É bonito ver quem hoje ainda olhe para estas coisas da política com romantismo. O proto-candidato presidencial Manuel Alegre lança espinhos em redor, qual D. Quixote de rosa em punho a caminho de Belém. Sem o sentido da amizade, diz ele, pensando em Soares, "corre-se o risco de se perder a alma ou o próprio sentido da política".
A ideia de se ter alma ou de se ser um desalmado é interessante na boca de um socialista que fala de um suposto amigo.
Proclama ainda Alegre, pensando em Soares mas também em Cavaco, que "não há salvadores da pátria nem homens providenciais". Pois não. Por acaso já tínhamos reparado: ninguém tem salvo a pátria nos últimos tempos, antes pelo contrário; e todos os homens que Providência nos legou se revelaram um desastre.
Afinal quem é Alegre? Nem salvador nem enviado pela Providência, é o poeta irredutível no seu quadrado que traz a alma à política. É bonito, mas não se percebe muito bem para que serve.
Devemos à conjunção de um espelho e de uma enciclopédia a descoberta deste mundo. Por Vítor Matos e Tiago Araújo
18 agosto 2005
14 agosto 2005
Um mês
Nos últimos dias o Miguel tem-se esticado muito, já lhe falta o espaço. Mexe-se, soluça, espeta os pés no diafragma da Carla. Às vezes sossega quando pomos os auscultadores na barriga e um disco de Vivaldi no leitor. Outras vezes mexe-se ao som da música, mas com mais suavidade. Imagino como será ouvir uma sinfonia dentro de uma piscina aquecida. Falta um mês.
12 agosto 2005
OTArios (adenda)
Afinal, há artigos de opinião de ministros que revelam mais sobre os seus autores do que sobre as políticas do Governo. A argumentação baixa de Mário Lino ontem, no Diário Económico, e a tentativa de iludir - com omissões - aqueles que mais não fazem do que pedir responsabilidades ao Governo, mostra a qualidade da gente que nos governa. (ler o editorial de José Manuel Fernandes, no Público - sem link)
Decoro
Obrigatório apreciar a fina ironia do artigo de Sérgio Figueiredo, no Jornal de Negócios de hoje, sobre o "Haja de Decoro!" com que Mário Lino, ministro das Obras Públicas, pontuou o seu texto de opinião que ontem foi manchete no Diário Económico. (ainda não há link)
OTArios
Ser contra ou a favor da Ota ou do TGV pode revelar o partidarismo de alguém, mas pouco ou nada diz do que pensa politicamente. Podem discutir-se os pressupostos da decisão do Governo: se está bem fundamentada, quais serão as consequências para os cidadãos, para as contas públicas, etc. Se a política se resume a discutir sim ou não à Ota, então mais vale contratar uma consultora internacional e pôr os seus diligentes colaboradores em S. Bento, a tomarem decisões racionais, fazendo tempos de antena explicativos na TV em Power Point. Aos políticos exige-se mais do que esse positivismo: que tenham por detrás um conjunto de valores perceptíveis que justifiquem ser contra ou a favor das Otas e dos TGV. Mas isso não se vê nem no PS nem no PSD: desde os ministros que escrevem artigos a explicar essas opções e que nem nesses artigos as conseguem justificar, aos detractores que se ficam pela argumentação instrumental, tudo não passa de mero tacticismo.
11 agosto 2005
Entrevista com o Diabo
Quando entrei no elevador o Diabo já lá estava. Fingi que não dei por ele, apesar dos cornos vermelhos, do tridente, da cara toda encarnada, queimada das temperaturas infernais, e pior: tinha um ar normal o que, como todos sabemos, é o maior truque usado para nos enganar. O Demónio parecia fazer de conta que era um dos executivos do outro andar. Mas não: eu ia carregar no botão do sexto andar, mas a luz já estava acesa. Hesitei. Nunca tinha encontrado um anjo. E ia partilhar um metro quadrado com o Diabo. Serei eu Fausto, pensei? Vai querer comprar-me a alma, mas desta vez o jackpot do Euromilhões é só de 25 milhões, e isso não compensa. Vai simular uma queda do elevador - como aliás costuma acontecer a péssimos ascensores que passam a vida a cair para o piso menos cinco - e entretanto corromper-me para o resto da vida? Não. Ele há Diabos bons, ou tão só pobres Diabos. Saiu antes de mim. Dei-lhe passagem, sou um cavalheiro. E perguntou ao pessoal que estava na máquina do café: "O Miguel está? Tenho isto para lhe entregar." E estendeu a mão com o novo detergente de sanita da Sonasol, "para acabar com o cheiro infernal". O pessoal riu. "E você tem de se vestir assim só para entregar isto?" Ele há gente que para ganhar a vida já faz o que for preciso.
10 agosto 2005
Lisboa entre as 7 e as 8
Ao amanhecer no Miradouro de S. Pedro de Alcântara viam-se as colinas da cidade morraçadas de humidade e de luz. Lisboa é transparente ao sol e opaca à sombra.
No Príncipe Real, já para os lados de S. Bento, há uma ervanária que dá pelo nome de Sô Zé, que tem uns azulejos com o número 666 por cima da porta. Ora Sô Zé, ao que sabemos, é o nome de um bruxo que já foi José Esteves, antigo bombista nos anos quentes e que guarda um segredo sobre Camarate....
Na Rua António Maria Cardoso, um vagabundo dava pontapés nas coisas e gritava makeké!, makeké!, pensam que isto é tudo deles!.
Um pouco mais abaixo, as obras na antiga sede da PIDE estão avançadas na direcção de um empreendimento de luxo. Uma parte do terceiro andar onde ficavam os presos políticos já foi abaixo. Um país sem memória não é uma nação. Makeké!
No Príncipe Real, já para os lados de S. Bento, há uma ervanária que dá pelo nome de Sô Zé, que tem uns azulejos com o número 666 por cima da porta. Ora Sô Zé, ao que sabemos, é o nome de um bruxo que já foi José Esteves, antigo bombista nos anos quentes e que guarda um segredo sobre Camarate....
Na Rua António Maria Cardoso, um vagabundo dava pontapés nas coisas e gritava makeké!, makeké!, pensam que isto é tudo deles!.
Um pouco mais abaixo, as obras na antiga sede da PIDE estão avançadas na direcção de um empreendimento de luxo. Uma parte do terceiro andar onde ficavam os presos políticos já foi abaixo. Um país sem memória não é uma nação. Makeké!
09 agosto 2005
Contradição maciça
Yellowcake não é uma sobremesa de limão. Ontem os iranianos, à vista de toda a gente, deitaram um barril de pó de urânio nos centrifugadores da fábrica de Ispahan, para produzirem urânio enriquecido, o que possivelmente um dia lhes permitirá ter "a bomba". A administração dos EUA, ao que parece, concorda com um recurso para as Nações Unidas. Os falcões que tiveram de inventar provas para invadir o Iraque estão subitamente umas pombinhas brancas de raminho de oliveira no bico. É bonito...
05 agosto 2005
Contributo para uma referência a PSL
Ele disse ao Expresso ser o político português com mais hits no Goolgle. Todos os dias, pela manhã, Pedro Santana Lopes faz esta pergunta ao seu computador:
"Google meu, google meu, existe algum político português com mais referências na Internet do que eu?"
"Não, mas cuidado, meu lindo, porque as referências são muitas mas nem todas são boas, nem nos blogues de direita... Agora há outro primeiro-ministro, jovem, belo e grisalho, chamam-lhe cabeça branca de neve, e só ele poderá destronar-te, tal é o caminho que as coisas levam", responder-lhe-ia o computador...
"Google meu, google meu, existe algum político português com mais referências na Internet do que eu?"
"Não, mas cuidado, meu lindo, porque as referências são muitas mas nem todas são boas, nem nos blogues de direita... Agora há outro primeiro-ministro, jovem, belo e grisalho, chamam-lhe cabeça branca de neve, e só ele poderá destronar-te, tal é o caminho que as coisas levam", responder-lhe-ia o computador...
Ar condicionado
Como a ventoinha perde utilidade a mais de 35º, fomos à procura de uma sala com ar condicionado para passarmos algumas horas da noite mais quente do ano. Encontrámos uma que estava a passar o Faces de John Cassavetes. Já se devem ter escrito muitas crónicas sobre o filme, por isso escrevo apenas sobre o que me pareceu mais surpreendente: as mudanças inesperadas de humor em pessoas que tentam voltar a ser felizes nas suas vidas convencionais e condicionadas. Estamos de volta à ventoinha.
03 agosto 2005
31 julho 2005
Escala de Glasgow
Percebemos que o verão está a ser anormalmente seco quando um dos nossos cactos entra em coma e definha. Só não consigo avaliar a gravidade da situação porque é difícil tentar aplicar a Escala de Glasgow a uma planta. Embora já anteriormente parecesse estar em estado vegetativo, sempre atribui esse facto a uma personalidade introspectiva e a leituras de Schopenhauer nos tempos de juventude na estufa.
Voltando a Alfred Jarry, o escritor francês precursor dos surrealistas, diz-se que gostava de contrariar os costumes burgueses e por isso comia muitas vezes a refeição por ordem inversa, começando pela sobremesa, e usava uma camisa feita de papel onde desenhava uma gravata. Este último aspecto parece-me, nesta fase da vida, bastante interessante. A função social da gravata como alicerce da sociedade Ocidental ainda é algo que me custa a aceitar. Infelizmente, nunca tive jeito para o desenho.
Conta Arthur I. Miller (Einstein, Picasso. Space, Time and the Beauty that Causes Havoc) que, sob influência de Alfred Jarry, Pablo Picasso passou a usar um revólver Browning com cartuchos de pólvora seca, que disparava na direcção de admiradores que o inquiriam sobre o significado dos seus quadros, da sua teoria estética, ou de pessoas que simplesmente o aborreciam. O meu lado pacifista não gosta do conceito. O meu lado de animador cultural acha que faria maravilhas pelo Chiado.
«9 Songs», Michael Winterbottom
Há filmes que é desconfortável ver numa sala de cinema lotada. Especialmente se durante uma cena explícita de sexo oral temos de um lado um senhor de 50 anos com ar de quem se enganou no filme e do outro um casal que veio só pela música. A impressão geral é a de que algumas cenas foram filmadas apenas para chocar e de que há filmes pornográficos com enredo mais elaborado. As letras das canções contam a história que os actores estão demasiado ocupados para contar e há boas imagens da Antártida. No final, ficaram mais pessoas a ler os créditos finais do que é habitual.
29 julho 2005
Chuva na areia do deserto
Entre informação realmente importante, um artigo da revista Ler refere que existiu uma cidade no norte do Egipto devotada ao culto do falo do corpo desmembrado do deus Osíris, nunca encontrado por Ísis. Há muitas cidades antigas soterradas pela areia dos desertos e das praias, mas não conheço muitas com estas características. O Egipto tem Per-Medjed, Portugal tem Tróia e o falo perdido do Caniço.
(Também seria interessante saber se se faziam procissões no Antigo Egipto e quem é que carregava o andor, mas não me parece que o problema esteja entre as prioridades da comunidade arqueológica.)
(Também seria interessante saber se se faziam procissões no Antigo Egipto e quem é que carregava o andor, mas não me parece que o problema esteja entre as prioridades da comunidade arqueológica.)
28 julho 2005
Soares e Cavaco: uma história
O primeiro encontro político entre os dois homens correu mal: começou com um toque humorístico de gosto duvidoso e acabou num acesso de fúria de Mário Soares, que Cavaco Silva nunca esqueceu. No dia 24 de Maio de 1985, o professor recém-eleito líder do PSD, entrou na sede do PS, na Rua da Emenda, a desviar-se de vasos de flores e arbustos colocados estrategicamente para lhe dificultar a passagem. Era uma brincadeira dos socialistas, por Cavaco Silva ter dito aos jornalistas que aquela ia ser uma reunião de trabalho sobre o futuro da coligação PS/PSD, e não uma “cimeira de flores”. Apesar de ter ficado conhecida exactamente como a “cimeira das flores”, a reunião foi um passo para a queda do Governo do Bloco Central. Durante a conversa, em vez de usar da sua habitual bonomia, o secretário-geral socialista encolerizou-se, falou alto, perdeu as estribeiras… Claramente, Soares subestimou Cavaco, como voltou a fazer de outras vezes. Não se adivinha o futuro.
Mais tarde, no segundo livro das entrevistas a Maria João Avillez, Mário Soares chegou a reconhecer que foi “totalmente desagradável” para com Cavaco naquela reunião. “ A questão das flores foi apenas um simples toque de humor em resposta a uma alusão que Cavaco fez”, justificou Soares à jornalista. E descreveu-o: “Mas o professor, nessa altura, apresentava-se muito rígido e contraído – ao dar os primeiros passos na grande política e não aparentava grande sentido de humor”. Aliás, nunca o teve.
Mas não havia razões para rir, naquela época. E a conversa deve ter sido tão feia que o próprio Cavaco Silva recorda este episódio sempre que descreve os momentos de maior tensão vividos com Mário Soares ao longo dos 10 anos de coabitação. A propósito de um desentendimento ocorrido em 1991 – por causa dos acordos de paz para Angola -, Cavaco descreveu assim, no segundo volume da sua Autobiografia Política, outro ataque de cólera de Soares: “A minha argumentação de que deveria ser eu a fazê-lo [a presidir ao acto de assinatura dos acordos entre José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi], como chefe do Governo, não só não o convenceu como o irritou profundamente. Levantou a voz, zangadíssimo e ameaçador e quase não me deixou falar. Era uma táctica que utilizava quando queria impor os seus pontos de vista ao interlocutor, e que eu conhecera a primeira vez na célebre cimeira das flores (…). Descarregou sobre mim a sua fúria e voltou a avisar-me para ter cuidado”. De cada vez que Soares fazia uma cena, Cavaco punha “uma cara séria”. Respondia-lhe como diz ter feito da primeira vez que se desentenderam enquanto Presidente da República e primeiro-ministro. Nas suas memórias, Cavaco conta que mantinha a fleuma: “Delicadamente, mas com firmeza, disse-lhe que não valia a pena falar alto porque eu ouvia bem, que não era por isso que me convencia e que eu não saía dali sem lhe expor os meus argumentos”.
