15 fevereiro 2005

A empregabilidade de Portas - Debate X

A proposta de Portas sobre a empregabilidade das escolas até faz sentido. Ligar o sistema de ensino ao número de postos de trabalho criados em cada área. Bem, as pessoas ficavam a saber pelo menos ao que iam.

Sócrates e la Palisse - debate IX

O que o PS não quer é aumentar o número de pré-reformas. Alguém seria capaz de defender o contrário?
Agora voltou a dizer algumas banalidades sobre educação que jamais alguém seria capaz de contradizer. Alguém é contra a redução do insucesso escolar para metade nos próximos quatro anos?

A clarificação de Portas - Debate VIII

Portas não é a favor do aumento da idade da reforma. Como é que a coligação negociou isto? É a piscadela de olho ao eleitorado tradicional?

Pormenores técnico-tácticos - o Debate VII

É curioso que Louçã e Portas sejam os mais semelhantes: discurso claro, com objectivos claros. Santana e Sócrates parecem abatidos e pouco entusiasmados com o facto de virem a ser, ou não, os próximos governantes. Têm falta de entusiasmo. Jerónimo está de rastos, mas a atitude do operário é heróica e humilde (isto vai dar-lhe votos).

Deus é o culpado pelo aumento da idade da reforma - o debate VI

Sanatana replica: defende mesmo o aumento progressivo da idade da reforma. É o que se fica a perceber, porque "graças a Deus a esperança média de vida aumentou".

Mais estudos socialistas - o Debate V

Sócrates promete mais um estudo sobre a segurança social, para depois decidir, se não for preciso fazer mais estudo nenhum.... "Não há qualquer indicação que a sustentabilidade da segurança social esteja em causa para amanhã", diz ele. Preocupemo-nos mais tarde. Por agora, antes dos estudos, o PS não vai mexer no limite da idade da reforma.

A nova coligação - o Debate IV

A coligação já está a funcionar: Sócrates a pedir a Santana para responder à questão de Louçã sobre a banca.

As gravatas - o Debate III

Santana está de gravata preta. Portas, depois de ter dado uma conferência de imprensa com o pescoço enlaçado de negro, agora leva uma gravata azul berrante. Passou-lhe o luto pela vidente. Não é suposto que estas coisas façam sentido.

E Jerónimo falou... o Debate II

Já retomou o lugar e a fala para defender os textêis portugueses, depois de ter sido assistido fora das quatro linhas. Jerónimo de Sousa teve azar. Uma lesão em campo é sempre um grande azar.

Junta a tua à nossa voz... - o Debate I

Campanhas de Inverno são complicadas para a garganta dos candidatos. O camarada Jerónimo acabou de perder o pio no debate da RTP. A cassete pifou. Não conseguiu falar. Perdeu a voz. Não tem voz para juntar à dos outros. Neste caso, recomendava-se um pouco mais de colectivismo: o camarada mexia a boca e um pequeno comité podia falar por ele. Até já.

A mão, o pote e o mel

No domingo, Santana disse: "O que eu tenho passado é porque toquei na ferida, meti a mão no pote de mel e saltaram as vespas. Conhecem algum primeiro-ministro que tenha dito aos senhores da banca: vão pagar mais do dobro do que antes pagavam?" No dia seguinte a esta edificante metáfora (ontem, com o cancelamento da campanha), Jardim Gonçalves, presidente do Millennium BCP foi recebido em São Bento. Ou um quis pedir desculpas. Ou o outro foi dar uma ferroada na mãozita que se lhe meteu pelo pote (vulgo puxão de orelhas, protesto veemente, etc.). Ou estamos a ver aquele filme cego do César Monteiro, sem imagens. Como coinciências destas não há, seria bom que alguém esclarecesse a que se deveu a tão urgente reunião.
Muitas das promessas de Sócrates (perdão, metas, objectivos) têm por detrás o pressuposto de um crescimento da economia ao ritmo de três por cento ao ano, admitiu o próprio na entrevista de ontem ao Público e à Renascença. Como esta base de sustentação das políticas do PS não depende do Governo, isto é excesso de optimismo ou de cautela. Quem criticou Santana por ter baseado o seu Orçamento do Estado de 2005 na premissa de um crescimento económico anual de 2,4% devia ter mais cuidado. No estado em que as coisas estão, falta a isto tudo um bocado de pessimismo ou de realismo, pelo menos para não sermos todos enganados.

