JEPHSON GARDENS
Agora és estrangeiro em sentido
próprio, com os nervos toldados
por demasiada música. Sentado
na erva de Maio, junto à estufa
das carnívoras – Dragão Vermelho,
Sarracenia flava – a tua Primavera
tortuosa, transplantada.
Enrolas tabaco holandês, procuras
na memória um verso que melhor
explique o lastro das circunstâncias,
uma Inglaterra mais funda, deitada
à sombra da experiência
das palavras. E tal como esse
pequeno, quase imponderado
esforço, não terá sido afinal inútil
tudo o que fizeste na vida?
Rodas e repetições, é assim o tempo
na carne. Mas o que aprendeste
com o primeiro desengano não te preparou
para o segundo, o terceiro e todos
os que se seguiram. Entretanto faz sol
e o mundo existe, é quase uma pintura
de inocente intenção.
Rui Pires Cabral, Longe da Aldeia, Averno, 2005
Devemos à conjunção de um espelho e de uma enciclopédia a descoberta deste mundo. Por Vítor Matos e Tiago Araújo
06 dezembro 2005
05 dezembro 2005
A ocupação do espaço
A conceito mais brilhante inventado por Jeremy Bentham não está em An Introduction to the Principles of Law and Legislation, o livro em que expôs as bases do seu sistema utilitarista. Auto-ícone, a ideia de uma pessoa se representar a si própria com o seu corpo, depois de morta. O conceito é o da estátua, sem a mediação do granito, e representa um meio termo entre as múmias dos faraós e as estátuas humanas das ruas movimentadas das grandes cidades europeias. Mais interessante ainda é Bentham ter aplicado o conceito a si próprio e poder ser visitado no University College de Londres, na caixa de madeira onde permanece sentado há anos, talvez a pensar nas frases com que iniciou o seu grande livro e que já não regem a sua (não-)existência:Nature has placed mankind under the governance of two sovereign masters, pain and pleasure. It is for them alone to point out what we ought to do, as well as to determine what we shall do. On the one hand the standard of right and wrong, on the other the chain of causes and effects, are fastened to their throne. They govern us in all we do, in all we say, in all we think: every effort we can make to throw off our subjection, will serve but to demonstrate and confirm it. In words a man may pretend to abjure their empire: but in reality he will remain subject to it all the while.
01 dezembro 2005
À borla
«Artigo 31º - O direito de autor caduca, na falta de disposição especial, 70 anos após a morte do criador intelectual, mesmo que a obra só tenha sido publicada ou divulgada postumamente.» [Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos]
«Tenho que escolher o que detesto – ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.
Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com outra.» [Livro do Desassossego de Bernardo Soares]
«Tenho que escolher o que detesto – ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.
Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com outra.» [Livro do Desassossego de Bernardo Soares]
Aforismos, empirismo
Ainda não percebo totalmente o conceito de gravata de Inverno, mas ando com o esterno mais quente.
Farto de ter de ceder os louros pelos presentes a São Nicolau, um amigo contou-me que este ano decidiu ter uma conversa com a filha e explicar-lhe que, como se podia ver pelas longas barbas brancas, o senhor já estava muito velhinho, teve um enfarte do miocárdio e morreu, paz à sua alma. Um século depois de Nietzsche ter decretado a morte de deus, alguém declara o óbito do Pai Natal. Não sei se a filosofia ocidental estará preparada para mais este abalo.
23 novembro 2005
Ando a ouvir tanta música de embalar que este blogue adormeceu. O tempo que gastava a escrever, emprego-o agora a mudar fraldas. Sou um homem moderno, qualquer dia vou aí para as manifestações a reclamar o regresso à velha desigualdade entre os sexos e exigir uma quota de tempo diário para mandar umas larachas. Tiaaaagoooo! Acoooorda! Dá aqui uma mãoziiiinha!
Estamos em estado de reanimação. Por favor incomode o doente.
Estamos em estado de reanimação. Por favor incomode o doente.
01 novembro 2005
O censor prévio