Soares e Cavaco tiveram 310 reuniões semanais a sós, habitualmente às cinco da tarde, no Palácio de Belém, durante 10 anos de convivência mais ou menos forçada. Portanto, os dois homens que devem confrontar-se em Janeiro conhecem-se bem, apesar das desconfianças mútuas. “Em geral, [Mário Soares] apresentava-se nas nossas reuniões com o ar afável e simpático que fazia e faz parte do seu estilo político”, conta Cavaco na Autobiografia. Antes de começar a expor os assuntos em agenda, o professor “observava o Presidente para tentar descortinar a sua boa ou má disposição”. Na entrevista a Maria João Avillez, Soares contradiz o ex-primeiro-ministro: “Nunca levantámos a voz”. E classifica as suas relações com Cavaco como “cordiais, embora talvez um pouco distantes e – digamos – impessoais”.
Andaram quase sempre de candeias às avessas. Sobretudo na segunda maioria absoluta do PSD (1991-1995). Soares fartou-se de vetar diplomas de Cavaco, sem o avisar previamente nas reuniões semanais; mas Cavaco também decidiu apoiar a recandidatura de Soares a Belém (em 1990/91) sem antes o informar; Soares abria as portas do Palácio de Belém a todos os críticos do Governo do PSD e promovia Presidências Abertas devastadoras para o Governo; e Cavaco incluía-o naquilo a que chamava “forças de bloqueio”; já no fim do cavaquismo, o Presidente chegou a ponderar a dissolução da maioria do PSD no Parlamento e a convocação eleições antecipadas, ao mesmo tempo que patrocinava o congresso "Portugal que Futuro!"; quase em simultâneo, o primeiro-ministro ironizava que era preciso ajudar Soares a acabar o mandato com dignidade.
Geralmente, em momentos de discórdia, o Presidente soltava umas ameaças veladas ao primeiro-ministro. “Olhe que a sua posição vai voltar-se contra si”, avisava. A desconfiança era mútua e durou uma década. É muito tempo.
A campanha das presidenciais promete.
Mais tarde, no segundo livro das entrevistas a Maria João Avillez, Mário Soares chegou a reconhecer que foi “totalmente desagradável” para com Cavaco naquela reunião. “ A questão das flores foi apenas um simples toque de humor em resposta a uma alusão que Cavaco fez”, justificou Soares à jornalista. E descreveu-o: “Mas o professor, nessa altura, apresentava-se muito rígido e contraído – ao dar os primeiros passos na grande política e não aparentava grande sentido de humor”. Aliás, nunca o teve.
Mas não havia razões para rir, naquela época. E a conversa deve ter sido tão feia que o próprio Cavaco Silva recorda este episódio sempre que descreve os momentos de maior tensão vividos com Mário Soares ao longo dos 10 anos de coabitação. A propósito de um desentendimento ocorrido em 1991 – por causa dos acordos de paz para Angola -, Cavaco descreveu assim, no segundo volume da sua Autobiografia Política, outro ataque de cólera de Soares: “A minha argumentação de que deveria ser eu a fazê-lo [a presidir ao acto de assinatura dos acordos entre José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi], como chefe do Governo, não só não o convenceu como o irritou profundamente. Levantou a voz, zangadíssimo e ameaçador e quase não me deixou falar. Era uma táctica que utilizava quando queria impor os seus pontos de vista ao interlocutor, e que eu conhecera a primeira vez na célebre cimeira das flores (…). Descarregou sobre mim a sua fúria e voltou a avisar-me para ter cuidado”. De cada vez que Soares fazia uma cena, Cavaco punha “uma cara séria”. Respondia-lhe como diz ter feito da primeira vez que se desentenderam enquanto Presidente da República e primeiro-ministro. Nas suas memórias, Cavaco conta que mantinha a fleuma: “Delicadamente, mas com firmeza, disse-lhe que não valia a pena falar alto porque eu ouvia bem, que não era por isso que me convencia e que eu não saía dali sem lhe expor os meus argumentos”.
Soares e Cavaco tiveram 310 reuniões semanais a sós, habitualmente às cinco da tarde, no Palácio de Belém, durante 10 anos de convivência mais ou menos forçada. Portanto, os dois homens que devem confrontar-se em Janeiro conhecem-se bem, apesar das desconfianças mútuas. “Em geral, [Mário Soares] apresentava-se nas nossas reuniões com o ar afável e simpático que fazia e faz parte do seu estilo político”, conta Cavaco na Autobiografia. Antes de começar a expor os assuntos em agenda, o professor “observava o Presidente para tentar descortinar a sua boa ou má disposição”. Na entrevista a Maria João Avillez, Soares contradiz o ex-primeiro-ministro: “Nunca levantámos a voz”. E classifica as suas relações com Cavaco como “cordiais, embora talvez um pouco distantes e – digamos – impessoais”.
Andaram quase sempre de candeias às avessas. Sobretudo na segunda maioria absoluta do PSD (1991-1995). Soares fartou-se de vetar diplomas de Cavaco, sem o avisar previamente nas reuniões semanais; mas Cavaco também decidiu apoiar a recandidatura de Soares a Belém (em 1990/91) sem antes o informar; Soares abria as portas do Palácio de Belém a todos os críticos do Governo do PSD e promovia Presidências Abertas devastadoras para o Governo; e Cavaco incluía-o naquilo a que chamava “forças de bloqueio”; já no fim do cavaquismo, o Presidente chegou a ponderar a dissolução da maioria do PSD no Parlamento e a convocação eleições antecipadas, ao mesmo tempo que patrocinava o congresso "Portugal que Futuro!"; quase em simultâneo, o primeiro-ministro ironizava que era preciso ajudar Soares a acabar o mandato com dignidade.
Geralmente, em momentos de discórdia, o Presidente soltava umas ameaças veladas ao primeiro-ministro. “Olhe que a sua posição vai voltar-se contra si”, avisava. A desconfiança era mútua e durou uma década. É muito tempo.
A campanha das presidenciais promete.
27 julho 2005
Como Deus dispõe deste laico...
Em 1997, Mário Soares deu a resposta que se segue a Maria João Avillez (no 3º volume das entrevistas - O Presidente), que lhe perguntou se ele tinha pensado em não recandidatar-se a um segundo mandato em Belém:
«Como o primeiro mandato correu francamente bem, pensava não ter qualquer interesse pessoal em renovar a experiência.
Depois, 10 anos é um longo período. Para o que pensava fazer depois de ser presidente com algumas legítimas ambições intelectuais que me falta concretizar e ainda outros projectos, considerava que abandonar a vida política com 66 anos era, para mim, o mais indicado, ficando com algum tempo para o que imagino ter ainda que fazer: escrever, reflectir, agir no plano cultural e cívico, sem responsabilidades político-partidárias ou de Governo; viajar, conviver com pessoas interessantes, transmitir experiência que adquiri em termos de poder ser comunicado aos outros. Mas o homem põe – como diz o Povo – e Deus dispõe…
Felizmente que a Constituição não permite um terceiro mandato – sábia disposição legal!»
(ver pág. 210)
Se a Constituição é tão sábia, haverá quem seja menos avisado...
«Como o primeiro mandato correu francamente bem, pensava não ter qualquer interesse pessoal em renovar a experiência.
Depois, 10 anos é um longo período. Para o que pensava fazer depois de ser presidente com algumas legítimas ambições intelectuais que me falta concretizar e ainda outros projectos, considerava que abandonar a vida política com 66 anos era, para mim, o mais indicado, ficando com algum tempo para o que imagino ter ainda que fazer: escrever, reflectir, agir no plano cultural e cívico, sem responsabilidades político-partidárias ou de Governo; viajar, conviver com pessoas interessantes, transmitir experiência que adquiri em termos de poder ser comunicado aos outros. Mas o homem põe – como diz o Povo – e Deus dispõe…
Felizmente que a Constituição não permite um terceiro mandato – sábia disposição legal!»
(ver pág. 210)
Se a Constituição é tão sábia, haverá quem seja menos avisado...
26 julho 2005
O engodo
Com esta conversa de Mário Soares à Presidência (MASP III), acabou-se a discussão sobre a demissão do ministro de Estado e das Finanças e sobre a crise em Portugal. Já tinham reparado, não?
25 julho 2005
A loucura do geronte
No mês seguinte [em Maio, Mário Soares] voltou à carga para garantir que apoiaria Alegre se ele fosse candidato e recusou a sua própria candidatura "Nem numa situação-limite." Soares explicou, há dois meses, que a sua candidatura "seria uma loucura" porque "a vida política tem de se renovar e não pode estar sempre ligada às mesmas pessoas". DN de hoje.
Nem mais.
Nem mais.
19 julho 2005
«[E]m tempos li muitos livros, hoje raramente leio. os livros cansaram-me, devoraram-me a pouco e pouco o prazer de ler.» Durante os últimos anos revi-me neste verso do Al Berto. Ou pelo menos na última parte, porque o ritmo de leitura não diminuiu, aumentou. Mas, lidos vários ao mesmo tempo ou com a urgência de não poder perder tempo a não ler, muitos sabiam apenas a papel. Não sei qual foi o livro que me curou ou se os livros são a cura para alguma coisa. Sei que uma vez restabelecido da minha moléstia aproveitei para ler alguns livros adiados. Nunca mais voltarei ao prazer das tardes de leitura no meu quarto suburbano ou das férias grandes transmontanas, mas estou bastante próximo. Para testar a minha condição decidi ler um livro que a generalidade dos meus amigos me aconselhou a não ler, A Sibila da Agustina Bessa Luís. Corri o risco de uma recaída em plena convalescença, mas cheguei à última página. Reconheço o génio, a densidade das personagens, o conhecimento da natureza humana e das relações humanas, a utilização ampla do vocabulário da língua. Mas não é o meu tipo de história.
Momento Raul Brandão
As manhãs da praia de Espinho, no Verão, parecem-se com as das corridas para reclamar terras do antigo Oeste. As pessoas vão chegando e reclamando a sua parcela de areia com os marcadores geométricos dos tapa-ventos. Criam quintais ou hortas provisórios com estacas que mantêm os panos grossos e coloridos esticados, preparados para o vento que não sopra. A paisagem parece uma versão pós-moderna do emparcelamento de terras transmontano de muros de pedra a separarem leiras verdes. A posse caduca com o dia.
Depois da sabática
Agora que já consigo fazer o nó da gravata em menos de cinco tentativas sobra-me finalmente tempo para escrever alguns textos. Mas não muito longos que ainda tenho de aprender a passar o vinco das calças.
O senhor dez por cento
Do alto do seu pobre vencimento, não tendo problemas em ficar sem aquela parte que lhe paga o clube de golfe, mais os serviços do caddy, o presidente do BPI, Fernando Ulrich, defende que os portugueses deviam aceitar prescindir de 10% dos seus salários. Isto é que é um incentivo, hã. Ganda homem, a apelar à coragem do povo e ao sacrifício pela nação. O sacrifício como ideal de vida. Terá lido Nietzsche? Valha-nos estes, que dão o exemplo... Olha: Toma!
18 julho 2005
Zero e absoluto
Six Feet Under terminou agora mesmo na 2:, com um morto a recomendar a um vivo aquilo de que devíamos lembrar-nos todas as manhãs ao olharmos a imagem devolvida no espelho: estás vivo, por isso tens toda a liberdade.
Entre o zero e o absoluto, há nada. Deste lado, onde tudo pode acontecer, convém que coisa alguma seja vista como uma fatalidade. O destino só existe quando resta o escuro, o silêncio e o apagamento eterno. De resto, até ao dia zero, todas as possiblidades são infinitas.
Entre o zero e o absoluto, há nada. Deste lado, onde tudo pode acontecer, convém que coisa alguma seja vista como uma fatalidade. O destino só existe quando resta o escuro, o silêncio e o apagamento eterno. De resto, até ao dia zero, todas as possiblidades são infinitas.
17 julho 2005
Cabriolices
Estes país está preso por arames. Quando em 2006 o crescimento das exportações e parte da economia estão dependentes do Cabrio, um novo modelo produzido na AutoEuropa, percebemos a fragilidade deste país liliputiano. O ICEP devia fazer um anúncio por todo o mundo, assim do género: Compre o Cabrio. Apanhar vento na moleirinha faz bem. Por tugal precisa de si!
16 julho 2005
Gentis e perigosos
"Ele era um homem realmente gentil, ensinava miúdos realmente mauzinhos e todos gostavam dele", disse uma das crianças de Hillside ao Guardian. Um dos pais, falando à BBC à porta da escola de Hillside, disse que Khan "era um bom homem". "Quando contei à minha filha que ele era um dos bombistas ela não acreditou. Tive de comprar um jornal e mostrar-lhe". in Público de sexta-feira, dia 15 de Julho. Depoimento sobre um dos bombistas londrinos
Já vi gente indignada com estas descrições sobre os terroristas, mas o problema não é novo. Ouvi um colega a argumentar que estes filhos da puta são filhos da puta sobre os quais todos se deviam recusar a fazer descrições simpáticas. Mas temo que as coisas sejam um pouco mais complicadas. Aqueles que praticam o mal contemporâneo, mesmo o mal mais profundo, não andam por aí como demónios, de chifres e cauda. Antes pelo contrário.
O livro Eichmann em Jerusalém, de Arendt coloca o mesmo problema, entre o mal e a malícia, embora no caso dos terroristas islâmicos a questão da intencionalidade seja bastante clara. Depois de analisado por um grupo de psicólogos e psiquiatras, Eichmann, um dos arquitectos das Solução Final, foi considerado absolutamete normal, assustadoramente normal, um pai de família comum. Isto é que é assustador.
Arendt entendia o tribunal se devia ter dirigido a Eichmann assim:
"Estamos apenas preocupados com o que você fez, e não com a possível natureza não criminosa da sua vida interior e dos seus motivos, ou com as potencialidades criminosas dos que o rodearam".
Há muito tempo que devíamos saber que homens gentis são capazes das maiores barbaridades.
Já vi gente indignada com estas descrições sobre os terroristas, mas o problema não é novo. Ouvi um colega a argumentar que estes filhos da puta são filhos da puta sobre os quais todos se deviam recusar a fazer descrições simpáticas. Mas temo que as coisas sejam um pouco mais complicadas. Aqueles que praticam o mal contemporâneo, mesmo o mal mais profundo, não andam por aí como demónios, de chifres e cauda. Antes pelo contrário.
O livro Eichmann em Jerusalém, de Arendt coloca o mesmo problema, entre o mal e a malícia, embora no caso dos terroristas islâmicos a questão da intencionalidade seja bastante clara. Depois de analisado por um grupo de psicólogos e psiquiatras, Eichmann, um dos arquitectos das Solução Final, foi considerado absolutamete normal, assustadoramente normal, um pai de família comum. Isto é que é assustador.
