16 novembro 2007

Joy pills

Parece que os comprimidos que Ian Curtis tomava para não ter ataques epilépticos em palco lhe causavam depressões terríveis, diz Anton Corbijn, realizador de Control, ao Público. Tirando o facto de, talvez, também o terem levado ao suicídio - e sem suicídio não haveria mito -, benditos comprimidos que nos ajudaram a deprimir também a nós.

13 novembro 2007

Grandes remédios

Quando entrei grogue na sala de operações branca ainda disse Já saltei de páraquedas. No fim depois de me coser empurrando a minha maca um homem de bata ouviu-me perguntar Então sou bonito por dentro? No recobro sozinho quando só máquinas e bips no escuro e uma braçadeira a inchar-se de tempos a tempos no antebraço para apurar números e o peito cheio de tubos com coisas a escorrerem de mim ao perceber que ali a C. pensei Estou vivo.

10 novembro 2007

O génio que cansa

Como ele diz, mais ninguém escreve assim. É verdade. Comprei O Meu Nome é Legião, o último de António Lobo Antunes, à entrada do metro, a metade do preço, mercado negro. Tão negro como os seus livros, onde cada história é contada através de uma trança de pensamentos de personagens, ou como nós, quando estamos a pensar e vem um pensamento atrás do outro, e depois outro, sem nexo ou com nexo, tanto faz, mas ele escreve-o bem. Tão bem que é brilhante. Tão genial que cansa.

08 novembro 2007

Aviso à população

Desapareceram ontem à noite de sua casa dois adolescentes, aparentando cerca de trinta anos. A última vez que foram vistos, no Coliseu, vestiam ganga e tons de preto. O rapaz tinha uma mão no bolso, a outra com uma garrafa de água e abanava muito ligeiramente a cabeça ao som dos Interpol. Não sofrem de perturbações mentais – pelo menos diagnosticadas – , nem são perigosos. Pede-se a quem tenha tido notícias sobre o seu paradeiro o favor de não o comunicar à filha de ambos, para evitar chantagens na futura adolescência.

Novembro no andar de baixo

Chove na casa de banho da minha vizinha. Se ligo o chuveiro, chove. Então, ligo o chuveiro na mesma, mas tapo o ralo da banheira. Depois tiro a água suja à baldada, mas chove na mesma. Já lhe disse: a casa dela é que está bem. Estamos em Novembro e em Novembro, por costume e hábito de muitos anos, chove.

02 novembro 2007

Como o início de um livro, um fim de tarde

As famílias felizes são todas iguais, vão todas para o Jardim da Estrela, as infelizes vão cada uma para seu lado.
Os quartos de hotel são todos iguais, os quartos de hotel são todos iguais. No interior sentimo-nos como se estivéssemos a fugir de alguma coisa, quando só queremos ser encontrados. Os quartos de hotel são quartos de motel, com um carro estacionado frente à porta, pronto para uma fuga através do deserto. Têm bíblias nas gavetas das mesas de cabeceira, marcadas onde o hóspede anterior as abandonou: Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor, estando numa terra estranha? (Sl 137:4). Têm alcatifa e um espelho ao fundo. No quarto escuro, com a luz intermitente da televisão, vê-se nele (o espelho) o reflexo do fugitivo, em cima da cama, o telecomando na mão. Os quartos de hotel são todos iguais. Mesmo quando não são.
Vistas de cima, num voo nocturno, as cidades parecem campos de um incêndio extinto, antes do rescaldo. A iluminação pública alaranjada concentra-se em brasa ou espalha-se em linhas de fractura, mais ou menos geométricas, conforme os bairros a que servem de limite. E depois, pelo meio, os vazios escuros e imensos onde intuímos massas de água, como o Tejo. Endireitar a cadeira, recolher o tabuleiro, apertar o cinto, regressar a casa.