Rui Rio é um democrata, ninguém duvida. Desde que a democracia satisfaça plenamente a sua vontade, é um democrata. Com maioria na câmara, mais democrata se torna, e ganha contornos de déspota iluminado, que decide o que é de interesse público, e sobretudo aquilo que é do seu interesse próprio. Assim, ontem, no Porto, ele mesmo provou como a democracia é uma coisa frágil e como dentro de um político com fama de sério e honesto pode abrigar-se um pequeno ditador.
Da última vez que entrevistei Rui Rio (para a "Sábado"), antes das autárquicas, ele próprio e elementos do seu stafe tentaram evitar que a entrevista fosse publicada. Rio não gostou de ser confrontado com aquilo que Paulo Morais tinha dito numa entrevista anterior à Visão, não gostou de ser confrontado com algumas das suas contradições, não gostou que a entrevista não tivesse sido aquilo que ele desejaria que fosse. Mas uma entrevista é uma entrevista, não é um tempo de antena.
É pena que ele não compreenda que os titulares de cargos públicos, por melhores intenções que guardem, devem ser confrontados com as suas acções, palavras, intenções. Devem esclarecer, ser claros, e perceber que os jornalistas não devem resignar-se quando os políticos não querem responder às perguntas incómodas. A nossa função é inquirir, duvidar, querer saber mais e garantir que as respostas são reproduzidas tal como foram dadas.
Mas ontem Rui Rio anunciou estas fabulosas e democráticas regras, numa declaração pública, que pode ser consultada no site da SIC:
- ”restringir o seu relacionamento [da Câmara] com os media exclusivamente às matérias de inegável interesse público e evitar todas as que visem objectivos de interesse privado, corporativo ou editorial”;
- ”fazer depender qualquer declaração para a comunicação social sobre matérias do Executivo, de prévio contacto do jornalista com o Gabinete de Comunicação da Câmara”;
- ”acordar com a imprensa apenas entrevistas por escrito, mediante critérios de oportunidade, com regras previamente definidas, evitando ou minimizando assim interpretações especulativas, ou a pura manipulação das respostas”;
- ”o Gabinete de Comunicação da Câmara recorrerá, preferencialmente, à mensagem escrita, através de publicação no site oficial da Câmara e de difusão pelos media”.
28 outubro 2005
Lisboa-Porto num shot
27 outubro 2005
Recordando...

Com Cavaco a concorrer, agora discute-se a presidencialização do regime. Tem piada, porque em 2001, como Sampaio era pouco interventivo, o debate análogo sobre os poderes presidenciais era sobre se o Presidente da República devia ser eleito por sufrágio universal ou por via indirecta. Ele há coisas neste país que mudam com uma facilidade... e ninguém se lembra?
25 outubro 2005
Coincidências
Os ex-PRD Carlos Beato (presidente da câmara de Grândola eleito pelo PS) e Pedro Cannavarro, que foi presidente do defunto partido renovador (para não falar em Ramalho Eanes), apoiam Cavaco Silva. Lembram-se qual foi o partido que, em 1987, apresentou uma moção de censura para derrubar o Governo minoritário do PSD? Sim, foi o PRD. E logo a seguir Cavaco teve a primeira maioria absoluta...
24 outubro 2005
Lembrando, comparando...