Arendt entendia o tribunal se devia ter dirigido a Eichmann assim:
"Estamos apenas preocupados com o que você fez, e não com a possível natureza não criminosa da sua vida interior e dos seus motivos, ou com as potencialidades criminosas dos que o rodearam".
Há muito tempo que devíamos saber que homens gentis são capazes das maiores barbaridades.
13 julho 2005
Terrorismo em Portugal
"Portugal contabiliza 479 militares mortos no Iraque só nos últimos seis meses"
ou
"Ataque terrorista provoca 479 mortos em Lisboa"
Imaginemos que um destes dois títulos fazia manchete nos jornais portugueses. Conseguimos imaginar as discussões que haviam de seguir-se, toda a barafunda de opiniões, análises, medidas do Governo, protestos e manifestações, emissões em directo, emissões especiais, a nossa vida quotidiana em suspenso...
A citação que se segue é a verdadeira:
"Entre 1 de janeiro e 12 de Julho de 2005, morreram nas estradas portuguesas 479 pessoas".
A frase faz parte de um texto notável do Hugo Gonçalves na revista Atlântico, com o título "Relatório de um acidente", onde uma mãe fala de um filho que morreu num acidente de automóvel. Li o texto ontem, e consternou-me.
Hoje, a minha consternação disparou. O meu pai telefonou-me e deu-me a noticía. A noite passada, em Grândola, mais um acidente, choque frontal, três mortos, dois feridos, um deles grave. Eu conhecia-os a todos. Tanto ao bêbado que saiu fora de mão, como aos outros que iam sossegadamente na sua viagem. São mais três, a juntar a todos os casos que testemunhei, todos em Grândola, os da minha família, os meus amigos, os meus conhecidos...
Este terrorismo silencioso devia revoltar-nos. Mas nada acontece. Esta vergonha devia pesar na consciência da nação, como se todas as catástrofes que sobre nós se abatem fossem culpa nossa enquanto não resolvêssemos esta doença civilizacional.
Este terrorismo negligente explode todos os dias. Nenhum Governo teve a coragem de impor o grau zero de alcoolémia ao volante. Em 2001, Guterres quis baixar o limite de 0,5 e recuou, na mais clara demonstração de fraqueza de um Governo. Uma infâmia. Vende-se álcool nas bombas de gasolina. Tudo se tolera. A morte tolera-se. Em Portugal, quando se circula devagar é por medo da multa, não por medo da morte. Pode-se apoiar a invasão do Iraque, tomar medidas anti-terroristas, dar meios aos serviços de informações, falar até a exaustão sobre isto tudo, os pobres nos países pobres revoltados contra os ricos nos países ricos, mas fecha-se os olhos ao que se passa debaixo do nosso nariz.
É estranho. O combate à sinistralidade devia estar à frente da luta contra o défice. Nem deputados nem Governos assumem esta bandeira. Por quê?
Só mais esta frase da Atlântico: "Segundo um estudo da Universidade Nova de Lisboa, mais de metade dos condenados por homicídio por negligência, em casos de desastres de automóvel, continuam a conduzir. Em 2001, 51 por cento dos crimes contra a vida humana forma cometidos em acidentes de viação".
Os bárbaros acham sempre que são civilizados.
12 julho 2005
Mais uma resposta provável
"[Gijs] de Vries [o senhor terrorismo da UE] não é responsável por uma CIA europeia, não tem agentes no terreno. Antes cumpre o papel de observador atento às ameaçs terroristas que pesam sobre a Europa. (...)
A UE carece, de facto, de uma agência de segurança europeia credível, dotada de um corpo de análise e de operações. E porquê? Porque a União é, hoje, uma área política e economicamente integrada. O espaço Schengen permite que os cidadãos viajem sem passaporte e as deslocações para zonas da UE exteriores a Schengen foram, igualmente simplificadas. Aliás, seria absurdo implementar padrões de segurança ou sistemas nacionais distintos para proteger as fronteiras externas da UE."
Excerto de um texto de Wolfgang Munchau, colunista do Financial Times, publicado hoje no Diário Económico.
A UE carece, de facto, de uma agência de segurança europeia credível, dotada de um corpo de análise e de operações. E porquê? Porque a União é, hoje, uma área política e economicamente integrada. O espaço Schengen permite que os cidadãos viajem sem passaporte e as deslocações para zonas da UE exteriores a Schengen foram, igualmente simplificadas. Aliás, seria absurdo implementar padrões de segurança ou sistemas nacionais distintos para proteger as fronteiras externas da UE."
Excerto de um texto de Wolfgang Munchau, colunista do Financial Times, publicado hoje no Diário Económico.
11 julho 2005
Outras respostas possíveis
O Público de domingo publicou um artigo de Timothy Garton Ash sobre os atentados. Tem mais algumas repostas interessantes.
«Isto não significa que a minha resposta a estas atrocidades seja passiva. Mas a resposta correcta não está - como os comentadores da estação televisiva americana Fox News querem fazer crer - em duplicar os ataques militares para fazer desaparecer "o inimigo" no Iraque ou noutro país qualquer. A resposta está num policiamento especializado e numa política inteligente. Recusando calmamente a metáfora melodramática da guerra, a Polícia Metropolitana de Londres descreveu os locais do metro e autocarro que sofreram os ataques bombistas como "cenas do crime". (...)
Um acordo de paz entre Israel e a Palestina removeria outro grande centro de recrutamento de terroristas islâmicos. E, é claro, unir esforços com vista à modernização, liberalização e eventual democratização do grande Médio Oriente é a única forma certa e duradoura de drenar o pântano onde se reproduzem os mosquitos terroristas. Neste campo, é mais a Europa do que os EUA que precisa de abrir os olhos, urgentemente, para a necessidade de tomar mais medidas. Hoje em dia, os acontecimentos que ocorrem lá longe, em Cartum ou Kandahar, têm um impacto directo sobre nós - por vezes fatalmente, enquanto nos dirigimos para o trabalho, sentados numa carruagem do metropolitano entre as estações de King Cross e Russel Square. Deixou de haver política externa. Talvez seja esta a lição mais profunda a retirar do ataque terrorista de Londres.»
«Isto não significa que a minha resposta a estas atrocidades seja passiva. Mas a resposta correcta não está - como os comentadores da estação televisiva americana Fox News querem fazer crer - em duplicar os ataques militares para fazer desaparecer "o inimigo" no Iraque ou noutro país qualquer. A resposta está num policiamento especializado e numa política inteligente. Recusando calmamente a metáfora melodramática da guerra, a Polícia Metropolitana de Londres descreveu os locais do metro e autocarro que sofreram os ataques bombistas como "cenas do crime". (...)
Um acordo de paz entre Israel e a Palestina removeria outro grande centro de recrutamento de terroristas islâmicos. E, é claro, unir esforços com vista à modernização, liberalização e eventual democratização do grande Médio Oriente é a única forma certa e duradoura de drenar o pântano onde se reproduzem os mosquitos terroristas. Neste campo, é mais a Europa do que os EUA que precisa de abrir os olhos, urgentemente, para a necessidade de tomar mais medidas. Hoje em dia, os acontecimentos que ocorrem lá longe, em Cartum ou Kandahar, têm um impacto directo sobre nós - por vezes fatalmente, enquanto nos dirigimos para o trabalho, sentados numa carruagem do metropolitano entre as estações de King Cross e Russel Square. Deixou de haver política externa. Talvez seja esta a lição mais profunda a retirar do ataque terrorista de Londres.»
08 julho 2005
Uma resposta possível
"Transformar as condições sob as quais o Islão na Europa é alimentado e mantido abre a possibilidade a que uma nova geração de pensadores muçulmanos possa emergir - homens e mulheres com uma perspectiva universal, livres do apertado autoritarismo e da corrupção, emancipados da subserviência em relação aos seus governantes e da raiva da revolta que promove a jihad, a ausência de comunicação e a violência. A ideia de que os muçulmanos europeus tanto podem transcender a jihad como a fitna não agrada nem aos activistas radicais, nem salafistas nem islamistas - mesmo que os islamistas, uma vez que são actores na arena política europeia, encontrem espaço nos seus princípios rígidos para ceder aos compromissos da democracia. (...)
É imperativo trabalhar no sentido de proporcionar uma completa participação democrática aos jovens de educação muçulmana através das instituições (...), que encoragem a mobilidade social no sentido ascendente e o aparecimento de novas elites"
The War for Muslim Minds, 2004, de Gilles Kepel - professor da cadeira de Estudos sobre o Médio Oriente no Instituto de Estudos Políticos em Paris, um do mais respeitados especialistas em islamismo, autor de outro livro conhecido, Jihad
É imperativo trabalhar no sentido de proporcionar uma completa participação democrática aos jovens de educação muçulmana através das instituições (...), que encoragem a mobilidade social no sentido ascendente e o aparecimento de novas elites"
The War for Muslim Minds, 2004, de Gilles Kepel - professor da cadeira de Estudos sobre o Médio Oriente no Instituto de Estudos Políticos em Paris, um do mais respeitados especialistas em islamismo, autor de outro livro conhecido, Jihad
07 julho 2005
Bloody thursday
Soluções fáceis para um problema tão complexo só o tornam mais difícil de resolver.
Nem as explicações preguiçosas de Soares nem o voluntarismo arriscado de Bush.
A resignação também não nos aproveita.
O que fazer quando o mundo à nossa volta está à beira de entrar em disrupção? - e isso pode acontecer a cada segundo que passa, em qualquer momento podemos morrer num terramoto.
O que fazer quando, a qualquer hora, o nosso pequeno universo, na nossa cidade, pode entrar em colapso num atentado terrorista, tão acidental na maneira como distribui os estragos quanto um desastre natural?
A primeira resposta é viver naturalmente antes. E procurar viver naturalmente depois.
A nossa presumida liberdade e o nosso estilo de vida não podem ser afectados, porque é esse o objectivo de quem nos inocula o medo - medo aos cidadãos, medo injectado nos político porque eles são obrigados a encontrar respostas, mesmo quando não as há.
O desencadear de respostas violentas que justifiquem mais violência é outro fim de organizações como a Al-Qaeda. A invasão do Iraque (não a do Afeganistão) foi um favor aos terroristas islâmicos.
Mas, se não podemos resignar-nos, qual é a forma de agir contra inimigos sem rosto, sem território, sem programa ideológico (e lógico)? As nossas sociedades estão habituadas a ver razões por detrás das acções dos outros. Mas a ausência de racionalismo da parte do inimigo é outra coisa que nos mata. Mata-nos o raciocínio.
O que aconteceu hoje em Londres há-de repetir-se noutro lugar. É uma guerra fácil, minimalista. Com poucos meios produz-se um efeito máximo: a América protegeu-se 40 anos dos mísseis soviéticos e sofreu o maior revés da sua história em território continental por causa de uma dúzia de homens de canivetes. Ironia assassina.
Este mal só é banal por se parecer com a acção dos vilões dos livros de comics. É o mal na sua mais tradicional fórmula malévola: semear destruição sem colher benefícios. Uma equação de onde não resulta qualquer bem para nenhuma das partes.
No dia em que estas coisas acontecem não há respostas. Só perguntas. Dúvidas. As respostas começam a nascer no dia seguinte.
Nem as explicações preguiçosas de Soares nem o voluntarismo arriscado de Bush.
A resignação também não nos aproveita.
O que fazer quando o mundo à nossa volta está à beira de entrar em disrupção? - e isso pode acontecer a cada segundo que passa, em qualquer momento podemos morrer num terramoto.
O que fazer quando, a qualquer hora, o nosso pequeno universo, na nossa cidade, pode entrar em colapso num atentado terrorista, tão acidental na maneira como distribui os estragos quanto um desastre natural?
A primeira resposta é viver naturalmente antes. E procurar viver naturalmente depois.
A nossa presumida liberdade e o nosso estilo de vida não podem ser afectados, porque é esse o objectivo de quem nos inocula o medo - medo aos cidadãos, medo injectado nos político porque eles são obrigados a encontrar respostas, mesmo quando não as há.
O desencadear de respostas violentas que justifiquem mais violência é outro fim de organizações como a Al-Qaeda. A invasão do Iraque (não a do Afeganistão) foi um favor aos terroristas islâmicos.
Mas, se não podemos resignar-nos, qual é a forma de agir contra inimigos sem rosto, sem território, sem programa ideológico (e lógico)? As nossas sociedades estão habituadas a ver razões por detrás das acções dos outros. Mas a ausência de racionalismo da parte do inimigo é outra coisa que nos mata. Mata-nos o raciocínio.
O que aconteceu hoje em Londres há-de repetir-se noutro lugar. É uma guerra fácil, minimalista. Com poucos meios produz-se um efeito máximo: a América protegeu-se 40 anos dos mísseis soviéticos e sofreu o maior revés da sua história em território continental por causa de uma dúzia de homens de canivetes. Ironia assassina.
Este mal só é banal por se parecer com a acção dos vilões dos livros de comics. É o mal na sua mais tradicional fórmula malévola: semear destruição sem colher benefícios. Uma equação de onde não resulta qualquer bem para nenhuma das partes.
No dia em que estas coisas acontecem não há respostas. Só perguntas. Dúvidas. As respostas começam a nascer no dia seguinte.
30 junho 2005
Outras curvas
O Público traz hoje em manchete: "Estudo denuncia curvas ilegais no IP4 e no Eixo Norte/Sul".
Sugiro que também se estudem as curvas ilegais na recta de Pegões...
Sugiro que também se estudem as curvas ilegais na recta de Pegões...
29 junho 2005
First day at the office
Quando começamos num novo emprego podemos pensar que são as grandes mudanças que podem perturbar o frágil equilíbrio dos dias úteis. Para elas temos a adrenalina do desconhecido. São as pequenas alterações do quotidiano, os pormenores, que podem tornar-se inquietantes. Por exemplo, conseguir dominar a técnica de lavar os dentes sem molhar a gravata. À primeira vista é simples. A mão direita maneja a escova de dentes enquanto a esquerda resguarda o pingente de pano mais perto do diafragma. Mas também temos de controlar o fluxo da água e é nesses momentos, em que abrimos e fechamos a torneira, que a gravata corre o risco de se encostar à borda do lavatório. Pode parecer fútil mas é difícil tentar resolver os problemas do mundo com uma gravata molhada.
