Devemos à conjunção de um espelho e de uma enciclopédia a descoberta deste mundo. Por Vítor Matos e Tiago Araújo
21 maio 2007
Qualquer dia discutimos Proust
Passo quase todos os dias pela Casal Ribeiro a pé. Ao fim da tarde, início da noite, cruzo-me com um sem-abrigo, na sua cama improvisada. Habitualmente, lê livros. Um vagabundo literário. Ou um escritor maldito na reforma? Da última vez, esta semana, lia um livrinho de capa negra, não percebi qual. Seguramente, possui vantagens sobre mim: tem para ler o tempo que me falta, um bem escasso que faz dele rico; e consegue ler na cama, coisa que a mim sempre me fez doer as costas.
04 maio 2007
02 maio 2007
Levar a torradeira ao jardim
Há umas semanas, desde que vi uma mulher a atravessar a passadeira, mesmo diante do meu carro, a puxar um micro-ondas pela trela, que não consigo deixar de pensar em como a minha televisão deve estar triste na sala de estar.
30 abril 2007
Na rua da minha infância ninguém morreu, apesar de muitos terem morrido. De vez em quando a minha mãe conta-me que a mãe, o pai, o marido, a avó de alguém morreu. Como já não moro lá, as tragédias esbatem-se e é difícil ir mantendo um registo actualizado. Na dúvida, continuam todos vivos. Coexistem assim duas ruas. Uma em que há viúvos e viúvas e novos inquilinos em algumas das casas. E outra que se manteve inalterada desde que me mudei, com os mesmos habitantes, parada no tempo como uma fotografia. Nesta, até o campo de futebol ainda não foi substituído por mais um prédio de habitação. A primeira rua é mais verdadeira. A segunda é mais real.
23 abril 2007
22 abril 2007
Claude Lévi-Strauss escreveu que em São Paulo é possível dedicarmo-nos à etnografia dos domingos. Em Lisboa também. A tribo é a dos melancólicos: os que andam pelas ruas de comércio fechado, mais lentamente que nos dias úteis; os que se sentam numa escada a ouvir o som que vem das casas em que almoços familiares semanais se prolongam; os que procuram um porto de abrigo no único café aberto do bairro para lerem um livro; os que se sentam à porta de casa a descascar uma laranja com os dedos e a ouvir o relato; os que dizem «- Deve estar um dia agradável lá fora.» e carregam no telecomando para ver o que esta a dar noutro canal; o que observa e relata estas práticas de modo antropológico, observador-participante sem objectividade e com umas horas para perder.
Ontem um vento que já não faz frio percorreu-me os antebraços durante toda a tarde. Durante o passeio comprei os Essays de Francis Bacon numa feira ao ar livre de livros usados. Numa das primeiras páginas tem a inscrição: Luís Saavedra Machado/1939. No primeiro parágrafo do último ensaio (Of vicissitude of things), Bacon relembra a velha ideia de que a matéria se encontra em perpétuo fluxo. O facto de estar a ler essa frase, 68 anos após o Sr. Luís – provavelmente já morto e com a biblioteca disseminada pela cidade –, é prova suficiente dessa corrente, que é como uma profecia que se auto-realiza.
20 abril 2007
A criada veio trazer-me numa bandeja de cristal contente a rir cerimónia uma imensidade de compotas e refrescos. Devia ser uma criada nova com certeza, porque eu não a reconheci. Mas tão pouco podia compreender que tivessem tido o espírito de aceitar como servente uma extravagante que logo no primeiro dia entrava completamente nua no meu quarto a servir-me um primeiro almoço que nunca fora tão exuberantemente de meu hábito. E com uma destas naturalidades impressionantes desdobrou os guardanapos quadradamente azuis sobre uma mesa que eu também nunca conheci no meu quarto e foi dispondo com requinte decorativo prò meu apetite os cristais, os reflexos, os doces e as coxas. [José de Almada Negreiros, K4 O Quadrado Azul]
17 abril 2007
Desde que nasci que passo parte do verão por baixo de carvalhos, em volta deles, a tentar trepá-los sem sucesso. São centenários e têm raízes grossas que se espalham como veias dilatadas à superfície da pele e cavidades perfeitas para esconder e descobrir tesouros. A melancolia de final de férias faz com que traga quase sempre na bagagem umas landras (nome que dão às bolotas na região). No ano passado, depois de ter desfeito as malas, lancei-as de forma displicente para um vaso já ocupado por uma buganvília. Após meses de negligência descobri que nasceu um pequeno carvalho, agora com cerca de dez centímetros. Um carvalho num vaso, numa varanda de um quarto andar de Lisboa, parecerá absurdo a quem perceber de botânica. Não a quem perceber de psicologia. É só uma questão de tempo até ter de tomar uma decisão sobre o destino a dar-lhe. Para tudo é apenas uma questão de tempo.
16 abril 2007
Num diálogo do Livro V da República Platão sugere que na cidade ideal os filhos deveriam ser tirados aos pais ainda bebés e entregues ao cuidado do estado. Pais e filhos não se reconheceriam. As mães «de seios túmidos de leite» seriam levadas até às crianças sem que pudessem pressentir se estavam a amamentar a sua.
Pensei várias vezes esta manhã que algumas utopias só falham pelo exagero enquanto subia do Calvário para as Necessidades para levar a L., com cinco meses, ao seu primeiro dia de infantário. Pensei também na história do irmão da Isabel: prepararam-no para o primeiro dia de primária e parece que as coisas correram bastante bem. No segundo dia, quando o foram acordar para ir para a escola, exclamou admirado «– Outra vez!», sem perceber que ainda o aguardavam muitos anos de aulas.