"Convocaria eleições no momento em que estivessem esgotadas as hipóteses de obtenção do necessário apoio parlamentar à constituição de um governo. Contraria a minha experiência para avaliar as condições de governabilidade", disse Cavaco Silva, na 1ª campanha presidencial: DN - 11 de Janeiro de 1996.Lembremo-nos de que Guterres não tinha maioria absoluta.
"Eu sou um defensor da estabilidade política. Não se conseguem ultrapassar as dificuldades sem estabilidade. [A dissolução] Só deve ser utilizada em situações muito extraordinárias", disse Cavaco Silva, na apresentação da campanha presidencial II: 20 de Outubro de 2005. Ligeiramente diferente da opinião da década anterior. Para não assustar os socialistas nem os sociais-democratas traumatizados.
"O senhor [dirigindo-se a Jorge Sampaio], não esteve na Alameda politicamete. E sempre esteve nos antípodas de Mário Soares", disse Cavaco Silva, na 1ª campanha presidencial, no debate com Jorge Sampaio e Jerónimo de Sousa na Prova Oral da RTP, a 15 de Dezembro de 1995. Tecerá hoje louvores a Jorge Sampaio para atacar Mário Soares? Ficamos à espera, porque a política tem coisas destas.
"[O Rendimento Mínimo Garantido] gera muitos problemas: desincentiva a procura de trabalho, requer mecanismos administrativos complexos para o seu controlo, dá origem a grandes fraudes e provoca injustiças. Não resolve os problemas da pobreza", disse Cavaco Silva, na 1ª campanha presidencial à Revista do Expresso, 12 de Janeiro de 1996. Manterá a mesma opinião agora?
"Com o poder todo concentrado num só quadrante ideológico, não vejo nada um futuro cor-de-rosa (...). Com tudo cor-de-rosa não antecipo nada de bom para Portugal", disse Cavaco Silva, na 1ª campanha presidencial na mesma entrevista à Revista do Expresso, em 12 de Janeiro de 1996, a dois dias das eleições. Poderá hoje dizer a mesma coisa, quando ainda há mais poder concentrado nas mãos dos socialistas? É claro que não voltará a usar este argumento.
Dez anos é muito tempo...
20 outubro 2005
Adivinhando

Hoje, dentro de uma das suas obras emblemáticas e à hora dos telejornias, Aníbal Cavaco Silva vai dizer que é candidato a Presidente da República.
1 - A sua declaração será curta e incisiva, ao contrário da de Mário Soares que foi longa, fastidiosa, e vazia de conteúdo;
2 - Não vai ter a sala cheia de convidados, mas sim de jornalistas, para evitar colagens excessivas a partidos (ao PSD) e Marques Mendes não deverá lá estar; Mário Soares tinha a sua sala no Altis cheia de notáveis e de gente do PS para mostrar que tinha uma data de apoios;
3 - Vai responder a perguntas dos jornalistas para mostrar que não é aquela figura fechada e antipática de outros tempos, ao contrário de Soares que não quis ser questionado a seguir à sua apresentação (e que toda a vida falou aos jornalistas);
4 - Para já, não fará grandes avisos à navegação socialista e até há-de elogiar o esforço de contenção deste Orçamento do Estado, para não hostilizar os socialistas;
5 - Voltará a apresentar-se como homem providencial que regressa com sacrifício da sua vida pessoal para endireitar as coisas (aliás, tal como Soares);
Quem há 10 ano pensou que o Acabado Silva estava mesmo acabado...
15 outubro 2005
Arquitecto no saco

Meteram o arquitecto no saco. Que será dos meus sábados, a partir de agora, sem aquelas ironias tão finas que quando estão de frente parece que estão de lado e é preciso explicá-las na semana a seguir? Em que sacos hei-de procurar agora prosas saraivadas? Heeelp! Preciso da minha dose semanal de Saraiva.
13 outubro 2005
Ao largo na Graça