23 junho 2005
Mr. Dalloway
Henry Perowne disse que ele próprio compraria o peixe. Não é com esta frase mas é com este espírito que começa Sábado, o novo livro de Ian McEwan. A Clarissa Dalloway do século XXI é um homem e guia um Mercedes S 500 pelas ruas da moderna cidade de Londres. Não tem uma festa para preparar, apenas um jantar de família com sopa de peixe-anjo. A acção desenrola-se num único dia – como os livros fundadores do romance moderno (Ulisses, Mrs. Dalloway) – e por isso não é de estranhar que esteja cheio de descrições pormenorizadas de actividades do quotidiano ou que sobre muito espaço para reflexões sobre a condição humana nas sociedades contemporâneas. Escrito cerca de setenta e cinco anos depois do de Virginia Woolf, o livro não está atrasado, é uma actualização.
22 junho 2005
A Rh+
Fui dar sangue. O edifício do Instituto Português do Sangue fica no mesmo complexo hospitalar do Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos. Sempre que vou a sair do portão sinto um calafrio de expectativa. Penso que podem mandar-me parar e que tenho de protestar que não sou maluco. Imagino depois o porteiro a dizer, com voz condescendente , enquanto carrega no botão de alarme: «-Eu sei, eu sei. Mas vista só esta bonita camisa branca para ver se lhe fica bem. Muito bem. Agora cruze os braços para eu poder apertar as correias.»
Durante a vaga de calor
Por ser o dia mais longo do ano e estar muito calor, ontem à noite eu e a Joana não ficámos em casa a disputar o nosso espaço vital frente à ventoinha. Andámos pelas ruas do Bairro Alto e acabámos na Eterno Retorno, uma livraria especializada em obras de filosofia e teatro. Folheámos o jornal e alguns dos bons livros em segunda mão e observámos os movimentos do gato da casa. Esteve deitado em cima do piano, deambulou entre as mesas e subiu para cima do balcão. Apesar de não podermos ser caracterizados propriamente como cat lovers, gostámos deste. Achámos que tinha um ar inteligente. Talvez seja inevitável num gato que passa todo o dia entre livros de filosofia.
21 junho 2005
Poucaterra não há calha
Com a mesma velha locomotiva a fazer força, o comboio europeu, agora de 25 carruagens atulhadas de ambições, anda forçosamente mais devagar. E com vagões pesados como o francês, o holandês e o britânico a meterem travões a fundo, a composição é forçada a parar num apeadeiro a meio de nenhures.
Numa metáfora feliz, o Durão Barroso primeiro-ministro disse uma vez que a União Europeia era um grande avião sem piloto. Onde é que pára agora o maquinista? Talvez haja maquinista, mas acabou-se a ferrovia...
Numa metáfora feliz, o Durão Barroso primeiro-ministro disse uma vez que a União Europeia era um grande avião sem piloto. Onde é que pára agora o maquinista? Talvez haja maquinista, mas acabou-se a ferrovia...
18 junho 2005
O megafone racista
Foi um mau espectáculo, qualquer um dos directos da manifestação de skins nas televisões. Se os directos por vezes são bons, às vezes encerram perigos. Apenas cinquenta nazis sem qualquer peso na sociedade conseguiram hoje ter uma audiência de milhões de portugueses e passar uma mensagem perigosa de forma gratuita, através do megafone hertziano (o jornalismo trata da recolha, selecção, hierarquização e tratamento da informação, daí que a forma preferível de cobertura da manif fosse a da peça trabalhada em diferido). De qualquer forma, os directos são inevitáveis, e assim os organizadores conseguiram o que desejavam: propaganda nazi e xenófoba à hora do almoço familiar do fim-de-semana.
Mas há coincidências tramadas. Minutos depois de um cabeça-rapada perorar sobre a expulsão dos imigrantes com o exemplo da expulsão de mouros - junto à Mouraria onde tantos anos os muçulmanos conviveram com os cristãos -, uma nova peça do telejornal devolvia a estes sabujos um espelho ao qual não gostariam de se ver.
A polícia britânica montou alarmes na casa dos emigrantes portugueses que vivem numa vilória inglesa para os proteger de ataques racistas e xenófobos (por parte de outros brancos), na sequência dos protestos por causa de um homicídio alegadamente cometido por um português. O problema é o mesmo, nem vale a pena dizê-lo, posto ao contrário.
Dar voz e ouvidos a esta gente é abrir o caminho a males que repousavam fechados na nossa caixa de Pandora. O que eles dizem é tão ridículo, irracional, e brutal que parecem inofensivos aos seres dotados de razão. O perigo é o que eles representam. As esquerdas e as direitas democráticas têm de ter um discurso claro sobre segurança, apresentar medidas viáveis, e uma ideia sobre como lidar com a imigração, os bairros degradados e a integração. Se não ocupam o espaço vazio, esta gente aproveitará as brechas.
Mas há coincidências tramadas. Minutos depois de um cabeça-rapada perorar sobre a expulsão dos imigrantes com o exemplo da expulsão de mouros - junto à Mouraria onde tantos anos os muçulmanos conviveram com os cristãos -, uma nova peça do telejornal devolvia a estes sabujos um espelho ao qual não gostariam de se ver.
A polícia britânica montou alarmes na casa dos emigrantes portugueses que vivem numa vilória inglesa para os proteger de ataques racistas e xenófobos (por parte de outros brancos), na sequência dos protestos por causa de um homicídio alegadamente cometido por um português. O problema é o mesmo, nem vale a pena dizê-lo, posto ao contrário.
Dar voz e ouvidos a esta gente é abrir o caminho a males que repousavam fechados na nossa caixa de Pandora. O que eles dizem é tão ridículo, irracional, e brutal que parecem inofensivos aos seres dotados de razão. O perigo é o que eles representam. As esquerdas e as direitas democráticas têm de ter um discurso claro sobre segurança, apresentar medidas viáveis, e uma ideia sobre como lidar com a imigração, os bairros degradados e a integração. Se não ocupam o espaço vazio, esta gente aproveitará as brechas.
17 junho 2005
O que diz Immanuel
Diz Kant que «a felicidade não é um ideal da razão, mas da imaginação, que assenta somente em princípios empíricos dos quais é vão esperar que determinem uma conduta necessária para alcançar a totalidade de uma série de consequências de facto infinita.» (Fundamentação da Metafísica dos Costumes, 1785) A felicidade é um bem subjectivo, que cada indivíduo constrói de modo diferente, a cada momento, a partir de elementos infinitos. É por isso que, segundo Kant, não pode ser erigida como padrão de moralidade. Está calor, as venezianas estão fechadas e na sombra da sala o sopro da ventoinha incide directamente sobre o meu corpo inerte no sofá. Talvez isto seja de algum modo a felicidade, mas não me passaria pela cabeça tentar torná-lo lei universal.
13 junho 2005
Um vida bem vivida
Ficou-me na memória uma frase de Álvaro Cunhal numa entrevista em que ele disse ter vivido uma vida bem vivida, qualquer coisa assim, ou que só vale a pena a vida se for para ser bem vivida. A dele viveu-se ao sabor de um ideal derrotado. Talvez o tenha percebido de 1989 para cá, mas não é isso que importa agora, porque os bolcheviques em Portugal foram definitivamente derrotados há 30 anos. O que é de invejar na vida desse homem é tê-la vivido bem, mesmo com os piores sacrifícios por que passou. Como seria o mundo se nos dedicássemos assim àquilo em que acreditados, ou apenas se acreditássemos nalguma coisa? Como seria o mundo se todos levássemos vidas que valem a pena viver-se?
11 junho 2005
Leitura de férias
Tirando as próprias ilhas gregas, não deve haver melhor lugar para ler a Odisseia que as praias de baías rochosas da costa Vicentina. Parece que conseguimos compreender melhor os infortúnios de Ulisses e dos seus companheiros deitados na areia, que depois trazemos connosco entre as páginas do livro em pequenas ilhas. Estou mais bronzeado, mais descansado e, como Ulisses, estou de regresso a casa.
04 junho 2005
O Vítor foi para Norte. Eu sigo para Sul. Durante mais ou menos uma semana este estabelecimento fica Encerrado para descanso do pessoal. Gostaria de prometer um diário de viagem, com descrições da costa alentejana e do nosso repouso num monte corticeiro, mas é difícil escrever quando nos estamos a divertir. Talvez seja por isso que a maior parte dos romances são depressivos, mas esse é um tema que fica para outro post.
31 maio 2005
28 maio 2005
Ensaio sobre a cegueira
A relação entre o sexo e a perda de visão é um mito urbano que ganhou novos desenvolvimentos. Segundo o Expresso desta semana, investigadores americanos estão a estudar «50 casos de cegueira (total ou parcial) supostamente relacionados com o uso do Viagra». Na Idade Média era a masturbação, razão pela qual lhe terão chamado Idade das Trevas – e que a confirmar-se teria provocado uma epidemia de cegueira mais fulminante que a peste negra. Nas últimas décadas seria a pornografia a contribuir para a perda de visão nos adolescentes, pela dificuldade em lerem (verem) revistas com pouca luz ou por cansarem a vista a tentar perceber cenas de filmes caseiros de má qualidade. A relação entre o sexo e a perda de visão pode ser apenas um mito, mas sempre me deixa mais orgulhoso das minhas dioptrias.
27 maio 2005
A nossa lepra incurável
A Dona Ema foi ao baú do sótão desencantar esta maravilhosa antiguidade mais actual do que nunca:
"Sempre que no Parlamento se levanta a voz plangente dum ministro, pedindo que cresça a bolsa do fisco e se cubra de impostos a fazenda do pobre, para salvação económica da pátria, há agitações, receios, temores, inquietações, oposições terríveis, descontentamentos incuráveis. O povo vê passar tudo, indiferente, e atende ao movimento da nossa política, da nossa economia, da nossa instrução, com a mesma sonolenta indiferença e estéril desleixo com que atenderia à história que lhe contassem das guerras exterminadoras duma antiga república perdida.(...)
Temos um déficit de 5.000 contos. Esta é a negra, a terrível, a assustadora verdade. Quem o promoveu? Quem o criou? De que desperdícios incalculáveis se formou? Como cresceu? Quem o alarga? É o governo? Foram estes homens que combatem, foram aqueles que defendem, foram aqueles que estão mudos? Não. Não foi ninguém. Foram as necessidades, as incúrias consecutivas, os maus métodos consolidados, a péssima administração de todos, o desperdício de todos. Depois, as necessidades da vida moderna, de terrível dispêndio para as nações. Como na vida particular, cresceram as superfluidades, o vão luxo, o aparato consumidor, mais precisões, mais gastos, a vida internacional tornou-se tão cara que mais ou menos todas as nações estão esfomeadas e magras.(...)
O déficit tornou-se um vício nacional, profundamente arraigado, indissoluvelmente preso ao solo, como uma lepra incurável."
Eça de Queiroz, 1867
"Sempre que no Parlamento se levanta a voz plangente dum ministro, pedindo que cresça a bolsa do fisco e se cubra de impostos a fazenda do pobre, para salvação económica da pátria, há agitações, receios, temores, inquietações, oposições terríveis, descontentamentos incuráveis. O povo vê passar tudo, indiferente, e atende ao movimento da nossa política, da nossa economia, da nossa instrução, com a mesma sonolenta indiferença e estéril desleixo com que atenderia à história que lhe contassem das guerras exterminadoras duma antiga república perdida.(...)
Temos um déficit de 5.000 contos. Esta é a negra, a terrível, a assustadora verdade. Quem o promoveu? Quem o criou? De que desperdícios incalculáveis se formou? Como cresceu? Quem o alarga? É o governo? Foram estes homens que combatem, foram aqueles que defendem, foram aqueles que estão mudos? Não. Não foi ninguém. Foram as necessidades, as incúrias consecutivas, os maus métodos consolidados, a péssima administração de todos, o desperdício de todos. Depois, as necessidades da vida moderna, de terrível dispêndio para as nações. Como na vida particular, cresceram as superfluidades, o vão luxo, o aparato consumidor, mais precisões, mais gastos, a vida internacional tornou-se tão cara que mais ou menos todas as nações estão esfomeadas e magras.(...)
O déficit tornou-se um vício nacional, profundamente arraigado, indissoluvelmente preso ao solo, como uma lepra incurável."
Eça de Queiroz, 1867
26 maio 2005
António das Pêgas, o manageiro

A este veterano do montado, de olho azul e 72 anos, chamam-lhe António das Pêgas. É manageiro para os lados de Santiago do Cacém, o que significa comandar um rancho de homens e mulheres que fazem trabalho sazonal para os lavradores lá da zona. Aqui apanhei-o a beber pelo cocharro, durante uma tirada de cortiça serrana, para os lados das Vendas do Roncão. Vê-se pela maneira como olha a objectiva que é um tipo vaidoso, do género velho gaiteiro. Meneia as ancas como o John Wayne, mas no lugar da pistola leva um machadinho.
O ofício exige saber popular misturado com ditâmes de Bruxelas: ao lado da machada transporta uma corda com os centímetros exactos do diâmetro legal mínimo do tronco dos sobreiros que tiram a primeira cortiça virgem. Abraça um chaparrinho com o cordel e diz este já pode ser. Depois toca num frondoso com a palma da mão e conclui que foi maltratado numa época antiga, por tiradores brutos, sem sensibilidade no machadar, que feriram a carne da árvore em dia de chuva. É preciso muito ouvido para sentir a lâmina entrar sem castigar o tronco. O prémio do bom tirador - para além do prémio do fim do dia, os dezasseis contos da jorna -, é quando a cortiça "arrota" ao descolar do tronco num canudo perfeitinho, a bela prancha que há-de dar com que enrolhar uma pinga da melhor.
O António das Pêgas não havia de gostar de saber dos conluios entre os nossos governantes e os interesses privados para abater sobreiros em troca de campos de golfe. Ele não teria jeito para caddy, mesmo com aquele menear de ancas à cowboy.
25 maio 2005
Admirável leveza do ser
Sinto-me livre, leve, feliz, sintonizado com os astros, ansioso por ler livros que acumulei, por ver coisas que nunca vi, por fazer o que nunca fiz, por viver estes quinze dias como se fossem anos. Estou de fériiiaaas!