25 outubro 2007

um eléctrico chamado prazeres

Longe de New Orleans, há um eléctrico chamado prazeres, que termina em graça. Para o outro lado, termina no largo em frente ao cemitério. Entrei nele pela primeira vez há pouco tempo, numa visita mais ou menos cultural. Os mortos, passadas várias gerações e estando mortas também as pessoas que os conheceram pessoalmente, são apenas história e antropologia. Podemos passear pelas alamedas de ciprestes sem qualquer sentimento mórbido, como quem passeia ao fim da tarde por um bairro suburbano.
No resto da cidade, a arquitectura é o resultado de um equilíbrio entre demolição e construção. Por isso é nos cemitérios que podemos analisar mais claramente a sucessão dos estilos arquitectónicos. Mausoléus e jazigos neoclássicos, neogóticos, arte nova, modernistas lado a lado, em filas intermináveis, com nomes de famílias que se perpetuam e extinguem do lado de fora dos muros.

15 outubro 2007

Ensopado de enguias

Parta as enguias depois de arranjadas e lavadas e salgue-as. Faça um refogado com duas cebolas às rodelas e três dentes de alho picados, uma folha de louro, uma colher de chá cheia de colorau, um ramo de salsa e um copo de vinho. Deite as enguias no refogado e deixe que apurem bem. Rectifique o sal e quase a terminar a cozedura deite mais meio copo de vinho branco. Sirva as enguias numa travessa sobre fatias de pão torrado ou pão frito.

(Desculpem, mas já tinha vergolha de não publicar nada há tanto tempo. Para os mais sugestionáveis, bom apetite.)

30 setembro 2007

Descrição

É manhã de domingo e chove. Pusemos a tocar o Music for Egon Schiele de Rachel’s. O som do chuveiro da J. reproduz o da chuva no interior da casa. A L. gatinha sobre o soalho de madeira brilhante e clara, brinca com uma das minhas botas. As vidraças têm riscos de bátegas do lado de fora e os nossos rostos encostados do lado de dentro. A água escorre pelos carris inclinados do eléctrico. Seguem paralelos para lá da curva em que os deixamos de os ver.

21 setembro 2007

A biografia de cada dia

"Um dia onde cabe uma vida inteira". Era o que eu escreveria na cinta do "Sábado", do Ian McEwan, se trabalhasse na Gradiva. Finalmente li-o. Num instante. Mas talvez na Odisseia dublinense que andas a ler, Tiago, caiba mais alguma coisa no dia que apenas uma vida inteira. As biografias afligem-me porque resumem as grandes vidas a um livro, a um artigo de jornal, a um obituário, a uma frase. Deviam ser escritas assim: um livro para cada dia de vida dos biografados e cada um de nós seria uma biblioteca imensa.

30 agosto 2007

A primeira coisa parecida com uma palavra da L. foi Olá. Não sei se é um indício de que vai ser muito simpática ou de que vai gostar tanto de gelados como os pais.

29 agosto 2007

Um banho de imersão ao chegar a casa, sem medo de molhar o livro. A marca no capítulo dezassete, onde se fica a saber que L. Bloom admira na água, entre outras coisas, a inquietação das suas ondas e partículas superficiais visitando em turnos todos os pontos do litoral; o seu apaziguamento após a devastação. Andei perdido neste livro durante dez anos ou algumas semanas, de ilha em ilha. Agora estou quase a chegar a Ítaca, no n.º 7 de Eccles Street, Dublin. Regressei a casa e a temperatura da água vai diminuindo gradualmente na banheira, sobre a praia.

23 agosto 2007

Posta de Nicósia - on religion

O Tiago tem razão. Aliás, conta-se uma história que ilustra bem esse exemplo, sobre os irlandeses. Encontravam-se dois e perguntavam-se: és ateu católico ou ateu protestante? É isso, a religião como produtora de uma determinada cultura. Nesse sentido também sou um ateu católico. Não sou, comprovadamente, um ateu muçulmano.

Penso que a religião deve ser absolutamente respeitada. Mas do ponto de vista indivudual. Ninguém tem nada a ver com a confissão que quem quer que seja professa. Isso é uma coisa de cada um para si mesmo. O problema é que as igrejas são comunidades, e as comunidades são fenómenos grupais e os grupos projectam uma mundovisão, e depois há mundovisões que chocam e às vezes isso é o fim do mundo.

