14 abril 2006

Conversas de rua - frases de hoje


"É mais fácil neste país chegar a primeiro-ministro do que estacionar o carro". Homem de meia idade, na Rua Filipe Folque, Lisboa, a gritar para um amigo.

"Ele passa férias no México ou em Óbidos". Jovem para outra, na Av. Conde Valbom, Lisboa.

"Fui preso mas não roubei nada a ninguém, nem matei. Fui preso por tráfico de droga, tráfico de droga, pá!" Bêbado, pelas nove da noite, num cafezinho do Prior Velho, Loures.

Ora vamos lá pecar

Segundo um dos maiores da hierarquia Católica, agora passar tempo na Internet é pecado. Bem, mas como já é tarde e eu hoje ainda não pequei, decidi pecar só um bocadinho.

07 abril 2006

Estrebuchar

Berlusconi atacou jornalistas e juízes. Guess what? Vai perder as eleições italianas, como Santana e como Soares em Portugal. É o que se chama um reflexo pavloviano.

O realismo

Aprendi há muito tempo que não posso mudar o mundo mas posso mudar a minha vida. Agora ando a descobrir que mesmo essa de mudar de vida se vai tornando mais difícil com a idade.

05 abril 2006

Nação bastarda


Ao que parece, Afonso Henriques, o verdadeiro, era aleijado, tendo sido o bebé original substituído por um saudável filho de Egas Moniz. O livro de Agustina que o Abruto nos oferece em pré-publicação (uma iniciativa interessante que esperemos que resulte) põe a nu alguns genes de Portugal. E a genética ajuda sempre a perceber quem somos.

- Se não é bastarda, a Nação nasceu para argumento de novela venezuelana e isso não deixa de ser divertido, apesar do fado ser melancólico;

- A modernidade é muito mais aborrecida, porque acabaram-se os milagres: pode parecer, mas não é tão miraculoso o Sampaio demitir o Santana Complicadex e nomear o Sócrates Simplex, como foi o Egas invocar o divino após trocar o menino legítimo, mas defeituoso, por outro saudável e futuro guerreiro;

- Se não fosse aquela mentira, andávamos todos a falar espanhol, Camões não havia, nem alma Lusitana, nem Barça-Benfica.

- Já estou aver a cena: o aio Egas Moniz diz a D. Afonso, "Eu é que sou o vosso verdadeiro pai, vós fostes trocado, por isso, podeis fazer a guerra a D. Teresa, ela não é a vossa mãe, mas sereis ser rei e governareis"; o infante replica-lhe em lágrimas, "Papá, eu sabia, estou tão emocionado, vinde, pegai na espada, vamos aí desbaratar uns mouros..."

Eu sou um pessimista

O funcionário das Finanças que hoje recebeu os meus 100 euros de multa porque decidi fechar os recibos verdes com uma data de 2005 (porque desde Julho nunca mais passei recibos), tinha um cartão colado ao vidro da repartição a dizer: "Eu sou um optimista!"

É bonito ver um funcionário público de óculos fundo de garrafa e fato cinzento claro com corte dos anos 70, cheio de sarro, pulover verde com desenhos pretos e gola da camisa numa confusão a dizer que é optimista enquanto cobra multas por dá cá aquela palha. Como eu gostava de ter essa sorte. Acho sempre que tudo vai correr mal para depois parecer que correu bem.

04 abril 2006

Boas decisões

- Mudar de casa e comprar o pacote alargado da TV Cabo que incui o Fox, para ver os Ficheiros Secretos, as Donas de Casa Desesperadas, o 24, o House (sobre médicos, mas melhor do que o Serviço de Urgência), os Simpsons e outros desenhos animados para adultos, muito corrosivos.

- Comprar um iPod e descarregar todas as semanas o podcast do Meet the Press, da NBC e o Washington Week da PBS.

- Ler a Conspiração Contra a América, de Philip Roth.

- Dar o biberão da manhã ao Miguel e sair de casa mais cedo.

03 abril 2006

A marca da moça registrada

Nunca li e jamais lerei a Margarida Rebelo Pinto, portanto, nem sei se é boa. Escritora. Se ela pode interpor providências cautelares para impedir a publicação de uma obra crítica à sua obra - num país onde há liberdade de expressão -, não pode alguém pedir uma acção cautelar a um tribunal que também a impeça de escrever? Não era bom, seria mau, todas as sociedades têm direito a ter má literatura, se é disso que se trata, mas era equitativo.

Olhó verso em conta!

Há poeeesia baraaata! Na R. Passos Manuel, ao Jardim Constantino, na livraria da Assírio & Alvim, podemos comprar na feira do livro manuseado (da própria editora), Pessoa, Herberto Helder, Cesariny, etc. a metade do preço. Até quase ao fim de Abril. É pena que só esteja aberta entre as 12h e as 19h.

31 março 2006

Complicadex

Sempre que vou a uma consulta no hospital, o que é frequente, desespero com a espera só para dizer que ali estou, e que podem avisar sôtor. É o menos. Enquanto espero, há sempre os velhos ao engano. Querem apenas marcar uma consulta (sabe-se lá quando) e são sempre recambiados. "Hoje não é dia de marcar consultas", diz a voz fria por detrás do balcão. Os velhos pedem desculpa e voltam para casa.