Este monstro imposto
Não quero pagar mais impostos porque os últimos governos não governaram. É como dar cada vez mais comida a um bicho cada vez mais gordo, que precisa de cada vez mais de comida porque está cada vez mais gordo. Não é preciso matá-lo. Basta obrigá-lo a uma dieta rigorosa, fazer umas lipoaspirações, e, se for preciso, meter-lhe uma banda gástrica: acabar com o emprego para toda a vida na função pública, com serviços supérfluos e ineficazes, com as prestações para quem não precisa, e despedir os comprovadamente incompetentes. Eliminar os benefícios fiscais da banca e da construção civil, ser implacável para qualquer restaurante que não passe a factura, para qualquer empresa que fuja aos impostos. A doer. De cabo a rabo.
23 maio 2005
Notas marginais
Dependendo do ponto de vista, sublinhar livros de bibliotecas públicas pode ser encarado como um acto de egoísmo ou de altruísmo. Pode sublinhar-se sem pensar nos leitores seguintes ou a pensar nos leitores seguintes. Neste segundo caso, sublinhar é um acto exploratório de procura das frases ou dos pensamentos mais importantes, empreendido para poupar trabalho aos leitores futuros. Poderíamos chamar a estes sublinhadores fazedores de mapas, não fosse o perigo de tornar sedutora uma actividade tão irritante. Por vezes os riscos são complementados com extensas anotações na margem lateral da mancha impressa, oferecendo o texto e a sua exegese na mesma página. O que apetece, nestes casos, é comentar o comentário do leitor anterior, iniciando uma espiral infinita de notas marginais.
22 maio 2005
Viva o Porto e as equipas que festejam longe daqui
Percebe-se assim a razão de um alentejano que vive em Lisboa ser do FC Porto: o sossego. Das duas vezes em que o Sporting foi campeão nacional não dormi com os gritos dos que não tinham ficado "em casa", amontoados aos berros na Praça do Município. Agora, estas coisas vermelhuscas vá de lhe darem com o S - L - B à pressão do ar pulmunar, as apitadelas dos carros, os piões das motas, os raters. Mas pior é a barulheira que para aqui vai de uns altifalantes a darem música pimba e trash metal com letras à Benfica, decerto com o patrocínio de alguma entidade oficial esquecida de uns quantos miseráveis que ainda vivem na Baixa. Quero dormir. E bibó Porto! , que quando faz a festa, festeja longe daqui e me deixa duplamente feliz.
21 maio 2005
Cunhas
Isaltino Morais contou que Marques Mendes lhe meteu uma cunha para o comandante Azevedo Soares (hoje vice-presidente do PSD) ser administrador da Águas de Portugal. Ele, que era ministro do Ambiente, acedeu ao pedido e agora denuncia a sua própria conivência nesta história de conluio. Quem muito atira pedras ao ar... Quem é que deu guarida a Marques Mendes na Universidade Atlântica, cuja maioria do capital é da câmara de Oeiras, quando o actual presidente do PSD era apenas deputado?
20 maio 2005
Dilemas
A primeira grande decisão de um pai e de uma mãe: escolher o nome do filho, aquela tatuagem entranhada, cerzida ao ser, que nunca sai e o vai acompanhar toda a vida. Acho que estou a acusar o peso da responsabilidade.
18 maio 2005
O défice de felicidade e as contas públicas
Grande novidade, o défice das contas públicas portuguesas é preocupante: chegará aos sete por cento? Depois da derrota do Sporting e da expectativa em torno do Boavista-Benfica, é esta a maior preocupação do nosso honesto povo. Contabilizamos o nosso desenvolvimento a partir de dados absolutamente mensuráveis, mas eu cá, nos dias de total irresponsabilidade, estou-me nas tintas para o défice.
Há coisas na vida que não se medem. Um dia perguntei a um historiador estrangeiro, que tinha escrito um livro sobre o desenvolvimento das nações, se ele sabia se as pessoas eram mais ou menos felizes antigamente, quando eram mais pobres e menos desenvolvidas, ou hoje, rodeadas de tecnologia. Ora ele encolheu os ombros e disse que não fazia ideia. Tinha escrito no dito livro que a felicidade era um subproduto do desenvolvimento.
Ora, vamos lá teorizar um bocadinho sobre isto: um povo que canta fado mas nunca ganhou o festival da canção, que foi à final do Euro e perdeu logo com os gregos, que vai aos magotes pagar promessas a Fátima agradecendo qualquer ponta de felicidade como um favor da divina providência, que bate recordes de boletins do euromilhões na esperança de enriquecer, e que consome cada vez mais antidepressivos, precisa de muito mais que de ultrapassar o défice.
O défice está no meio de nós, omnipresente, a escutar atrás das portas e tolher-nos os movimentos porque não estamos contentes porque não somos felizes e não somos felizes porque não estamos contentes. Nós somos o défice. Erradicá-lo era como deitar os Jerónimos a baixo. Não podíamos ser pobres e desgovernados, até tolos, mas ao mesmo tempo evoluirmos nos critérios de convergência da máxima felicidade?
Há coisas na vida que não se medem. Um dia perguntei a um historiador estrangeiro, que tinha escrito um livro sobre o desenvolvimento das nações, se ele sabia se as pessoas eram mais ou menos felizes antigamente, quando eram mais pobres e menos desenvolvidas, ou hoje, rodeadas de tecnologia. Ora ele encolheu os ombros e disse que não fazia ideia. Tinha escrito no dito livro que a felicidade era um subproduto do desenvolvimento.
Ora, vamos lá teorizar um bocadinho sobre isto: um povo que canta fado mas nunca ganhou o festival da canção, que foi à final do Euro e perdeu logo com os gregos, que vai aos magotes pagar promessas a Fátima agradecendo qualquer ponta de felicidade como um favor da divina providência, que bate recordes de boletins do euromilhões na esperança de enriquecer, e que consome cada vez mais antidepressivos, precisa de muito mais que de ultrapassar o défice.
O défice está no meio de nós, omnipresente, a escutar atrás das portas e tolher-nos os movimentos porque não estamos contentes porque não somos felizes e não somos felizes porque não estamos contentes. Nós somos o défice. Erradicá-lo era como deitar os Jerónimos a baixo. Não podíamos ser pobres e desgovernados, até tolos, mas ao mesmo tempo evoluirmos nos critérios de convergência da máxima felicidade?
Patinagem artística
O Sporting fez coisas bonitas, como diria o do bigode. Mas infelizmente, como notava o comentador, isto não é patinagem artística. É patinagem.
O meu amigo Luís Miguel Afonso escreveu este comentário ao post sobre o "Fundamentalista Medieval":
Todas estas palavras deixam-me com a certeza que algo não vai bem com esta sociedade. Ao ouvir as opiniões de uns e de outro, pergunto-me a mim mesmo se estará alguém a usar a razão naquilo que diz ou se apenas se decidiu dar voz à inquietação que sobressalta da alma de cada um. De um lado, o Padre de Lordelo, que longe do politicamente incorrecto, mostrou antes uma falta de sensibilidade (e presença de espírito) extrema. Errou no tempo e no modo como quis marcar a sua posição. Do outro, os indignados da sociedade... A estes, sinceramente, não consegui ainda perceber a causa da indignação. Terá sido pelas circunstâncias em que o disse? Será por o clérigo ter dado a entender que é pior morrer uma criança no seio da mãe do que uma criança de cinco anos? Terá sido por ter tido a ousadia de considerar que um bébé no seio materno é realmente um bébé? Qual destas razões (ou outras...) terá causado a indignação de cada um?Tudo me leva crer que não terá sido pela primeira razão que apontei. Pelo menos, na maioria dos indignados. A esses gostava de deixar aqui as seguintes questões: Qual é a diferença entre a morte de um adulto e a de uma criança? Qual a diferença entre a morte de uma criança de 5 anos e a de um bébé de 6 meses? E depois de responderem com a razão a estas questões, tentem aplicar a vossa resposta a esta derradeira questão: qual será a diferença entre a morte de um bébé no seio materno e a de um adulto? Apenas um testemunho para aqueles que nunca ouviram o coração do seu filho a bater e as suas pequenas mãos a dizer adeus enquanto se aconchegam dentro do ventre da sua mãe: um bébé com 12 semanas através de uma máquina de ecografia parece mesmo um bébé...
Não, meu caro Afonso, neste caso o problema não está em saber se um bebé no seio da mãe é realmente um bebé. Aqui a coisa não é preto ou branco. O problema é a graduação que é feita pelo padre, ao considerar que a vida de uma criança de cinco anos, brutalmente assassinada, vale menos do que um feto na barriga de uma mãe. Eu respeito a opinião das pessoas que são contra o aborto. Eu votei sim no referendo, mas dificilmente apoiaria a realização de um aborto que me dissesse respeito. A questão em debate é outra: o fundamentalismo a que me referi reside no facto de o padre valorar mais aquilo que são os ditâmes gerais da Igreja em relação ao aborto do que a vida daquela criança em concreto. Mais: ele não valorizou a vida daquela família que teve de o ouvir a dizer tamanho disparate, e que foi à Igreja buscar algum consolo.
PS: a resposta do Afonso pode ser lida aqui nos comentários
Todas estas palavras deixam-me com a certeza que algo não vai bem com esta sociedade. Ao ouvir as opiniões de uns e de outro, pergunto-me a mim mesmo se estará alguém a usar a razão naquilo que diz ou se apenas se decidiu dar voz à inquietação que sobressalta da alma de cada um. De um lado, o Padre de Lordelo, que longe do politicamente incorrecto, mostrou antes uma falta de sensibilidade (e presença de espírito) extrema. Errou no tempo e no modo como quis marcar a sua posição. Do outro, os indignados da sociedade... A estes, sinceramente, não consegui ainda perceber a causa da indignação. Terá sido pelas circunstâncias em que o disse? Será por o clérigo ter dado a entender que é pior morrer uma criança no seio da mãe do que uma criança de cinco anos? Terá sido por ter tido a ousadia de considerar que um bébé no seio materno é realmente um bébé? Qual destas razões (ou outras...) terá causado a indignação de cada um?Tudo me leva crer que não terá sido pela primeira razão que apontei. Pelo menos, na maioria dos indignados. A esses gostava de deixar aqui as seguintes questões: Qual é a diferença entre a morte de um adulto e a de uma criança? Qual a diferença entre a morte de uma criança de 5 anos e a de um bébé de 6 meses? E depois de responderem com a razão a estas questões, tentem aplicar a vossa resposta a esta derradeira questão: qual será a diferença entre a morte de um bébé no seio materno e a de um adulto? Apenas um testemunho para aqueles que nunca ouviram o coração do seu filho a bater e as suas pequenas mãos a dizer adeus enquanto se aconchegam dentro do ventre da sua mãe: um bébé com 12 semanas através de uma máquina de ecografia parece mesmo um bébé...
Não, meu caro Afonso, neste caso o problema não está em saber se um bebé no seio da mãe é realmente um bebé. Aqui a coisa não é preto ou branco. O problema é a graduação que é feita pelo padre, ao considerar que a vida de uma criança de cinco anos, brutalmente assassinada, vale menos do que um feto na barriga de uma mãe. Eu respeito a opinião das pessoas que são contra o aborto. Eu votei sim no referendo, mas dificilmente apoiaria a realização de um aborto que me dissesse respeito. A questão em debate é outra: o fundamentalismo a que me referi reside no facto de o padre valorar mais aquilo que são os ditâmes gerais da Igreja em relação ao aborto do que a vida daquela criança em concreto. Mais: ele não valorizou a vida daquela família que teve de o ouvir a dizer tamanho disparate, e que foi à Igreja buscar algum consolo.
PS: a resposta do Afonso pode ser lida aqui nos comentários
14 maio 2005
O Fundamentalista medieval
«Matar uma pessoa no seio materno é mais grave do que matar uma pessoa que não se pode defender. Uma menina de cinco anos pode reagir, pode chorar, queixar-se»", disse à TSF o padre do Lordelo, Domingos Oliveira, assumindo assim o que já tinha afirmado na homilia da missa de sétimo dia em nome da Vanessa, a menina assassinada por familiares no Porto.
Se o Papa Bento XVI é um homem contra os relativismos modernos, que diria ele do relativismo medieval defendido por este obscuro padre? Mais vale um homicídio tardio que um aborto precoce? Um homem que diz isto numa casa onde há quem acredite haver uma presença Deus está do lado do bem ou do lado do mal?
Qual a diferença entre o padre Domingos e os apedrejadores de mulheres islâmicos? O que fará a hierarquia da Igreja em relação a ele? Com que consolo saíram daquela missa as almas dos familiares da criança? As palavras do padre Domingos são um segundo crime contra aquela criança: a profanação de uma alma inocente.
Se o Papa Bento XVI é um homem contra os relativismos modernos, que diria ele do relativismo medieval defendido por este obscuro padre? Mais vale um homicídio tardio que um aborto precoce? Um homem que diz isto numa casa onde há quem acredite haver uma presença Deus está do lado do bem ou do lado do mal?
Qual a diferença entre o padre Domingos e os apedrejadores de mulheres islâmicos? O que fará a hierarquia da Igreja em relação a ele? Com que consolo saíram daquela missa as almas dos familiares da criança? As palavras do padre Domingos são um segundo crime contra aquela criança: a profanação de uma alma inocente.
13 maio 2005
Linha
As diferenças entre o centro de saúde e o Estádio de Alvalade, por estes dias, são de escala e não de substância. É tão difícil arranjar uma consulta para o médico de família como para o final da Taça EUFA. Em ambos, há pessoas que vão acampar para lá com dias de antecedência. Mas o que é um acontecimento raro para os adeptos de futebol, tornou-se num desporto regular para grande parte da terceira idade com insónia. Muitos é certamente pelo vício do jogo, uma alternativa grátis ao bingo. A expectativa e o prazer de saber se o número da senha tem prémio. Hoje não me saiu nada.
12 maio 2005
Abater sobreiros: o crime de traição à pátria de Nobre Guedes e Costa Neves

Quando no fim do Verão o meu avô Hermes me oferecia uma nota de cinco contos, era porque tinha vendido a cortiça lá do brejo. Toda a vida olhei para os sobreiros com respeito, sinal de riqueza e posses na terra de onde venho. Os homens destas fotografias tiradas em 2002 na Serra de Grândola ganham 16 contos por dia na recolha do petróleo alentejano. Toda a gente ganha alguma coisa, neste negócio. A produção portuguesa de cortiça domina o mercado mundial, mas não chega para todas as encomendas. O bem é escasso para uma produção mundial cada vez maior de garrafas de vinho a precisarem de ser rolhadas...