Escrevo em Nicósia, capital de Chipre. Cheguei hoje de Beirute. Ora Beirute é um dos muitos exemplos de como uma sociedade em que se a religião não saísse da soleira da porta ou do adro do templo, tudo seria mais fácil para todos. Neste contexto, a religião não tem qualquer utilidade para a política: há cristão, cristãos maronitas, xiitas, sunitas, eu sei lá. Os cristão têm o presidente, os sunitas o primeiro-ministro e os xiitas o presidente do parlamento. Ou seja, para além de todas as confusões, nem sequer falam uns com os outros. acredito nos benefícios individuais da religião em muitos casos, mas duvido muito dos benefícios da religião para a política.

Por que sou cristão

(O texto do Vítor é um bom ponto de partida para uma reflexão que há muito andava para fazer. O título é baseado no de uma palestra proferida por Bertrand Russell em 1927: Why I Am not a Christian.)

Em todos os congressos há alguém na plateia que, depois de o orador ter terminado, se levanta, pede a palavra e começa a descrever uma qualquer ideia excêntrica. Chegou a minha vez de pedir o microfone: sou um ateu católico. Não acredito em qualquer tipo de transcendência, sobrenatural ou misticismo. Acredito que o universo existia antes de nós e que eu não existirei depois de mim. Sou culturalmente católico. Há rituais que cumpro porque sinto que fazem sentido. Se tivesse crescido nas selvas da Amazónia, provavelmente tinha pintado o tronco e jejuado para marcar a puberdade. Assim, fui crismado. O ponto essencial é não me sentir vinculado a nenhuma autoridade. Aceito o que quero e rejeito o resto. Basta-me que Jesus Cristo tenha sido homem. Acredito na tolerância, no perdão com arrependimento e no auxílio aos mais desfavorecidos. Não é uma posição confortável, mas sinto que seria uma hipocrisia maior rejeitar totalmente a minha educação católica sem me apetecer, só por ser mais popular.
A utilidade social da religião é uma ideia que alguns autores foram trazendo para a filosofia política ao longo dos tempos. Não é essa a minha posição. É uma religião meramente pessoal. Aguardo serenamente a excomunhão e o relâmpago.

A mão do Baptista

No Montenegro, o mais jovem país do mundo, há uma mão de São João Baptista, num mosteiro ortodoxo. Na mesma urna, que os monges adoram e abrem para mostrar aos turistas, está um lenho da cruz de Cristo. Olhei para aqueles objectos sagrados a ver se sentia alguma coisa, se me invadia assim um pequeno frisson religioso e nada. Tornei-me ateu e não há nada a fazer.

22 agosto 2007

Uma enorme indolência. Desejar a destino de Hans Castorp, na Montanha Mágica: ir visitar um primo a uma casa de repouso e acabar internado. Uma cadeira longa, uma manta nas pernas, um livro aberto abandonado sobre o peito. Apanhar o comboio que desce para o vale, eventualmente, mas só lá para o Outono.

21 agosto 2007

Um passageiro, sempre com a ponta do bilhete a sair da ponta dos dedos, para mostrá-lo logo que o peçam, para confirmarem o direito à viagem, no banco de trás, o vidro baço, entre a gravidade e a graça, num autocarro nocturno.

20 agosto 2007

French-kissing

Desdobrámos o mapa de estradas. A meio caminho entre Grândola e o Carvalhal há uma povoação chamada Beijinho de Água. Quando passámos por lá, na manhã seguinte, a placa indicava Brejinho de Água. Mais verosímil mas menos poético. Consultei vários mapas e o erro repete-se. Podemos facilmente imaginar um geógrafo solitário a esconder uma gralha por entre as linhas que se bifurcam e interseccionam. As prensas só tiveram depois de multiplicar o erro, torná-lo credível. A meio caminho entre dois lugares há um beijinho de água.