12 fevereiro 2005

Espelho mau, espelho mau - XVI

É-lhe impossível existir sem inimigos. Sem poder manifestar-se contra. Agora é a comunicação social, tão útil em tantos momentos, tão utilizável, o maior dos seus adversários, porque não o leva ao colo. Pedro Santana Lopes apostou ontem na vitimização, mais uma vez menino guerreiro, num tom irritado que nunca se lhe tinha visto. Santana cria os seus próprios moinhos de vento, sem perceber que o seu maior inimigo vive dentro de si.

Santana Lopes, o incumbente, aquele que detém o poder, comporta-se como sempre se comportou: como um challenger, como um opositor, porque ele foi formado nessa escola, porque ele é só emoção, porque não consegue olhar para a política sem ser de forma adversarial. Foi adversário de Balsemão, de Cavaco, de Nogueira, de Marcelo, de Durão. É claro que é mais complicado ser-se adversário de si mesmo, mas através de uma análise mais profunda, um psicólogo explicaria melhor as tensões que vão no íntimo desta interessante criatura.

11 fevereiro 2005

Já tinha avisado uns bons posts abaixo que a campanha ia ser suja. o caso Sócrates/Freeport aí está para o demonstrar. O timming foi implacável. Esperemos pelos próximos "casos".

10 fevereiro 2005

Espelho mau, espelho mau - XV

O despudor chega a ser irritante. Depois de ter convidado os jornalistas para um café em São Bento porque ia fazer uma declaração que não fez, Santana Lopes disse ontem o seguinte: "Nunca vi adversários incomodados por outro, durante dois dias, não fazer campanha, no Carnaval". Se aparecer com os filhos à beira da piscina, passear pelos jardins da residência oficial não é campanha é o quê? A conversa com os jornalistas apenas sobre a campanha, na sede da chefia do Governo, se não é campanha é o quê?

08 fevereiro 2005

Espelho mau, espelho mau - XIV

Body Language. Em fuga do Carnaval, Santana esteve sentado hoje, em S. Bento, a falar com os jornalistas, inclinado para a frente, a gravata verde a cair-lhe pelas virilhas, recostado depois para trás de perna aberta, displicente, a ler um recorte de jornal com má dicção, extraordinário. A linguagem corporal do sr. Lopes não diz tudo sobre ele, mas revela muito. A maneira como o primeiro-ministro aparece ali relaxado na cadeira do poder, sem maximizar os respectivos símbolos - o que só reverteria a favor dele -, através de alguma solenidade e respeito, mostra quem é Santana Lopes. Um rapazola no corpo de um homem. Um imaturo à frente de um país a cair de maduro. Pior do que há vontade, à vontadinha. A política não está nada mais bonita...

Elogio do palavrão

"Há exclamações que laxam a alma, que a descarregam das opilações timpaníticas".

Camilo Castelo Branco escreveu esta frase n' A Corja (1880), continuação do romance Eusébio Macário (1879), depois de contar que o padre Justino tinha dito "uma palavra obscena, muito repreensível" pronunciada "carregando muito nos rr".

Ninguém surge do nevoeiro porque está um sol dos diabos

Ainda não li os programas dos partidos, mas tenho esperança que depois a esperança se me acenda. Andamos há dias nisto. Nem uma novidade sobre o futuro do país. Discute-se o destino com base na anunciada mudança de aristocracia partidária no poder; o que importa é saber se haverá maioria ou acordos parlamentares à esquerda. E o futuro? Isto somos todos nós atados por um fio invisível a seguir um carro alegórico onde cada dançarino quer convencer-nos de ser o melhor.