Por isso fico tão irritado quando me abatem os chaparros, é uma coisa de pele. Este caso da Portucale em Benavente deixa-me danado, e não é só por causa da falta de sombra para bater umas sornas: um ministro do ambiente (Nobre Guedes) e outro da Agricultura (Costa Neves) a mandarem abater mais de dois mil sobreiros para fazerem um empreendimento turístico só mostra que ainda não ultrapassámos o velho modelo de (sub)desenvolvimento. Se dantes era só betão, agora é betão mais relva para o golfe. O Grupo Espírito Santo fez um comunicado ridículo a dizer que tinha plantado cinco mil sobreiros noutro local. Só que desses, poucos vingarão. E a primeira tirada de cortiça virgem é feita só aos primeiros 40 ou 50 anos da árvore. E a segunda tirada aos 60 anos ainda não é da maior qualidade. Não é preciso haver tráfico de influências para eles serem culpados de um crime lesa-pátria.
A mente humana é selectiva, mas também é inconstante. Não é incomum, numa segunda leitura de um texto, não compreender porque é que sublinhei determinadas passagens, que na altura me terão parecido importantes. Um exemplo: «Os poetas, dos órficos gregos aos nossos contemporâneos, vivem em culturas de culpa, em que o formalismo mágico da sabedoria poética viconiana é necessariamente inaceitával.» Agora me lembro, não sublinho apenas o que me parece importante. Por vezes, sublinho para tentar compreender mais tarde. A combinação entre beleza e incompreensão do fragmento também é um factor relevante para o acto.
A morte de Vítor Hermes
Hermes pode não ser bonito mas é um nome alado. Era o nome do meu avô, Hermes Rodrigues da Silva, e sempre gostei dele sobretudo pelo significado. Hermes, para os gregos, era o filho de Zeus e de Maia, neto de Atlas. Nasceu numa caverna no monte Cilene, na Arcádia e manifestou imediatamente uma admirável maturidade precoce e qualidades de inteligência extraordinárias. Era um recém nascido quando fugiu do berço para a Piéria. Adorava travessuras. Era um deus divertido. Roubou os bois de Apolo. Na Odisseia, Homero refere-se sempre a ele como Hermes, o matador de Argos. É o deus dos ladrões e o seu mensageiro, músico e encantador. Um belo nome. A sua pior tarefa era conduzir as almas do mundo dos vivos ao reino das Sombras. Um deus ocupado, portanto.
O meu primo, da minha idade, chamava-se Tito Hermes. Morreu aos 25 anos num desastre de mota. Esta era uma pequena homenagem. O pai dele chama-se Joaquim Hermes. A minha mãe não recebeu o nome, mas é conhecida como a Maria José Hermes. Durante muito tempo o meu irmão assinou Rui Hemes. Na minha terra ninguém sabe quem é o Vítor Matos. Seria preciso acrescentar: é um dos Hermes. Mas esta semi-clandestinidade durante um ano e tal de blogue incomoda-me. Devolvo-me ao mundo dos mortais com o meu nome de mortal: passo a assinar os posts com o meu nome verdadeiro: Vítor Matos.
O meu primo, da minha idade, chamava-se Tito Hermes. Morreu aos 25 anos num desastre de mota. Esta era uma pequena homenagem. O pai dele chama-se Joaquim Hermes. A minha mãe não recebeu o nome, mas é conhecida como a Maria José Hermes. Durante muito tempo o meu irmão assinou Rui Hemes. Na minha terra ninguém sabe quem é o Vítor Matos. Seria preciso acrescentar: é um dos Hermes. Mas esta semi-clandestinidade durante um ano e tal de blogue incomoda-me. Devolvo-me ao mundo dos mortais com o meu nome de mortal: passo a assinar os posts com o meu nome verdadeiro: Vítor Matos.
10 maio 2005
A vida antes do «Pictionary»

A história é conhecida. William S. Burroughs – autor beat que escreveu Naked Lunch –, bêbedo, decide brincar ao Guilherme Tell com a sua mulher, um revólver e um copo com água. Joan Vollmer aparentemente achou boa ideia, mas também já não estava muito sóbria. Estavam no México, de visita a casa de uns amigos e talvez se tenha instalado um silêncio constrangedor. Como se provou alguns segundos mais tarde, foi um dos desbloqueadores de conversa mais infelizes da história das relações sociais. William acerta em cheio na cabeça e Joan e o copo com água acabam ambos estilhaçados no chão. A história não tem moral – a não ser talvez a de que a brincadeira resulta melhor com frutos do que com objectos de vidro –, apenas uma constatação: a escassez de pensamento racional no neto (William S. Burroughs) de um homem que enriqueceu a produzir máquinas de calcular (Burroughs Adding Machine Company).
09 maio 2005
Sobre referendos e a prioridade da democracia sobre as concepções de bem
Nem todos os assuntos deveriam poder ser objecto de deliberação colectiva. Nas democracias liberais existe um razoável consenso em torno desta ideia. Não é por isso estranho ouvir-se dizer com alguma frequência que a liberdade individual não se referenda ou que a vida não se referenda. Existem questões que não deveriam depender da vontade de uma maioria conjuntural, cuja salvaguarda deveria estar consagrada a nível constitucional, mas numa sociedade em que ainda não chegou a acordo sobre todas elas, a democracia deve ter prioridade sobre as diversas concepções de bem. A alternativa à deliberação democrática é, no extremo, a guerra civil. Existem assuntos e tempos extremos que merecem uma guerra civil, para todos os outros, os limites à deliberação democrática são tão extensos e frágeis como os da própria democracia liberal.
Sobre referendos e o princípio representativo
No Federalista N.º 10, James Madison traça a distinção entre uma república, um tipo de governo baseado na representação, e uma democracia pura. Segundo ele, a principal vantagem da primeira sobre a segunda seria: «to refine and enlarge the public views, by passing them through the medium of a chosen body of citizens, whose wisdom may best discern the true interest of their country». A ideia de que a tomada de decisões por representantes eleitos não é apenas um mecanismo inevitável em sociedades complexas, em que os cidadãos não podem reunir-se eles próprios para decidir tudo a todo o momento, mas preferível, esteve sempre de alguma forma presente nos debates teóricos sobre a democracia representativa. Desde algumas concepções elitistas de direita sobre a existência de uma aristocracia natural até algumas concepções elitistas de esquerda sobre o partido como a vanguarda do proletariado. As assembleias representativas têm legitimidade para tomar decisões em nome dos cidadãos que as elegem, mas não contra eles, de forma preventiva, quando existam dúvidas sobre se o conteúdo da sua deliberação será diferente da opinião dos seus representantes.
08 maio 2005
07 maio 2005
06 maio 2005
Dia feliz
Mexia as mãozinhas, esperneava, confortável, num conforto morno que nunca mais voltamos a sentir. E lá estava, no écrã. O rapaz.
O terceiro "D"
Em simultâneo com a presença na final do Euro 2004, temos em três anos consecutivos uma equipa portuguesa nas finais das competições europeias. Parabéns ao Sporting! Portugal é finalmente uma nação desenvolvida. O José Barroso deve andar cheio de cachecóis e gravatas da sorte lá pelos corredores de Bruxelas.
05 maio 2005
Antes do tempo
Existem vários testes práticos para se avaliar se uma pessoa é conservadora ou progressista, cuja total falta de validade científica não deve impedir-nos de os utilizar com segurança. Um dos mais conhecidos é o da máquina do tempo: se encontrássemos uma estacionada em segunda fila, com a chave na ignição, visitaríamos o passado ou o futuro? As probabilidades apontam para que um conservador viajasse até ao passado e um progressista até ao futuro. Pessoalmente, prefiro uma variante: interrogarmo-nos se teremos nascido demasiado cedo ou demasiado tarde. A maioria dos conservadores sentirá que nasceu demasiado tarde, que a idade de ouro da humanidade já terá passado. A maioria dos progressistas achará o contrário. Perante o dilema, acho que nasci demasiado cedo. Não porque não me compreendam, porque esteja demasiado à frente do meu próprio tempo ou qualquer outra explicação fascista do género. Apenas porque a exploração espacial está apenas no começo, é provável que não venha a assistir às primeiras colonizações de planetas desabitados, ainda não se descobriram energias limpas capazes de satisfazerem as nossas necessidades inesgotáveis de consumo e a genética é ainda uma ciência quase inexplorada. Este último ponto é bastante importante. Embora não acredite na imortalidade da alma, tenho esperança que a ciência nos aproxime da imortalidade do corpo ou, pelo menos, do prolongamento da vida. Neste aspecto, como em outros, a humanidade tem progredido em sentido inverso aos relatos da Bíblia. No Génesis contam-nos que os primeiros homens viviam muito tempo e que a esperança média de vida tem vindo a decrescer consideravelmente. Adão viveu 930 anos, Set 912, Enós 905, Quenan 910, Maalaleel 895, Jéred 962, Henoc 365, Matusalém 969, Lamec 777, Noé 950. Mas os últimos homens viverão certamente muito mais.
We have more beginnings
As primeiras rugas de expressão começaram a notar-se. Podíamos deixar-nos envelhecer graciosamente mas optámos por fazer um lifting. Baixámos as luzes: decidimos passar a ter imagens e queremos que a experiência de atravessar os espelhos seja semelhante à de entrar numa sala escura de cinema, na matiné de um filme estranho em que o espectador está sentado numa sala vazia com a cumplicidade do projeccionista e do arrumador. É favor desligar os telemóveis durante a sessão e não fazer muito barulho com as pipocas.
Vítor (projeccionista) e Tiago (arrumador)
[O nosso sistema de comentários teve uma morte súbita. Já o substituímos por um novo mas, infelizmente, as mensagens antigas perderam-se no limbo dos comentários.]
Vítor (projeccionista) e Tiago (arrumador)
[O nosso sistema de comentários teve uma morte súbita. Já o substituímos por um novo mas, infelizmente, as mensagens antigas perderam-se no limbo dos comentários.]
03 maio 2005
O estilo, qual estilo?
Santana Lopes disse ontem à SIC-Notícias que apreciava o estilo de José Sócrates. Ora, o estilo de Sócrates - que é mais uma gestão criteriosa de silêncios do que uma medição cuidadosa de palavras -, está exactamente nos antípodas do estilo espalhafatoso que Santana cultivou desde a primeira hora. Ou estaria o Pedro a referir-se àquele fato Hugo Boss que vai tão bem com a gravatinha de uma só cor do primeiro-ministro? É que, de facto, o homem tem estilo...
Aborto empurrado para outro inquilino
Não surpreeende. Jorge Sampaio não vai convocar o referendo sobre a despenalização do aborto. Já tinha avisado que não o faria para uma data que prejudicasse a participação popular: ou seja, Julho, como obrigavam os prazos legais. Quem como Sampaio deseja despenalizar o aborto, tem de concordar que, dado o calendário eleitoral, a pergunta só deve ir a votos em 2006. Nem já, nem com as autárquicas, nem com as presidenciais.
O Presidente usou de um bom senso elementar: mais vale adiar o referendo um ano do que fazê-lo mal e à pressa (com menos de 50% de votantes), o que nos deixaria mais sete ou oito anos reféns da situação actual.
Sócrates perdeu, mas já pode dizer à esquerda do seu partido que tentou; e assim ganhou tempo com mais um debate inútil para que não se falasse da governação. Mendes ganhou, condicionando com a sua chantagem a estratégia do PS e do Presidente - que desejam o referendo europeu em conjunto com as autárquicas e por isso precisam do PSD para a revisão constitucional. Para já, o aborto foi empurrado com a barriga para o próximo inquilino do Palácio de Belém. Esperemos que Cavaco seja sensível...
O Presidente usou de um bom senso elementar: mais vale adiar o referendo um ano do que fazê-lo mal e à pressa (com menos de 50% de votantes), o que nos deixaria mais sete ou oito anos reféns da situação actual.
Sócrates perdeu, mas já pode dizer à esquerda do seu partido que tentou; e assim ganhou tempo com mais um debate inútil para que não se falasse da governação. Mendes ganhou, condicionando com a sua chantagem a estratégia do PS e do Presidente - que desejam o referendo europeu em conjunto com as autárquicas e por isso precisam do PSD para a revisão constitucional. Para já, o aborto foi empurrado com a barriga para o próximo inquilino do Palácio de Belém. Esperemos que Cavaco seja sensível...
30 abril 2005
Paul Auster no Chiado: o oráculo das ilusões
Somos todos provincianos. Há pouco mais de uma hora, a sala da FNAC do Chiado estava tão à cunha que alguém teve de abrir a janela senão os admiradores do senhor escritor Paul Auster desfaziam-se em suores. Eram nove da noite, a hora a que estava marcado o encontro para ouvir o americano a falar, a dizer alguma coisa dos seus livros, pelo menos dos sete volumes que eu e a Carla temos aqui na estante, mesmo atrás de mim, entre o Ian McEwan e o Michael Cunningham.
O senhor escritor chegou vinte minutos atrasado. Como a sala já estava cheia pelo menos desde as oito e meia, a espera foi de 45 minutos para a maioria das pessoas. Quase todas em pé. Auster chegou. Aplausos. O editor da Asa pediu desculpas. "Agradeço em nome da Asa a vossa Presença", afirmou, sem notar a menção ao nome da concorrência. "E o sr. Paul Auster não vai falar porque está cansado". Ooooohh!
Bem, o senhor Auster disse uma frase ou duas, como por exemplo, que esta viagem a Lisboa tinha sido uma das melhores da sua vida. Que bom. Ou que não ia falar, porque lhe tinham dito que esta noite era só para assinar livros, e assiná-lo é isso mesmo, não mais do que uma assinatura: explicou que estava ali tanta gente, que não ia escrever uma dedicatória sequer, apenas o seu autógrafo, porque uma sessão de autógrafos é para assentar a grafia do autor, não é para dedicar, trabalho mais elaborado que exige cachets generosos e negociações demoradas.
Ora o povo agradecido perante tão magnânimo gesto, aplaudiu. Não apupou. Nem pateou. Ainda havia a possibilidade de possuir a assinatura daquele punho soberbo. A assinatura. Sem palestra. Sem dedicatória. Fomo-nos embora, eu e a Carla, envergonhados. Mesmo assim, fiquei com esta dúvida: é ele que é arrogante, presunçoso e desrespeitador dos que lhe permitem aquele modo de vida; ou somos nós todos pacóvios provincianos?