Venham as espanholas, venham as suecas

"Grupo de 16 empresas suecas prepara entrada em Portugal" - título no suplemento de Economia do DN de hoje.

António Pires de Lima, do CDS, que comentava "venham as espanholas!", para José Sócrates (a propósito do encerramento da maternidade de Elvas), deve estar radiante. Venham as suecas.

Teoria da conspiração

Saldanha Sanches, esta noite na SIC-Notícias, falou de um boato que vai por Lisboa: que a direcção da Judiciária ameaçou demitir-se e o Governo cedeu (em relação à perda de competências sobre a Interpol e a Europol) por causa das gravações judiciais do caso Bragaparques. Um boato dito assim na televisão torna-se numa verdade a correr o país. Será que vai acontecer alguma coisa, ou era ele a fazer um teaser sobre o que a mulher, Maria José Morgado haverá de dizer ainda esta noite, no mesmo canal?

30 março 2006

O olhar do Afonso


O Luís Afonso não é fotógrafo profissional, mas é fotógrafo, a prova está aqui ao lado, nesta imagem bela e invulgar que ele recolheu em Berlim. Em http://www.luisafonso.com/ viajamos pela Europa e América através da poesia do olhar dele.

O Afonso é uma daquelas pessoas especiais, um homem da Renascença do século XXI: é informático, o site foi feito por ele, mas não é apenas um geek dos computadores, é um melómano apaixonado por Mozart e Bach, coleccionador de requiems apreciador de arquitectura, fotografia, pintura... um curioso. E bom amigo, por isso sou suspeito.

Vale a pena a visita às exposições permanentes e temporárias no site dele. Boas viagens.

Cortinas de fumo

Depois de amanhã é dia das mentiras, dia de político, porque a política é a arte da ilusão (também é a arte do possível, mas isso é outra conversa). Com jeitinho, em política pode mentir-se todos os dias.

Luís Filipe Menezes anunciou hoje que não era candidato às directas no PSD invocando, entre outros, o argumento de que tinha sido reeleito para a autarquia de Gaia. Porém, quando se candidatou contra Mendes há um ano não o impressionava desbaratar a confiança que lhe deram os eleitores - pois deixaria a câmara e ia para o Parlamento -, tendo até desafiado Marques Mendes a candidatar-se a uma câmara. Dizia que liderar uma autarquia e o partido não era incompatível. Abençoada coerência...

As razões verdadeiras são outras. O homem parece meio lunático, mas não é parvo. Perdia agora para Mendes as directas que sempre defendera e acabava-se ali o Menezes.

Ele sabe que quando um adversário precisa desesperadamente de um adversário, o melhor é deixá-lo ganhar sozinho para ele se convencer enganosamente de que ganhou (isto serve para Menezes no PSD como para Temo Correia ou Pires de Lima o CDS).

Coisas do presente

Um homem tem um filho, muda de casa, não tem tempo para nada, e depois fica assim agradado com coisas naturais: hoje a dupla João Adelino Faria e Ana Lourenço, na SIC-Notícias, estiveram em grande. Apertaram com o Menezes, que não se recandidata no PSD, com o Rui Pereira sobre terrorismo, com o seu ar de eu-sei-muito-mais-do-que-digo e animaram um debate entre Ana Catarina Mendes e Teresa Caeiro sobre as quotas de mulheres nas listas às eleições.
O panorama anda tão mau que uma pessoa até diz - ah, sim senhor! - quando se vê uma coisinha bem feita.

29 março 2006

Coisas do passado - dinastia Cavaco


Enquanto este blogue esteve em coma, foi eleito um PR em Portugal. Há um mês que tenho aquela imagem atravessada. Apetecia-me dizer isto:

Cavaco, a subir a rampa do Palácio de Belém com a Maria pela mão (até aqui tudo bem), mais os filhos, mais os netos, mais o genro mais a nora é pindérico. E é monárquico.

O Luís Montez (genro) não é mais do que eu para andar ali.
A Perpétua (nora) não é mais do que você para andar ali.
(Eu também quero subir a rampa, você não quer?)
Os filhos já não são dependentes do papá para aparecerem na fotografia.
As crianças não mereciam ser usadas assim.

Em termos de marketing - dantes dizia-se propaganda - , a coisa funcionou na perfeição.

reset/restart

Hoje é um bom dia para reinaugurar este blogue. O Tiago sabe por quê. Vamos a isto.

31 janeiro 2006

Encontrei, num corredor longo e baixo de uma estação de metropolitano, um homem a tocar o Take Five de Dave Brubeck num acordeão. Não sei se isto constitui um símbolo do triunfo ou do fracasso das nossas políticas sociais. Como sou optimista e gosta da música, contribuí com a moedinha.
Sugeri escrever um último post, sobre a eutanásia, e acabar com o sofrimento do blogue. A moção foi rejeitada, por isso temos de continuar a dar-lhe doses de morfina, gota a gota.

15 janeiro 2006

Nós, os nórdicos do sul, temos melancolia sem Volvos. Caminhamos calados pelas ruas com as golas do sobretudo levantadas, passamos demasiado tempo nas esplanadas a cismar frente às chávenas de café e só não nos suicidamos mais porque esse é um passatempo de povos ricos. Estes traços de personalidade podem permanecer latentes durante meses, mas basta um dia triste de chuva como este para me apetecer ler Kierkegaard e ver filmes de Bergman.