Retenho umas promessas vagas (os tais objectivos) de José Sócrates, mas não consigo entender o conjunto. O homem não se desvia um milímetro do discurso dos cartazes, não arrisca um rasgo sobre o que seja. Mau de prever, este destino próximo da nação, mesmo com um sol tão radioso e um ar político tão transparente (Santana é o que é e Sócrates também). Em Portugal, sem nevoeiro no horizonte, quando não estamos na presença de Sebastião nenhum, tudo é translúcido: como toda a gente vê o que está à sua frente, perde-se a esperança. O meu desejo? Que me fizessem acreditar. Não tanto num futuro radioso, mas num certo futuro. Naquele ali. Andam a querer comprar-nos o voto à borla sem se comprometerem com a paga. Tenho de ler os tais programas para depois não me esquecer de o cobrar.

06 fevereiro 2005

Irão: o alvo que se segue

O próximo alvo de Bush é o Irão, e o Pentágono já está a tratar da guerra. No discurso sobre o Estado da União, na quinta-feira, o Presidente americano disse: "Hoje o Irão é o principal promotor de terror no mundo, procurando armas nucleares e privando a população da liberdade que procura e merece". No dia seguinte, em Londres, a secretária de Estado, Concoleezza Rice, afirmou que um ataque dos EUA ao Irão "não está na agenda neste momento", deixando em aberto a existência de caminhos diplomáticos a explorar. Não está "neste momento". Estas subtilezas discursivas são de toda a importância.

Esta retórica faz lembrar a do Iraque. Quem já leu o livro de Bob Woodward, "Plan of Attack" sabe que um ou dois meses após o 11 de Setembro de 2001, Donald Rumsfeld já estava a trabalhar num plano para invadir o Iraque de forma rápida e barata. No entretanto, Bush dizia que não tinha planos de guerra em cima da secretária. Mas eles estavam na sua gaveta.

O mesmo acontece agora. Seria normal que os militares norte-americanos actualizassem os planos de contingência em relação ao Irão, nem que fosse por uma questão de planeamento rotineiro. Mas a história de Seymour M. Hersh - o mesmo jornalista que descobriu o escândalo de Abuh Grahib -, publicada na revista New Yorker, a 24 de Janeiro, é eloquente: "A administração tem estado a conduzir missões secretas de reconhecimento dentro do Irão pelo menos desde o último verão", escreve o repórter com base em fontes da CIA e do Pentágono. O objectivo destas acções, feitas à margem da fiscalização do Senado, é obter informações sobre potenciais alvos, como instalações nucleares, laboratórios químicos e locais lançamento de mísseis, com duas finalidades: ou um ataque rápido e preciso a estes alvos, ou uma invasão através do Iraque e do Afeganistão. Uma coisa é certa: os neoconservadores do Pentágono não querem cometer os mesmos erros de intelligence que deitaram a credibilidade da invasão do Iraque a perder.

Devemos estar preparados. Se a Europa não obtiver ganhos diplomáticos junto do Irão, o que não será fácil, Bush voltará a atacar. Ele já avisou. E desta vez até foi mais claro do que quando falou do "eixo do mal", noutro discurso que ficou famoso. Nessa altura não sabíamos, mas os planos para invadir o Iraque já estavam bem avançados.

Espelho mau, espelho mau - XIII

"Assim se vê, a força do ... PP!!" Esta bizarria soa mal. No comício do CDS, ontem, no Palácio de Cristal, no Porto, ouvimos o vice-presidente do CDS, António Pires de Lima, a gritar o velho slogan comunista ao microfone. Um partido conservador e anti-comunista como o de Paulo Portas devia evitar o uso das palavras de ordem dos seus maiores inimigos políticos. Portas já se deve ter esquecido de quando era cabeça de lista às europeias, em 1999, e dizia para a direita não votar no biógrafo de Álvaro Cunhal, Pacheco Pereira, líder da lista do PSD. Então por que há-de um cidadão ficar mais convencido a votar num PP que usa o verbo do PCP? Qualquer dia ouvimos Portas a dizer que "o povo unido jamais será vencido!!" Nunca se sabe...