O senhor escritor chegou vinte minutos atrasado. Como a sala já estava cheia pelo menos desde as oito e meia, a espera foi de 45 minutos para a maioria das pessoas. Quase todas em pé. Auster chegou. Aplausos. O editor da Asa pediu desculpas. "Agradeço em nome da Asa a vossa Presença", afirmou, sem notar a menção ao nome da concorrência. "E o sr. Paul Auster não vai falar porque está cansado". Ooooohh!
Bem, o senhor Auster disse uma frase ou duas, como por exemplo, que esta viagem a Lisboa tinha sido uma das melhores da sua vida. Que bom. Ou que não ia falar, porque lhe tinham dito que esta noite era só para assinar livros, e assiná-lo é isso mesmo, não mais do que uma assinatura: explicou que estava ali tanta gente, que não ia escrever uma dedicatória sequer, apenas o seu autógrafo, porque uma sessão de autógrafos é para assentar a grafia do autor, não é para dedicar, trabalho mais elaborado que exige cachets generosos e negociações demoradas.
Ora o povo agradecido perante tão magnânimo gesto, aplaudiu. Não apupou. Nem pateou. Ainda havia a possibilidade de possuir a assinatura daquele punho soberbo. A assinatura. Sem palestra. Sem dedicatória. Fomo-nos embora, eu e a Carla, envergonhados. Mesmo assim, fiquei com esta dúvida: é ele que é arrogante, presunçoso e desrespeitador dos que lhe permitem aquele modo de vida; ou somos nós todos pacóvios provincianos?
29 abril 2005
Até não me importava de passar a noite em claro
Estranho o silêncio do Tiago sobre a vitória do Sporting contra o AZ Alkmaar. Estranho, pela mesma razão, o que levou o Martim Silva a exagerar em sentido contrário e a mudar o nome do seu blogue Mau Tempo no Canil para Bom Tempo no Canil, e a impingir-nos o emblema do clube no cabeçalho. OK, até compreendo o sentimento daqueles adeptos pouco habituados a ganhar. Dou um desconto, pois sofro pelo FCP, e habituei-me às glórias do meu clube, mas ontem dei por mim a torcer patrioticamente pelo Sporting. Já sei que me vou arrepender: quando os lagartos ganham, o que felizmente é raro, passo uma noite sem dormir embalado pelas cavalgaduras que passam por debaixo da minha janela, na rua do Arsenal, a caminho da Praça do Município e a cantar: "Só eu sei por que não fico em casa..."Pois se o Sporting ganhar desta vez (a UEFA, não o campeonato) vou cantar com eles também.
28 abril 2005
Ditadura segundo Arnaldo
"Temos uma ditadura. Chama-se democracia", disse por estes dias o camarada e grande educador do povo Arnaldo de Matos, ex-grande líder do MRPP, num debate sobre o 25 de Abril - conta-nos o jornalista Adelino Gomes no Público de hoje.
É claro que se mantém o interesse em ouvir estas velhas carcaças revolucionárias, do mesmo modo que o arqueólogo olha para a cerâmica em cacos. "A democracia é a mais suave das ditaduras", ensina-nos ele, cujo ideal seria quem sabe uma ditadura mais rija. O mundo de quem ainda pensa assim hoje é um gueto mental, onde também habitam os comunistas. A esquerda não é isto, nunca o devia ter sido. O camarada Arnaldo é uma velha pintura num mural de uma parede decrépita.
Mas não esqueçamos: foi ele que moderou alguns dos ímpetos mais revolucionários do jovem que hoje preside à Comissão Europeia, quando mandou o camarada Zé Manel devolver à procedência a mobília roubada ao presidente do Conselho Directivo da Faculdade de Direito...
É claro que se mantém o interesse em ouvir estas velhas carcaças revolucionárias, do mesmo modo que o arqueólogo olha para a cerâmica em cacos. "A democracia é a mais suave das ditaduras", ensina-nos ele, cujo ideal seria quem sabe uma ditadura mais rija. O mundo de quem ainda pensa assim hoje é um gueto mental, onde também habitam os comunistas. A esquerda não é isto, nunca o devia ter sido. O camarada Arnaldo é uma velha pintura num mural de uma parede decrépita.
Mas não esqueçamos: foi ele que moderou alguns dos ímpetos mais revolucionários do jovem que hoje preside à Comissão Europeia, quando mandou o camarada Zé Manel devolver à procedência a mobília roubada ao presidente do Conselho Directivo da Faculdade de Direito...
27 abril 2005
Casadebanhosferas
O Voz do Deserto faz esta curiosa referência: Escrevia Maria Filomena Mónica há umas semanas: "a maioria dos blogues são versões modernizadas do que dantes se escrevia nas paredes das casa de banho públicas". Ora, ao contrário de Mena Mónica, nem todos tivemos o privilégio de frequentar as casas de banho certas. Coisas de berços…
A luz municipal
A luz, numa das grandes janelas do edifício da Câmara Municipal e Lisboa, estava acesa ontem à noite, às onze horas, quando fui estacionar o carro. Pensei: será o Santana, será o Carmona? Aquele candelabro imenso e aceso dava a impressão de estar a alumiar alguém que trabalhava por nós. Que nos cuidava, uma coisa assim à la Salazar, a tratar do país, a bem da nação. Tirei o carro da rua Nova do Almada e estacionei-o no largo de São Julião. Quando passei na Praça do Município, as luzes já estavam apagadas. Fomos todos abandonados.
25 abril 2005
O regresso do velho CDS
A inesperada eleição de José Ribeiro e Castro como líder do CDS/PP autoriza-nos as seguintes conclusões:
1- Monteiro e Portas não mataram o velho CDS democrata-cristão.
2 - Afinal o CDS não é uma imagem reflectida de Paulo Portas, senão Telmo Correia e os portistas teriam ganho;
3 - Não há vencedores por antecipação;
4 - Nem sempre a gestão dos tabus dá bom resultado; muito menos quando o autor do tabu se anuncia como um homem comum e não como um prometido ou um providencial;
5 - O CDS é um partido desestruturado: a vitória de uma figura inesperada, contra a direcção que está, só é possível quando as estruturas de liderança intermédias são fracas;
6 - O candidato apoiado por Nobre Guedes ganha sempre; resta saber qual foi o papel de Paulo Portas junto do amigo Guedes nestes bastidores;
7 - Se, por ventura, Portas ajudou à vitória de Ribeiro e Castro contra Telmo, é porque estará de volta daqui a uns tempos...
1- Monteiro e Portas não mataram o velho CDS democrata-cristão.
2 - Afinal o CDS não é uma imagem reflectida de Paulo Portas, senão Telmo Correia e os portistas teriam ganho;
3 - Não há vencedores por antecipação;
4 - Nem sempre a gestão dos tabus dá bom resultado; muito menos quando o autor do tabu se anuncia como um homem comum e não como um prometido ou um providencial;
5 - O CDS é um partido desestruturado: a vitória de uma figura inesperada, contra a direcção que está, só é possível quando as estruturas de liderança intermédias são fracas;
6 - O candidato apoiado por Nobre Guedes ganha sempre; resta saber qual foi o papel de Paulo Portas junto do amigo Guedes nestes bastidores;
7 - Se, por ventura, Portas ajudou à vitória de Ribeiro e Castro contra Telmo, é porque estará de volta daqui a uns tempos...
24 abril 2005
A Queda: schadenfreude total
Fui ver a Queda ontem, o filme sobre os últimos dias de Hitler no bunker, na expectativa de assisitir à tal humanização do monstro nazi, disseminadora de discussões e de polémica pelo mundo. Mas não. No máximo, uma humanização de Hitler em vez da sua diabolização, far-nos-ia pensar que foi um homem, como nós, que foi capaz de todo aquele mal. E a humanidade deve ficar marcada por isso.
O que o filme nos deixa é uma noção ambígua da personagem: entre o homem, atingido pela doença cuja mão treme sem parar, que beija ternamente a sua cadela, que abraça e beija a amante diante dos generais, que é gentil para a secretária; e o que ele representa, a figura histórica, o louco, que lança o povo para a morte, que não vê a destruição que semeou à sua volta, que nem respeita os que dão a vida por ele. Entre as duas visões, a humana e a histórica, sobrepõe-se a segunda: o culto da morte entre os nazis evidencia-se não pela morte de outros (não se fala ali do Holocausto), mas pela morte de si mesmos, seja pelos suicídios, seja pelas mortes infligidas por uma mãe de gelo a todos os seus filhos, seja pelas mortes dos berlinenses.
O mal absoluto está ali presente nas relações entre os próprios nazis e no sofrimento infligido ao povo alemão, com esta ironia: no fim de tudo, Hitler culpa o volk - o civilizado povo alemão que se deixou arrastar para barbárie nazi - pela derrota na guerra. Porque foi fraco.
Aqui sim, pode ver-se alguma catarse. Raramente os alemães aparecem como as vítimas. Neste caso, partilham o sofrimento com aqueles que fizeram sofrer, embora haja aqui lugar a uma sensação que uma palavra alemã define na perfeição: schadenfreude, o prazer de ver a desgraça dos outros, neste caso, o prazer mórbido de ver o que aconteceu aos nazis, sem qualquer hipótese de redenção.
O que o filme nos deixa é uma noção ambígua da personagem: entre o homem, atingido pela doença cuja mão treme sem parar, que beija ternamente a sua cadela, que abraça e beija a amante diante dos generais, que é gentil para a secretária; e o que ele representa, a figura histórica, o louco, que lança o povo para a morte, que não vê a destruição que semeou à sua volta, que nem respeita os que dão a vida por ele. Entre as duas visões, a humana e a histórica, sobrepõe-se a segunda: o culto da morte entre os nazis evidencia-se não pela morte de outros (não se fala ali do Holocausto), mas pela morte de si mesmos, seja pelos suicídios, seja pelas mortes infligidas por uma mãe de gelo a todos os seus filhos, seja pelas mortes dos berlinenses.
O mal absoluto está ali presente nas relações entre os próprios nazis e no sofrimento infligido ao povo alemão, com esta ironia: no fim de tudo, Hitler culpa o volk - o civilizado povo alemão que se deixou arrastar para barbárie nazi - pela derrota na guerra. Porque foi fraco.
Aqui sim, pode ver-se alguma catarse. Raramente os alemães aparecem como as vítimas. Neste caso, partilham o sofrimento com aqueles que fizeram sofrer, embora haja aqui lugar a uma sensação que uma palavra alemã define na perfeição: schadenfreude, o prazer de ver a desgraça dos outros, neste caso, o prazer mórbido de ver o que aconteceu aos nazis, sem qualquer hipótese de redenção.
22 abril 2005
Viva o stresse!
Tenho em cima da minha secretária um livrinho amarelo que me quer ensinar "Como controlar eficazmente o stress". Mais importante do que isso: "Numa semana". O canhenho conselheiro foi a oferta de uma edição do Jornal de Negócios. Ora, como posso eu controlar o stresse (agora é assim que se escreve) e trabalhar ao mesmo tempo? Sem stresse adormeço, morro-me, amoleço, dá-me cá uma lãnzeira, uma modorra chaparrenta que não dá pra fazer nada senão cultivar memoráveis sestas à sombra. Viva o stresse, a adrenalina, o combustível da nossa reacção ao mundo que nos faz viver e nos mata.
O cisma lisboeta
Seis vereadores do PSD da Câmara de Lisboa foram ontem à S. Caetano protestar junto de Marques Mendes, por ter sido Carmona Rodrigues o candidato escolhido pela direcção do PSD e Santana Lopes o preterido. Imaginamos o clima que se vive na Praça do Município, onde os dois "amigos" partilham staff e responsabilidades, e onde um grande cartaz anuncia "A Rolha", uma exposição de Bordalo Pinheiro muito adequada ao ridídulo do momento...
20 abril 2005
Zita, missão abortiva
Marques Mendes cometeu hoje o seu primeiro erro, ao pôr Zita Seabra a discursar contra o aborto no Parlamento. A não ser pelo mais puro cinismo de se resguardar a si mesmo e aos seus, não era de esperar que um parlamentar tão experiente lançasse para o campo da batalha a mesma pessoa que tinha andado aos tiros do outro lado da trincheira, quando a disputa era a mesma. Foi ridículo ouvir Zita Seabra defender o contrário do que tinha dito há anos, naquele mesmo lugar. Transformou-se em saco de boxe. Era previsível.
Mendes venceu o Congresso do PSD defendendo que o partido tinha de ser credível; mas Zita nunca teria credibilidade nem podia ser levada a sério numa situação destas. Um tiro. um melro.
A outra irresponsabilidade, para não dizer má fé, é o PS lançar o tema do referendo ao aborto neste momento, sabendo que Jorge Sampaio mal tem margem no calendário para o convocar, e que o PSD não aprovará a simultaneidade do referendo europeu com as autárquicas se a consulta ao aborto for a primeira. Caso o referendo for em Julho, como obriga o facto de haver autárquicas em Outubro, a participação será baixa, já se sabe. Com tão pouco tempo de preparação, a discussão será fraca e pouco séria, já se sabe. As vítimas continuarão a ser as mesmas, as mulheres, claro, já se sabe. A falta de honestidade intelectual neste país não tem emenda...
Mendes venceu o Congresso do PSD defendendo que o partido tinha de ser credível; mas Zita nunca teria credibilidade nem podia ser levada a sério numa situação destas. Um tiro. um melro.
A outra irresponsabilidade, para não dizer má fé, é o PS lançar o tema do referendo ao aborto neste momento, sabendo que Jorge Sampaio mal tem margem no calendário para o convocar, e que o PSD não aprovará a simultaneidade do referendo europeu com as autárquicas se a consulta ao aborto for a primeira. Caso o referendo for em Julho, como obriga o facto de haver autárquicas em Outubro, a participação será baixa, já se sabe. Com tão pouco tempo de preparação, a discussão será fraca e pouco séria, já se sabe. As vítimas continuarão a ser as mesmas, as mulheres, claro, já se sabe. A falta de honestidade intelectual neste país não tem emenda...
O significado do latim
Foi em latim, a primeira homilia de Bento XVI, na Capela Sistina. Isto como premonição de um futuro próximo não deixa antever nada de bom. Ao usar a língua morta no momento de um discurso que devia ser inteligível - e logo na sua primeira celebração pública -, Joseph Ratzinger faz adivinhar a morte de outras coisas que ainda estão vivas, como a esperança de a Igreja compreender o mundo em que vive.
Nem as lições de latim que tive no liceu, nem todos os anos de catequese, me ajudam a perceber o significado das palavras do novo Papa. Mas penso saber qual o significado de ter falado nessa língua que poucos entendem.
