Depois de ter passado, numa noite sem televisão, um quarto de hora a tentar perceber o conceito de entropia, compreendo que Boltzmann, o físico que o definiu, se tenha suicidado. O que acho estranho é ter-se suicidado quando estava de férias em Itália, na Baía de Duíno, perto de Trieste. Enquanto a mulher e a filha foram nadar, ele enforcou-se. O que demonstra o elevado grau de desordem em que se encontrava o seu sistema físico.
(Pouco tempo depois, dados experimentais viriam a confirmar as suas teorias.)
Devemos à conjunção de um espelho e de uma enciclopédia a descoberta deste mundo. Por Vítor Matos e Tiago Araújo
24 agosto 2006
21 agosto 2006
Dizem que a solidão não se cura com comprimidos. Isso contraria a minha tese (de que já tratei aqui) sobre a relação entre os reformados e os centros de saúde. De um modo geral, os reformados têm tendência a juntar-se a outros reformados – num fenómeno semelhante ao das gotas de mercúrio – em lugares como centros de saúde, filas de minipreço e balcões da Caixa Geral de Depósitos. Este facto, pouco estudado, contribui para o défice do sistema nacional de saúde e para um gasto excessivo em cadernetas CGD, sempre perfeitamente actualizadas. O senhor doutor receita gotas para os olhos, cremes para a espondilose, ampolas para as diabetes, quando para alguns casos bastaria um baralho de cartas. 7h30 da madrugada, senha 31.
13 agosto 2006
Meta-post
Os escritores têm o trauma da página em branco. Os bloggers têm o da eternização do último post. Quando não se alimenta o animal de forma regular, colocar um texto torna-se uma responsabilidade demasiado grande. Se não for bom, as pessoas que visitam o blogue vão ter, ainda assim, de lê-lo de modo recorrente durante semanas. Uma solução é adoptar a teoria do eterno retorno: escrever cada post como se pudesse ser lido infinitamente. A outra é ir escrevendo qualquer coisa para ir empurrando o passado para baixo.
08 agosto 2006
The Passenger, Michelangelo Antonioni
Apesar de, tirando o Jack Nicholson, os outros actores não terem jeitinho nenhum para a coisa; apesar de a Maria Schneider passar o tempo todo com cara de quem a margarina de Paris lhe caiu na fraqueza; apesar de muitos dos diálogos parecerem artificiais; apesar de a música do Iggy Pop compreensivelmente não fazer parte da banda sonora (acho que só foi gravada mais tarde); gostei do filme.
04 agosto 2006
I.A.
Na escrita inteligente do meu telemóvel quando tento escrever o meu próprio nome aparece primeiro a palavra «vício». A primeira reacção é pensar «Fui descoberto». É natural que a inteligência artificial venha a evoluir exponencialmente no meu tempo de vida, mas nem a leitura dos livros do Arthur C. Clarke e do Ray Bradbury, na adolescência, me preparou para ser psicanalisado por uma máquina. Na dúvida, atribuo o fenómeno a uma infeliz coincidência alfabética.
03 agosto 2006
Banhos de sol

Domingos sem charme, dias sem interesse, banhos de sol dos pobres.
- Ai se eu fosse nova, o que era dos rapazes que passavam. Havia aqui dantes tanta tropa... Mas no meu tempo não se podia, era uma vergonha, sabe lá. Agora faço o que me apetece e a minha filha até pensa que fui à missa. Adeus, e aproveite enquanto pode...
Ao domingo sai do bairro da Bica, atravessa a estrada até ao Tejo e senta-se ali, num banco perto do parque de estacionamento, que havia de ser o de um jardim.
Nem o peixe pica nem ganha o Benfica

- Ó chefe, hoje isso 'tá a dar?
- O peixe não pica... 'tá pior que o Benfica!
Na calçada entre o Cais do Sodré e a Praça do Comécio, os pescadores alinham-se aos domingos de manhã, e esperam.
- Mas ó chefe, o peixe daqui é bom?
- Olha, olha, então não é? Ele são linguados, sargos, você sabe lá? Já viu ao preço que isto 'tá na praça?...
02 agosto 2006
À pesca das tágides
01 agosto 2006
Luz rolante
Região solar
Praia dos pobres

Domingo. Estação do Cais do Sodré. Às nove e meia da manhã o povo move-se na estação com um frenesim de sentido contrário: hoje eles não chegam a Lisboa, hoje eles vão. De guarda-sol enrolado, calções vestidos, sandocha na mochila, toalha ao pescoço, cores que se vejam. A praia é dos pobres na linha do Estoril. O sol quando nasce é para todos, sabia-se. A areia não. Cada um vai a banhos onde pode.
31 julho 2006
Fui a banhos. Ir à praia no Algarve é uma experiência multicultural incomparável. Podemos adivinhar a nacionalidade das crianças pelas brincadeiras que têm. As francesas passam o dia a construir pequenas fortificações e castelos de areia que são rapidamente destruídos pela subida da maré ou pela corrida intrépida das crianças alemãs. As holandesas escavam redes de canais na areia molhada para encaminharem a água salgada para lagos interiores. As crianças suecas e dinamarquesas passam simplesmente o dia sentadas dentro das poças a cismar sobre o sentido da vida. Já regressei.
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The pleasures of expectation are the pleasures that result from the contemplation of any sort of pleasure, referred to time future, and accompanied with the sentiment of belief.
Jeremy Bentham, Introduction to the Principles of Morals and Legislation, 1789
Jeremy Bentham, Introduction to the Principles of Morals and Legislation, 1789
20 julho 2006
*
Na verdade, de um ponto de vista puramente gastronómico, eu deixava de ter pena do porco acabado de matar, quando o meu avô aparecia com o fígado (acabado de extrair) grelhado na brasa, mal passado, temperado com azeite, vinagre e alho. Se eu fosse Prometeu, a minha história seria uma metáfora da inveja, por inveja ao abutre.
* para ser lido com um ligeiro sotaque alentejano.
* para ser lido com um ligeiro sotaque alentejano.
14 julho 2006
*
De um ponto de vista puramente gastronómico, tenho menos pena do Prometeu que do abutre que lhe tem de comer o fígado todos os dias.
* Pensamento do dia ao estilo Agora Escolha. Deve ser lido com a entoação de voz da Vera Roquete.
* Pensamento do dia ao estilo Agora Escolha. Deve ser lido com a entoação de voz da Vera Roquete.
05 julho 2006
A horagá

Este homem vai ser o orgulho da nação!
Até lá, à hora H, vou: trabalhar qualquer coisa, almoçar com uma pessoa, moderar uma conversa, levar o carro à inspecção, encomendar frangos, comprar bujecas, ufff, vestir o Miguel, meter a sopa dele, o biberão e o Blédine na mochila e voltar ao carro, esperando que a Carla consiga chegar a horas, para ir ver esse grande momento no estádio talismã: a casa da Blan e do Afonso. Que os deuses nos protejam!
Relógios e queijos suíços

A França é um mecanismo perfeito, só não digo que é um relógio suíço porque o Zidane podia irritar-se (os argelinos são danados). E Portugal não tem cometido erros, por isso, não podem esperar os franceses que deste lado encontrem um queijo suíço. Daqui das Linhas de Torres não há buracos, e as tropas napoleónicas (sabendo que tivemos a ajuda dos ingleses) sabem que este rectângulo não é fácil de tomar. Ora tenho para mim que desta vez ganhamos. Ai ganhamos sim. O Deco, esse representante da genuína alma lusitana, vai marcar. Vão ver....
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