O apelo de Nobre Guedes (na quinta-feira) à população de Coimbra para não deixar José Sócrates entrar na cidade, mostra o carácter anti-democrático do dirigente do CDS/PP. Basta raspar um pouco do verniz de cavalheiro inglês (como os amigos o qualificam), para aparecerem estes traços de intolerância política. Assim, não admira que usem slogans do PCP na campanha. Estão uns para os outros: os que cercaram o Palácio de Cristal há 30 anos e os que estavam lá dentro.
Recebi um panfleto do PDA (Partido Democrático do Atlântico) na minha caixa do correio onde é proibido depositar publicidade. "Somos o Centro Liberal, queremos eleger apenas 10 deputados", diz a propaganda do partido açoriano. O ridículo não mata...

04 fevereiro 2005

Debate: não errar é uma virtude que sabe a pouco

Quando as coisas andam tão mal na política, um debate onde nenhum dos candidatos comete um erro grave já é uma vitória. Mas que não deixa de ser anódina. Se o fiel da balança eleitoral vão ser os indecisos, então este frente-a-frente de pouco serviu: José Sócrates estava demasiado tenso e não explicou o "como" das suas principais propostas, mas teve um discurso mais objectivo; Santana Lopes não conseguiu passar a ideia de que tinha um programa articulado para o país - foram poucas as ideias que me ficaram na memória -, e embrulhou-se demasiadas vezes numa retórica pouco clara.

A clivagem esquerda/direita também esteve tão esbatida que Sócrates até teve de dizer "eu sou socialista" (faltou-lhe o "até"), enquanto Santana mostrou um liberalismo inesperado sobre questões civilizacionais, ao admitir a eutanásia em certos casos e o aprofundamento das leis das uniões de facto.

A maior surpresa do debate foi mesmo Santana Lopes: tendo em conta os últimos meses, o facto de não ter cometido qualquer deslize grave já foi muito positivo (apesar do contorcionismo na conversa dos colos). A contenção de Sócrates à espera que o adversário se espalhasse desta vez não funcionou. Santana, por mais gelatinoso que seja politicamente, ainda não esqueceu o que sabe de televisão.

03 fevereiro 2005

Espelho mau, espelho mau - XII

Pois ontem calhou-me na sorte receber um panfleto do CDS/PP com a fotografia do "competente" dr. Portas na caixa do correio onde ostento, bem visível, o autocolante criado pelo eng. Sócrates há uns anos "Publicidade aqui não! Obrigado". A competente brochura, com o Paulo (versão ministro responsável) fotografado de frente, gravata grossa de nó lasso e camisa azul, com casado de griffe por cima a compor, estava colocada por cima dos papelacos enfiados à má fila por outros prevaricadores do autocolante socrático: o papelito do Paulinho misturou-se ali com as publicitações de hambúrgueres do MacDonald's, com pizzas variadas, mas sobretudo com os anúncios sempre tão úteis de canalizadores e técnicos especializados no arranjo de esquentadores, cujos são de uma simpatia que junto enviam os respectivos telemóveis.

Ora eu, bem vistas as coisas, até já nem me irrito com o facto de me desrespeitarem o autocolante proibitivo, sobretudo se for para me darem de comer ou para me arranjarem os electrodomésticos. Mas o dr. Sacadura Cabral não se inclui em nenhuma destas categorias e não fornece o telefone, o que me deixa aflito se precisar de um conserto no frigorífico ou na máquina de lavar. Vou fazer queixa ao Instituto do Consumidor, alegando invasão de privacidade e coacção, com dolo, para consumir um determindo produto de plástico indigesto.