Nem as lições de latim que tive no liceu, nem todos os anos de catequese, me ajudam a perceber o significado das palavras do novo Papa. Mas penso saber qual o significado de ter falado nessa língua que poucos entendem.
19 abril 2005
Fumo negro: habemus papam
Afinal o novo Papa não é português, Guterres ficou aliviado e o caminho para as Nações Unidas continua livre (vide post anterior). Mas preocupai-vos, almas crentes, que o Espírito Santo que ilumina os cardeais eleitores escreveu torto por linhas tortas. O alemão Ratzinger, guardião da ortodoxia religiosa, não será bom augúrio para o futuro do mundo. Foi tão negro o fumo branco que saiu da Capela Sistina...
O Quinto Império
A hipotética eleição de D. José Policarpo como Papa está a preocupar os socialistas, embora isso nada tenha a ver com a ala republicana e jacobina do PS, mas sim com a católica. Vejamos: com um português, Durão Barroso, à frente da Comissão Europeia, com um Papa a mandar no Vaticano e a influenciar milhões de fiéis, António Guterres tem a carreira arruinada. A sua candidatura ao ACNUR (das Nações Unidas) ficará em risco, pois apesar de merecerem, os portugueses não podem passar a mandar assim no mundo, que já lá vai o tempo do mare nostrum. Porém, a confirmarem-se todas as eleições de compatriotas (descontando o facto de Teresa Heinz Kerry não ter conseguido entrar na casa Branca), talvez comece aqui um certo Quinto Império...
A Sorte Grande
Portugal é o país da Europa onde se gasta mais dinheiro per capita com o Euromilhões, conta hoje uma notícia no Público. Não admira que logo a seguir venha o Luxemburgo, tão habitado pelos portugueses. Isto é revelador do povo que somos. Esta confiança na sorte, no destino, no estar à espera que algo de exterior a nós, e ao nosso esforço, nos aconteça para mudarmos de vida, é que nos vai alimentando os azares aos poucos. Ai se me saísse a Sorte Grande...
14 abril 2005
Paga-Pouco para ver a Sónia Braga semi-nua...
A propósito do post "Era uma vez ao pé da carpintaria do meu avô", o meu amigo Nóbua, conterrâneo e camarada de profissão, deixou este comentário delicioso, uma memória guardada como se fosse uma peça rara:
O Paga Pouco viveu momentos gloriosos. Há época era uma cadeia de lojas de relativa dimensão, principalmente a Sul do país e com uma estratégia de marketing agressivo. Por isso foi com grande fervor que uma multidão ocupou a Praça D. Jorge de Lencastre para ver a Sónia Braga, protagonista da Gabriela Cravo e Canela, à janela do primeiro andar do Paga Pouco, que não por acaso era a habitação do senhor Feio e da sua família. Eu, como era amigo do Toninho Barateiro, filho mais novo do senhor Feio, tive o privilégio de ser convidado para assistir ao 'hapening' de dentro de casa. E, confesso, vi a Sónia Braga mudar de roupa no quarto da mana do Toninho, já que a porta estava (ou foi!) entreaberta. É que atrás de uma memória, outras memórias hão-de vir...
Meu caro amigo: também eu, em frente ao Paga-Pouco, do outro lado da Farmácia Pablo, me lembro de ter ficado deslumbrado, pela mão da minha avó Mariana, ao esperar outra estrela brasileira dos finais de 70. Devia ter uns cinco ou seis anos. Esperámos, mas ela chegou, a Dona Xepa, num carro com tecto de abrir, a acenar ao povo. Felizmente, não a conheci na intimidade. O Toninho Barateiro não era parvo...
O Paga Pouco viveu momentos gloriosos. Há época era uma cadeia de lojas de relativa dimensão, principalmente a Sul do país e com uma estratégia de marketing agressivo. Por isso foi com grande fervor que uma multidão ocupou a Praça D. Jorge de Lencastre para ver a Sónia Braga, protagonista da Gabriela Cravo e Canela, à janela do primeiro andar do Paga Pouco, que não por acaso era a habitação do senhor Feio e da sua família. Eu, como era amigo do Toninho Barateiro, filho mais novo do senhor Feio, tive o privilégio de ser convidado para assistir ao 'hapening' de dentro de casa. E, confesso, vi a Sónia Braga mudar de roupa no quarto da mana do Toninho, já que a porta estava (ou foi!) entreaberta. É que atrás de uma memória, outras memórias hão-de vir...
Meu caro amigo: também eu, em frente ao Paga-Pouco, do outro lado da Farmácia Pablo, me lembro de ter ficado deslumbrado, pela mão da minha avó Mariana, ao esperar outra estrela brasileira dos finais de 70. Devia ter uns cinco ou seis anos. Esperámos, mas ela chegou, a Dona Xepa, num carro com tecto de abrir, a acenar ao povo. Felizmente, não a conheci na intimidade. O Toninho Barateiro não era parvo...
11 abril 2005
Comprei quatro livros do Emílio Salgari num alfarrabista ambulante do Príncipe Real. Dizer que comprei uma máquina do tempo por quatro euros é um exagero de linguagem e um lapso sentimentalista indigno dos duros e aventureiros personagens do escritor italiano. Limito-me por isso a transcrever o início do primeiro:
Ao romper do sol, com a maré alta, entre o rufar dos tambores e o som dos pífanos, o tiroteio dos bucaneiros e os hurrahs estrepitosos, saía do porto a expedição, sob o comando do Olonês, do Corsário Negro e de Miguel o Vascongado.
A expedição compunha-se de oito navios armados de oitenta-e-seis canhões, dezasseis dos quais embarcados no navio do Olonês e doze no Relâmpago, e tripulados por seiscentos-e-cinquenta corsários e bucaneiros.
O Relâmpago, sendo o navio mais veloz, navegava à frente da esquadra, servindo de explorador.
Parece que mais uma vez, por algumas horas, também farei parte da tripulação.
Ao romper do sol, com a maré alta, entre o rufar dos tambores e o som dos pífanos, o tiroteio dos bucaneiros e os hurrahs estrepitosos, saía do porto a expedição, sob o comando do Olonês, do Corsário Negro e de Miguel o Vascongado.
A expedição compunha-se de oito navios armados de oitenta-e-seis canhões, dezasseis dos quais embarcados no navio do Olonês e doze no Relâmpago, e tripulados por seiscentos-e-cinquenta corsários e bucaneiros.
O Relâmpago, sendo o navio mais veloz, navegava à frente da esquadra, servindo de explorador.
Parece que mais uma vez, por algumas horas, também farei parte da tripulação.
Análise de conteúdo
A Alexandra Lencastre aparece num novo anúncio televisivo. De cai-cai frente a um espelho de camarim, que tem uma pequena fotografia com duas crianças num dos cantos, profere a frase enigmática: «-Minhas queridas, quem sabe onde estaremos daqui a vinte anos?» Já vi o anúncio várias vezes e ainda não consegui perceber se ela está a falar para as meninas da fotografia ou para os seus próprios seios. Em qualquer dos casos, não deve ser muito difícil dar-lhe uma resposta: umas andarão certamente na universidade, as outras estarão como o Prof. Lidenbrock, numa viagem ao centro da Terra.
07 abril 2005
Era uma vez, ao pé da carpintaria do meu avô Hermes...
O meu avô Hermes, pai da minha mãe, era carpinteiro em Grândola, numa rua ao pé do Largo D. Jorge de Lencastre. A rua, que subia da praça (ou mercado), terminava numa esquina, na loja do Paga-Pouco. Estas memórias geográficas dos lugares onde brinquei ganham nitidez sempre que regresso. Paga-Pouco, talvez não muito, porque a loja foi crismada de "Barateiro". Vou ali ao "Barateiro", dizia a minha avó Mariana. Ou então: "Vamos à do Feio". O senhor Feio, que de facto nada tinha de bonito, era o barateiro que trabalhava no Paga-Pouco.
Adiante, havia a loja do sr. Bento, que vendia envelopes, selos e papel azul de 25 linhas. A poucos metros dali, onde o meu avô me mandava comprar maços de Provisórios, cheirava a cabedal a loja do sr. Décio (que ainda lá está), mais os artigos de caça e pesca, uma registadora gigante, e as conversas dos homens, tiro na lebre e pargos do tamanho de espadartes.
Mas o melhor era a Farmácia Pablo, fundada em 1901, com ares de 1901, onde o Rosa cheirava a vinho, com ares de 1950 e brilhantina no cabelo. Em frente ao balcão, três cadeiras de madeira, daquelas com o coração recortado nas costas, onde os velhos se sentavam à conversa: o meu avô, um campeão de bilhar, um padre, outros. Havia sempre freguesia a trocar conversa. Em cima do balcão, lá estava a balança, onde vi tantas vezes o meu irmão Rui a ser pesado quando bebé, e onde eu também o tinha sido. Ao lado, um velho reclame da Nestlé, uma relíquia gasta, anunciando umas papas já muito antigas, com um bebé pendurado no bico de uma cegonha.
Ora há pouco mais de uma semana dei que o Rosa já não lá estava. Um computador, grande novidade ao balcão, e nem rasto de cegonha. A imagética na qual eu acreditara desapareceu. Restavam as três cadeiras vazias com o coração. O Largo D. Jorge de Lencastre mudara: a Ludoteca é um edifício belíssimo, diante da qual nasceu um hotel de charme; o Décio lá está, mas, frente-a-frente, dois edifícios disputam o significado da mudança dos tempos. A antiga sede do PPD (histórica igreja e velho cinema), que era um prédio decandente, resplandescia com uma pintura nova; do outro lado do largo, a sede do PCP, dantes o único edifício em condições naquele lugar, é hoje o único a precisar de pintura nova...
Adiante, havia a loja do sr. Bento, que vendia envelopes, selos e papel azul de 25 linhas. A poucos metros dali, onde o meu avô me mandava comprar maços de Provisórios, cheirava a cabedal a loja do sr. Décio (que ainda lá está), mais os artigos de caça e pesca, uma registadora gigante, e as conversas dos homens, tiro na lebre e pargos do tamanho de espadartes.
Mas o melhor era a Farmácia Pablo, fundada em 1901, com ares de 1901, onde o Rosa cheirava a vinho, com ares de 1950 e brilhantina no cabelo. Em frente ao balcão, três cadeiras de madeira, daquelas com o coração recortado nas costas, onde os velhos se sentavam à conversa: o meu avô, um campeão de bilhar, um padre, outros. Havia sempre freguesia a trocar conversa. Em cima do balcão, lá estava a balança, onde vi tantas vezes o meu irmão Rui a ser pesado quando bebé, e onde eu também o tinha sido. Ao lado, um velho reclame da Nestlé, uma relíquia gasta, anunciando umas papas já muito antigas, com um bebé pendurado no bico de uma cegonha.
Ora há pouco mais de uma semana dei que o Rosa já não lá estava. Um computador, grande novidade ao balcão, e nem rasto de cegonha. A imagética na qual eu acreditara desapareceu. Restavam as três cadeiras vazias com o coração. O Largo D. Jorge de Lencastre mudara: a Ludoteca é um edifício belíssimo, diante da qual nasceu um hotel de charme; o Décio lá está, mas, frente-a-frente, dois edifícios disputam o significado da mudança dos tempos. A antiga sede do PPD (histórica igreja e velho cinema), que era um prédio decandente, resplandescia com uma pintura nova; do outro lado do largo, a sede do PCP, dantes o único edifício em condições naquele lugar, é hoje o único a precisar de pintura nova...
Fui pela primeira vez ao Turim, um pequeno cinema na cave de um centro comercial de primeira geração, no centro de Benfica. As cadeiras de napa cheiravam a pronto e as cortinas que cobriam a tela pareciam claramente ter sido costuradas pela senhora de meia-idade que, com alguma má-vontade, nos mostrou os lugares. Antes da sessão comi uma tosta mista numa pastelaria suburbana da zona. Embora não consiga racionalizar completamente a relação, sinto que estou preparado para ler mais um romance do Lobo Antunes.
04 abril 2005
«A Cara que Mereces», Miguel Gomes
Quem nunca teve depressão de aniversário pode achar estranho que um homem de trinta anos crie sete amigos imaginários para o ajudarem a ultrapassar uma crise de sarampo. Gross, Texas, Simões, Harry, Travassos, Nicolau e mais um (não me lembro do nome) reconstroem os jogos, os medos e as rígidas hierarquias infantis numa casa de floresta, comprovando que aos trinta anos o desfasamento entre a idade real e a percepção da idade é um abismo sem pontes.
01 abril 2005
Requiem: transmissão para todo o Portugal
A emissão especial sobre a morte do Papa mantém-se há horas, embora o homem ainda esteja vivo. A transmissão da SIC Notícias é um negro exercício. Esperam eles, esperamos todos, que um ser humano finalmente morra. Aguardamos o quê? O anúncio do pivot: "O Papa morreu. Já é oficial", dirá ele, nem sei bem com que expressão. "Obrigado por nos ter acompanhado nesta emissão..." Se ele não morrer durante a emissão deviam despedir o director de programas.
Esperar uma morte de alguém... Agora o pivot fala da morte inevitável de João Paulo II. A morte inevitável de todos nós, a morte inevitável de cada um também merecia uma emissão especial. Estamos todos condenados à morte, a seu tempo, um dia destes. A nossa maior ofensa foi termos nascido. Como é que a vida pode não ser criminosa, quando é sempre seguida do castigo capital?, perguntava-se Schopenhauer. Cada um de nós tem a sua morte inevitável, e o pivot da televisão também. Ou isto é mais uma perversão mediática ou somos todos perversos.
PS: Eu estou é irritado porque estou à espera de ver o debate entre o Mendes e o Menezes que devia ter começado há hora e meia...
Esperar uma morte de alguém... Agora o pivot fala da morte inevitável de João Paulo II. A morte inevitável de todos nós, a morte inevitável de cada um também merecia uma emissão especial. Estamos todos condenados à morte, a seu tempo, um dia destes. A nossa maior ofensa foi termos nascido. Como é que a vida pode não ser criminosa, quando é sempre seguida do castigo capital?, perguntava-se Schopenhauer. Cada um de nós tem a sua morte inevitável, e o pivot da televisão também. Ou isto é mais uma perversão mediática ou somos todos perversos.
PS: Eu estou é irritado porque estou à espera de ver o debate entre o Mendes e o Menezes que devia ter começado há hora e meia...
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