a pobreza que é a oposição do PS e a liderança de Ferro Rodrigues. Portugal está em situação de emergência. Ou fazemos um golpe de Estado ou emigramos.
Se Jorge Sampaio agir à Sampaio, ficará tudo na mesma. Sem eleições antecipadas. Com Santana e Portas à frente da nação. Os próximos meses vão ser muito animados. É a única certeza.
Do outro lado temos a pobreza que é a oposição do PS e a liderança de Ferro Rodrigues. Portugal está em situação de emergência. Ou fazemos um golpe de Estado ou emigramos.
24 junho 2004
Demoliram uma fábrica e o rio já nos corre frente à janela. É apenas uma faixa estreita de rio, a trezentos metros de distância, mas já dá para mergulhar, molhar imaginariamente os pés ao fim da tarde. É um salto para a água mais horizontal do que vertical, com elementos técnicos que contrariam as leis da gravidade. Dentro dela, a trezentos metros de distância, é mais fácil suportar o calor das águas-furtadas e a tarde de trabalho. Por vezes, um navio acosta e tapa-nos a vista com uma parede de metal; prolongamos ainda mais o exercício de transmigração e partimos com ele, clandestinos.
As eleições europeias, perdoe-se o atraso do post, trouxeram ao país uma estranha discussão: quem ganhou as eleições foi Ferro ou o Partido Socialista? O PS ganhou por causa de Ferro ou apesar de Ferro? O homem resistiu e sobreviveu. E agora arrisca-se a que um dia o poder lhe caia no colo. Mas os seus amigos no partido querem livrá-lo desse fardo. É uma original consequência do melhor resultado eleitoral de sempre para o PS.
Na coligação a coisa também é excêntrica. O PSD foi um partido canguru que levou na bolsa um pequeno partido vampiro que, não só se deixou transportar através da campanha sem mostrar o que na verdade diria se estivesse a concorrer sozinho, como sugou dois deputados laranjas e não reduziu a sua representação em Estrasburgo. O PSD foi, de facto, o único partido que perdeu as eleições.
Não admira que o PSD ande a pensar se é melhor ir sozinho ou acompanhado às legislativas. Que podem ser bem depressa, se Durão Barroso aceitar ser presidente da Comissão Europeia. Depois de Guterres ter fugido pela porta baixa depois da derrota eleitoral nas autárquicas de 2001, Durão quererá sair entronizado pela grande porta depois da derrota eleitoral nas europeias de 2004? Ao alimentar o suspense sobre o seu nome, Barroso passa o sinal de que o país é uma realidade secundária. Ou quererá dizer depois que é querido lá fora para ganhar credibilidade cá dentro?
Na coligação a coisa também é excêntrica. O PSD foi um partido canguru que levou na bolsa um pequeno partido vampiro que, não só se deixou transportar através da campanha sem mostrar o que na verdade diria se estivesse a concorrer sozinho, como sugou dois deputados laranjas e não reduziu a sua representação em Estrasburgo. O PSD foi, de facto, o único partido que perdeu as eleições.
Não admira que o PSD ande a pensar se é melhor ir sozinho ou acompanhado às legislativas. Que podem ser bem depressa, se Durão Barroso aceitar ser presidente da Comissão Europeia. Depois de Guterres ter fugido pela porta baixa depois da derrota eleitoral nas autárquicas de 2001, Durão quererá sair entronizado pela grande porta depois da derrota eleitoral nas europeias de 2004? Ao alimentar o suspense sobre o seu nome, Barroso passa o sinal de que o país é uma realidade secundária. Ou quererá dizer depois que é querido lá fora para ganhar credibilidade cá dentro?
Um regresso
Regresso ao blogue, como se o blogue fosse meu, como alguém que regressa a casa anos depois de ter desaparecido pelo mundo, e já não sente bem aquele lugar como seu. Este é o blogue do Tiago, cada vez mais, e sobretudo por minha ausência, mas também melhor por isso mesmo.
21 junho 2004
É um dos momentos mais reconfortantes do quotidiano, quando acabamos de ler um livro e vamos à estante escolher o seguinte. Não sabemos muito bem o que nos apetece, lemos a contracapa, avaliamos o peso e o volume, o índice de legibilidade em transportes públicos, o tamanho da letra, etc. De todos os critérios, o que mais utilizo é o da leitura do primeiro parágrafo. É tão falível como todos os outros, mas é por causa dele que vou andar a arrastar por Lisboa, nos próximos dias, O Passageiro Walter Benjamin de Ricardo Cano Gaviria:
Por momentos, precisamente ao sair do túnel que desembocava na longa escadaria, conduzindo às primeiras ruas da aldeia, a ilusão de uma placidez reconfortante foi quase perfeita. O forte banho de luz arrancou-o por um instante do espaço opressivo delimitado pelo quadrado betuminoso dos cais de embarque, onde tudo, desde as paredes raiadas da estação, até aos sombrios e distantes vagões colocados na via desactivada, passando pelo próprio olhar da criança que transportava as bagagens e oferecia os seus préstimos à comitiva, parecia albergar uma secreta correspondência com o boné cinzento dos polícias, com a voz inflexível do homem uniformizado que se recusara a carimbar-lhes a entrada no país, e essa espécie de nó na garganta desapareceu por completo. Ali estava de novo a luz mediterrânica que os acompanhara, rude e estimulante, durante toda a travessia a pé pela estrada Líster, e que agora os abandonava à sua sorte ao entrarem propriamente na aldeia, após o opressivo parêntesis da estação.
(Dedicado à Isabel, para que não cancele a sua assinatura anual)
Por momentos, precisamente ao sair do túnel que desembocava na longa escadaria, conduzindo às primeiras ruas da aldeia, a ilusão de uma placidez reconfortante foi quase perfeita. O forte banho de luz arrancou-o por um instante do espaço opressivo delimitado pelo quadrado betuminoso dos cais de embarque, onde tudo, desde as paredes raiadas da estação, até aos sombrios e distantes vagões colocados na via desactivada, passando pelo próprio olhar da criança que transportava as bagagens e oferecia os seus préstimos à comitiva, parecia albergar uma secreta correspondência com o boné cinzento dos polícias, com a voz inflexível do homem uniformizado que se recusara a carimbar-lhes a entrada no país, e essa espécie de nó na garganta desapareceu por completo. Ali estava de novo a luz mediterrânica que os acompanhara, rude e estimulante, durante toda a travessia a pé pela estrada Líster, e que agora os abandonava à sua sorte ao entrarem propriamente na aldeia, após o opressivo parêntesis da estação.
(Dedicado à Isabel, para que não cancele a sua assinatura anual)
16 junho 2004
«O rapazinho está fora de si. Abre caminho através da multidão, gritando, até à égua, abraça-lhe o focinho morto e ensanguentado, e beija-a, beija-a nos olhos, nos beiços...» (Crime e Castigo) Raskólnikov sonha com a infância, com um domingo em que passeia com o pai e vê um camponês bêbado bater no seu cavalo até à morte. No acto que despertou a loucura que o acompanharia o resto da vida, Nietzsche, em Turim, em 1889, corre para um cavalo que está a ser açoitado pelo cocheiro e abraça-lhe o pescoço. A influência de Dostoiévski em Nietzsche ultrapassa nesse momento a ficção. Ou transforma-se em ficção, o que é quase a mesma coisa.
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