02 fevereiro 2005

O brasão da minha terra tem um javali gordo a saltar um ribeiro. Por causa desta imagem, símbolo de Grândola, passei a infância a sonhar com grandes montadas a esse animal tão extinto que nenhum velho se lembrava de alguma vez ter lá visto um. Este fim-de-semana, o filho do vizinho dos meus pais atropelou um javali na estrada, 90 quilos, bom porte, dentição afiada, pêlo de arame, um belo animal. Espatifou o carro, e só não se matou porque não calhou, aquilo foi uma sorte no duplo sentido. O meu pai, especialista alentejano no desmancho de porcos, lá foi de faca afiada talhar a carne do bicho. E eu, mesmo sem ter feito nada, trouxe para Lisboa um quinhão de febras e lombo, como se fosse uma matéria preciosa. Comer javali atropelado é uma forma pouco empolgante de satisfazer um sonho de criança: caçar um lá na serra, isso é que havia de ser uma aventura. Pelo menos agora não estão em vias de extinção. Tão misteriosamente como desapareceram, estão a tornar-se uma praga para os agricultores.
Vou inscrever-me na natação. Pediram-me, entre outras coisas, quatro fotografias. Mas esqueci-me de perguntar se são em fato de banho, com óculos e touca de natação, para me poderem reconhecer na piscina. É que se for assim, vai ser um pouco humilhante a caminhada até à máquina automática de fotografias tipo passe mais próxima.
Uma das personagens de Noites Brancas de Dostoiévski é uma rapariga que vive sozinha com uma avó cega. Esta, para controlar os movimentos da neta, prende o seu vestido ao dela com um alfinete e passam assim longas horas sentadas a tricotar e a ler alto, respectivamente. Isto serve de exemplo de como as limitações à liberdade podem ser tão fortes ou tão fracas como um alfinete (ou uma avó). E de como muitas vezes as restrições estão dependentes da aceitação tácita de quem é restringido.

01 fevereiro 2005

Previa, mas não desejava, que as coisas corressem pior nas eleições iraquianas. A taxa de participação dos iraquianos foi, por isso, uma surpresa agradável. Ainda não se conhecem os resultados, mas a legitimidade eleitoral poderá agora ajudar a refrear os grupos mais radicais.
As autoridades do Reino Unido retiraram do mercado um analgésico devido à taxa de suicídio anormal entre os utilizadores. Parece que não há prova mais radical de que o fármaco não conseguia acabar com a dor.
Há uma diferença evidente nas estratégias de pré-campanha de Pedro Santana Lopes e de José Sócrates. Santana Lopes, o candidato que mais precisaria de uma estratégia de credibilização, faz discursos brejeiros e José Sócrates encontra-se com líderes estrangeiros. Já se reuniu com José Luiz Zapatero, chefe de Governo espanhol, Martin Schulz, presidente do grupo do Partido dos Socialistas Europeus, Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, Gerhard Schroeder, chanceler alemão, e Lionel Jospin, antigo primeiro-ministro francês. Sócrates fortalece a sua própria credibilidade política e Santana ataca veladamente a credibilidade pessoal de Sócrates, destruindo simultaneamente a sua.

31 janeiro 2005

Bloguítica, a sequela

Afinal, Paulo Gorjão voltou aos posts e o Bloguítica não acabou, como foi anunciado pelo próprio. Terá sido apenas uma experiência do autor para testar a reacção dos seus leitores?
Na sua mensagem de Natal, Santana Lopes desejou que em 2005 a política fosse "mais bonita". Mas não está a contribuir, não está a ajudar. A coisa está a ficar feia.

Espelho mau, espelho mau - XI

O viril sr. Lopes disse num almoço com mulheres - onde estas lhe glosaram as virtudes de playboy - que o outro candidato gostava mais "de outros colos". Isto quer dizer o quê? Que Santana está de cabeça perdida e que se adivinha uma campanha suja.