Pensei várias vezes esta manhã que algumas utopias só falham pelo exagero enquanto subia do Calvário para as Necessidades para levar a L., com cinco meses, ao seu primeiro dia de infantário. Pensei também na história do irmão da Isabel: prepararam-no para o primeiro dia de primária e parece que as coisas correram bastante bem. No segundo dia, quando o foram acordar para ir para a escola, exclamou admirado «– Outra vez!», sem perceber que ainda o aguardavam muitos anos de aulas.
15 abril 2007
Paul Verlaine tentou matar a própria mãe em duas ocasiões diferentes ao longo da vida de ambos e numa outra o seu amante Rimbaud. Nos três casos estava sob o efeito do álcool ou da poesia, substâncias que tendem a despertar o lado teatral e trágico dos seres humanos. Com Rimbaud a cena passou-se em Bruxelas, em 1873, e foi a última vez que se terá passado alguma coisa de interessante nessa cidade.
13 abril 2007
É conhecido que os utilitaristas eram filósofos com um espírito prático. Jeremy Bentham, por exemplo, desenhou planos para um novo tipo de prisão. A distribuição do espaço no panopticon faria com que os guardas pudessem observar os prisioneiros mas não o contrário. A ideia era moldar o comportamento dos reclusos através de uma combinação de omnisciência e de incerteza. Na dúvida, teriam de agir como se estivessem a ser observados.
Não foi a primeira vez que a arquitectura tentou chegar a deus, apenas uma das mais estranhas. Como qualquer teólogo cristão poderá confirmar, será igualmente uma tentativa votada ao fracasso. A incerteza faz apenas com que os espíritos oscilem entre a piedade e a expiação.
Não foi a primeira vez que a arquitectura tentou chegar a deus, apenas uma das mais estranhas. Como qualquer teólogo cristão poderá confirmar, será igualmente uma tentativa votada ao fracasso. A incerteza faz apenas com que os espíritos oscilem entre a piedade e a expiação.
02 abril 2007
01 abril 2007
ship of fools
A nave dos loucos foi uma imagem bastante utilizada pelos teólogos da Idade Média para representar a humanidade como o grupo de passageiros de um navio que não sabe, nem quer saber, para onde este navega. Mas a alegoria é redutora. Há sempre os que se aborrecem com os jogos de cartas, os daiquiris no bar da piscina e percorrem a amurada em busca de um sinal de terra. De facto, as personalidades humanas dividem-se entre os que embarcam pela viagem e os que embarcam pelo destino, entre a vida-cruzeiro e a vida-cacilheiro. O mais estranho é que, na minha opinião, é impossível dizer qual dos dois grupos está certo ou é mais feliz.
28 março 2007
O tributo das sereias
Eu cá nunca pesquei sereias nem tritões, nem nunca lhes ouvi cantares, nem comi caldeiradas de peixes assim. Mas ao ler a Descrição da Cidade de Lisboa, de Damião de Góis, descobri que ambas as espécies abundavam nas águas doces e salgadas da capital portuguesa, até havendo um imposto lançado sobre essas especiais pescarias. Num contrato entre Dom Afonso III e o mestre dos Cavaleiros de São Tiago, que o autor terá visto com os seus olhos, estabeleceu-se que "o tributo das sereias e dos outros animais pescados nas praias da mesma ordem se devia pagar aos reis". Ora deve ser de ouvir tanto canto das sereias que este país se tornou nisto...
13 março 2007
O chão da nossa casa é de tábua corrida. A madeira brilhante, clara e lisa range em alguns sítios e, por isso, por vezes parece que estamos a andar sobre o convés de um veleiro, com o cordame a gemer ao ritmo da ondulação. Estamos fundeados numa baía, à espera do escaler que nos há-de levar a terra. Não chegamos a ir, mas a expectativa mantém-nos alerta, a espreitar pelas janelas, a sentir o vento no cesto de gávea.
12 março 2007
pólen
A minha alergologista disse-me que talvez tenha chegado a altura de me insensibilizar. Nunca nenhum médico que tinha dito que havia essa opção.
09 março 2007
His nearness to the devouring sun softened the fragrant wax that held the wings: and the wax melted: he flailed with bare arms, but losing his oar-like wings, could not ride the air. Even as his mouth was crying his father’s name, it vanished into the dark blue sea, the Icarian Sea, called after him. [Ovídio, As Metamorfoses]
Desaparecer no azul profundo do mar, como Ícaro, por uns segundos. O verão ainda tão longe.
Desaparecer no azul profundo do mar, como Ícaro, por uns segundos. O verão ainda tão longe.
08 março 2007
Um post sobre nada
Por uma ligação que parece impossível, as casas de banho públicas com iluminação activada por sensores de movimento são propensas a criar ambientes de rodeo. Se demorarmos um pouco mais em frente ao urinol a luz apaga-se e vemo-nos na estranha situação de ter de manter uma mão a segurar o pénis e a outra no ar a fazer movimentos circulares para que ela se volte a acender.
(Tive o cuidado de não recorrer ao uso de metáforas – touro, animal, etc. – para não pensarem que me estou a gabar. A modéstia nunca é demais, ao contrário das figuras de estilo.))
(Tive o cuidado de não recorrer ao uso de metáforas – touro, animal, etc. – para não pensarem que me estou a gabar. A modéstia nunca é demais, ao contrário das figuras de estilo.))
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