Pode. Tire lá a fotografia. Assim 'tá bem? Deixe-m' ajeitar o boné… E o cigarrinho? Vou dar uma passa no cigarrinho. Ficou bem? Sou aqui da Graça, pois, sou daqui. Agora isto há prá’qui muita gente. É a esplanada há uns dois anos. Dois anos? Se calhar há mais... Já custo a andar. Só com a bengala. E devagar. São os anos. Uma data deles. Bailei muito nesses Sant' Antónios. Agora tod'á gente vem p'ráqui. Acho bem. A malta tem de se divertir, não é? Vou andando devagarinho, assim, 'tá a ver. Visto o fatinho, já tá velho, e dou uma volta, vejo a vista, as camones, até assobio a elas, dou pão aos pombos, bato uma manilha ali no largo, quando calha. Já não posso dar no tinto, mas às vezes vai um gole no branco, eh, eh. É assim. Saudinha da boa!
12 outubro 2005
Arqueologia das palavras

Se a Odisseia é a precursora dos Indiana Jones e demais histórias de aventuras, a Ilíada inaugurou os Apocalipse Now de todos os tempos e demais contos de guerra. O Senhor dos Anéis, porém, mistura tanto aspectos homéricos da Odisseia como da Ilíada. É uma guerra e uma busca, uma ida e um regresso. Mas para lá da narrativa, há detalhes que me impressionam na leitura das traduções de Frederico Lourenço para a Cotovia. Como esta arqueologia das palavas, numa história com três mil anos, em que Nestor fala a Diomedes:
"Pois agora para todos se coloca no fio da navalha".
Ou então, pouco mais adiante:
"Hão-de ficar onde estão [os troianos], afastados das naus, ou hão-de regressar à cidade, uma vez que já deixaram os Aqueus na mó de baixo."
Na "mó de baixo" e no "fio da navalha". Há três milénios que usamos estas expressões e eu não sabia. Na Introdução, o tradutor explica que este é o mais antigo registo da frase "no fio da navalha". E há outras coisas tão parecidas às dos nossos tempos...
Relativismo
Sou um puericultor. Mudo fraldas com chichis e cocós, dou banhinhos relaxantes todas as noites, penso em estratégias de embalo, estudo a semiótica do choro, faço massagens na barriguinha para o piqueno aliviar as dores, acordo ao de leve de noite quando a Carla dá de mamar... Não, não vou escrever sobre as autárquicas. Tanto me faz. E dá-me ideia que a consistência do cocó de ontem seria um tema de conversa mais interessante.
06 outubro 2005

"Há, em Veneza, três lugares mágicos e secretos: um na rua do Amor dos Amigos; um segundo nas proximidades da ponte das maravilhas, e um terceiro na calle dei Marrani, perto de San Geremia, no velho ghetto. Quando os venezianos - por vezes malteses - se cansam das autoridades, dirigem-se a estes lugares e, abrindo as portas ao fundo desses pátios, partem para sempre para países fantásticos e outras histórias". - Fábula de Veneza, Hugo Pratt
Tiago e Joana: já têm aqui a cartografia dos portais fantásticos; se os atravessarem para o outro lado, podem prolongar por mais uma horas este dia especial.
02 outubro 2005
«Para Veneza!», exclamou, repetindo o pedido de Aschenbach e estendendo o braço para mergulhar a pena no líquido pastoso que mal cobria o fundo de um tinteiro inclinado na sua frente. «Uma primeira para Veneza! Aqui tem, cavalheiro!» Rabiscou uns gatafunhos largos, polvilhando-os com uma areia azulada contida numa caixa, que escorreu para uma taça de barro, dobrou o papel com os dedos amarelados e nodosos e escreveu do lado de fora. «Que escolha feliz para a sua viagem!», aventurou entretanto. «Ah! Veneza! Que cidade maravilhosa! É fonte de atracção irresistível para a pessoa instruída, tanto pela sua história como pelos seus encantos de hoje!» A fluência e a rapidez dos seus gestos e as frases vazias com que os acompanhava tinham algo de envolvente e distractivo, como se suspeitasse que o viajante pudesse ainda vacilar na sua decisão de partir para Veneza.
Thomas Mann, Morte em Veneza
(Até p'rá semana.)
Thomas Mann, Morte em Veneza
(Até p'rá semana.)
01 outubro 2005
Washington «Post»
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