Quando olhamos para o País vemos um filme dos Mounty Pyton. E rimos. Depois percebemos que também lá estamos dentro e desesperamos.

28 janeiro 2005

O Bloguítica, blogue de Paulo Gorjão,terminou ontem, assim, de repente. É pena. A blogosfera fica mais pobre e nós também.

Espelho mau, espelho mau - X

O sr. Lopes vai processar as empresas de sondagens se os resultados não forem os que estão a ser (repetidamente) previstos: Santana mostra aqui toda a sua raça democrática. E se o resultado do PSD ainda for pior do que as previsões, quem é que ele processa?
Entrada no meu bloco de notas Journal de Bord, com o Corto Maltese na capa, minha companhia sempre que me considero em viagem:

"26SET04 - Washington DC, Museu do Holocausto

Aqui à minha frente estão os beliches de madeira que dizem ser os de Auschwitz, onde se deitaram tantos milhares de pessoas destinadas a morrer a seguir, como carneiros. Em carneirada para o matadouro, lentos, cruzaram aquelas portas de madeira, ali, as que explicam na legenda ser as do Bloco: os homens e as mulheres, e as crianças. Todos inocentes até do facto de estarem vivos, o seu único crime. Enquanto escrevo, oiço as vozes que ecoam com os relatos dos sobreviventes. O que mais me impressiona: os objectos pessoais desalmados, o mar de sapatos desirmanados, o monte de malas de viagem cada uma com um nome, e a um nome corresponde alguém, e em cada objecto está um eu. E os cabelos... Pior de tudo: as experiências laboratoriais, filmadas pelos nazis, que vemos numas televisões colocadas num fosso, para as crianças não conseguirem olhar. A frieza da morte. A banalidade de tudo aquilo, uma profunda náusea. Tanta gente..."

27 janeiro 2005

Auschwitz, 60 anos, diz respeito a todos: que faríamos nós para o evitar?

Isto diz respeito a toda a gente: a discussão sobre Auschwitz já não deve ser acerca da impossibilidade de pensar sobre um mal infinitamente absoluto, ou que entretanto se tornou absolutamente banal para os seus praticantes. A comemoração dos 60 anos da libertação do campo de extermínio nazi deve fazer-nos pensar também noutras coisas. Durante aqueles anos houve demasiada gente a saber o que se passava e não fez nada: na Alemanha, na Croácia, na Roménia, em França, na Polónia, por todo o lado. Cidadãos que seriam pessoas decentes numa sociedade em paz pactuaram com o crime inimaginável por omissão (é claro que há as excepções, mas são tão excepcionais que os seus nomes são conhecidos: no Museu do Holocausto em Washington há uma exposição com as fotografias e os nomes daqueles que ajudaram os judeus. Entre eles o do cônsul português de Bordéus).

Isto diz respeito a cada um de nós: o que é que eu faria, como me comportaria perante uma situação idêntica? Do que estaríamos dispostos a abdicar e como lutaríamos para que não fosse posta em marcha uma máquina tão tenebrosa debaixo dos nossos olhos? No limite, se assumirmos que jamais pactuávamos com uma sociedade que nos impelia para a prática de crimes, podemos aplicar esta ética do comportamento a outras situações menos catastróficas: se eu não pactuaria com situações limite como esta, mesmo que o pagasse com a privação da liberdade ou da própria vida (é fácil dizer), qual é o meu limite enquanto cidadão? Quais são os crimes que eu permito que o meu Estado cometa? Qual é o meu contributo para contrariar a passividade geral, que leva a aceitar as coisas tal como elas estão? Por que razão uma ditadura durou tanto tempo em Portugal?

Finalmente: qual é a diferença entre mim, cidadão português comum, e os alemães normais que viviam subjugados ao nazismo, mas que nada fizeram quando viram o filhos chamados para aquela guerra, ou quando perceberam que as famílias judias estavam a desaparecer? Se países de gente civilizada permitiram o Holocausto, o que nos garante que hoje estamos a salvo de nós mesmos e da natureza do mal que nos assola de tempos a tempos, e é conteporizado pela passividade de grandes maiorias? A resignação, tanto do lado dos carrascos como das vítimas, é uma das calamidades da Humanidade. Esta efeméride devia lembrar-nos disso.

26 janeiro 2005

Num artigo publicado no último número da revista Relações Internacionais, Mónica Dias transcreve uma citação de Woodrow Wilson sobre a democracia:

Democracy is, of course, wrongly conceived when treated as merely a body of doctrine. It is a stage of development. The democratic state is not a piece of developed theory, but a piece of developed habit. It is not created by aspirations or by new faith; it is built up by slow custom. Its process is experience, its basis old wont, its meaning national organic oneness and effectual life. It comes, like manhood, as the fruit of youth: immature peoples cannot have it, and the maturity to which it is vouchsafed is the maturity of freedom and self-control, and no other. It is conduct, and its only stable foundation is character.

Isto poderá esclarecer-nos sobre o fundamento das supostas analogias entre os pensamentos de política externa de Woodrow Wilson e de George W. Bush. Há em ambos uma mistura de idealismo, de messianismo e de excepcionalismo americano. Mas na política de Bush parece existir também o desejo de libertar à força povos não democráticos, que a aproxima mais do imperialismo napoleónico que do idealismo wilsoniano. Ambos acreditam que um mundo de estados democráticos será mais pacífico (e mais seguro para os próprios Estados Unidos), mas parecem divergir sobre a viabilidade de transições para a democracia impostas por uma força militar externa. No Domingo, as eleições no Iraque poderão ajudar a provar uma das teses.
Há três dias que me ando a preparar para a chegada da vaga de frio polar. Comprei algumas latas de atum, tirei as luvas do fundo da gaveta e só não calafetei portas e janelas porque nunca percebi muito bem a técnica. Tenho saído pouco de casa, sinto-me como um americano dos anos 50 que construiu um bunker no quintal para sobreviver a um inverno nuclear. A vaga está atrasada mas a data de validade do Atum Ramirez só expira no final de 2008. A minha mãe manda-me ter cuidado com os aquecedores.
A vida é feita destas escolhas difíceis. Hoje há dois clássicos em horários incompatíveis. Dá o Benfica-Sporting na RTP 1 (19h45) e passa o Garganta Funda na Cinemateca (21h30). Nunca vi o filme, por isso não sei se a técnica da Linda Lovelace é melhor que a do Pedro Barbosa (ao que parece, joga bem com ambas as amígdalas). Provavelmente ainda não é hoje que vou ficar a saber.

24 janeiro 2005

Antologia da facada

Neste país político fala-se muito agora de facadas nas costas, ou onde quer que sejam elas, mas não há facada como esta facada escrita por André Malraux na "Condição Humana" (Livros do Brasil, trad. Jorge de Sena):

"(...) Iria agora acordar! Com uma pancada capaz de atravessar uma tábua, Tchen deteve-o num ruído de musselina rasgada, misturado a um choque surdo. Sensível até à ponta da lâmina, sentiu o corpo saltar de ricochete para ele, devolvido pelo colchão de arame. Retesou raivosamente o braço para o conter: as pernas vieram juntas para o peito, como atadas uma à outra; distenderam-se num repente. Deveria ferir de novo; mas como retirar o punhal? O corpo continuava de lado, instável e, apesar da convulsão que acabara de o sacudir, Tchen tinha a impressão de o manter fixado à cama com a sua curta arma sobre a qual pesava com toda a sua massa. Pelo enorme buraco do mosquiteiro via-o demasiado bem: as pálpebras tinham-se aberto - teria acordado? -, os olhos estavam brancos. Ao longo do punhal o sangue começava a surgir, negro àquela falsa luz. No seu peso, o corpo, prestes a tombar para a direita ou para a esquerda, encontrava ainda vida. Tchen não podia largar o punhal. Através da arma, do seu braço retesado, e a sua espádua dorida, estabelecia-se uma comunicação de angústia entre aquele corpo e ele até ao fundo do seu peito até ao coração convulso, única coisa que mexia no quarto. Estava absolutamente imóvel; (...) sem que nada de aparente tivesse acontecido, teve a certeza que aquele homem estava morto (...). Estava só com a morte, num lugar sem homens, molemente esmagado ao mesmo tempo pelo horror e pelo gosto do sangue".

23 janeiro 2005

Do outro lado do espelho - VII

Piu! O Albino ali sentado a fumar a ver os pássaros, prisioneiro e ao mesmo tempo carcereiro, sumia-se a pouco e pouco como o uísque da garrafa de JB. Há duas semanas que tinha dado naquilo, para desespero da mulher e da filha. Estava doido. Fechava-se na gaiola dos pássaros, ou melhor, na casa do quintal feita por ele para guardar os pássaros, e ficava ali todo o dia a ver as aves, a soprar fumaças e a somatizar o álcool. Piu! Os canários, sobretudo os amarelos, gostavam daquela estranha presença quieta de olhar vazio. E ele via nos canários alaranjados uma marca de nobreza vai lá saber-se porquê, talvez por assistir a certas reverências quando esses mudavam de poleiro. A meio do dia deixava de pensar. Piu! Da parte da manhã pensava na pesca, nas saudades de ir à pesca, mas trazia sempre tanto peixe, tinha a arca congeladora tão cheia, que acabava por comer só peixe congelado. Não valia a pena, como tanta coisa na vida. Piu! Sabia que a parte da tarde começava quando a mulher batia à porta da gaiola e lhe dizia que eram horas de almoçar. Mas ele não comia. Piu! E da parte da tarde não pensava porque o cérebro lhe parava. Piu! Quando o Albino começou a comer alpista e a defecar no chão da gaiola enquanto piava em cima de uma cadeira, a mulher assustada, sabendo das histórias suicidas na família, chamou o médico e os bombeiros. Ele só se deixou levar quando chegou o veterinário. "Não estou doente", disse. "Tenho só um grãozinho na asa. Piu!".

20 janeiro 2005

Tenho lido, de modo intermitente, a Correspondência entre António José Saraiva e Óscar Lopes. Alguns assuntos discutidos: a interpretação dos Lusíadas, o Positivismo e o Racionalismo, Montaigne e Descartes, o Budismo, a metáfora do mundo interior, a unificação (subjectivo-[ob]jectivo) pela teoria da praxis de Marx, o Maneirismo literário. Mas há um tema transversal à maioria das cartas: as dificuldades financeiras. Talvez isso possa ser interpretado simplesmente como uma variação do velho problema filosófico da relação mente-corpo.

Isto é só um exemplo (ou a tradução como subsídio de desemprego): Um moço meu amigo de grande valor, que está a estudar aqui, encontra-se em grande dificuldade porque não obteve uma bolsa do governo francês com que contava. Teve a melhor classificação de Lógica da Sorbonne de há vários anos a esta parte. Trabalha com o L. Goldmann. Para se aguentar procura trabalho de traduções em Portugal. Chama-se Fernando Gil – sabes de alguma tradução que lhe possa ser confiada? (António José Saraiva, 30 de Maio de 1963.)

19 janeiro 2005

Private Joke


década, s. fem. Série de dez; dezena. Período de dez anos ou dez dias. Narrativa hist. que descreve um período de dez anos.


(a carta da paixão)

Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça
[...]
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
[...]
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

Herberto Helder, Photomaton & Vox
Bergman e pipocas. Não é com frequência que conseguimos juntar as duas palavras numa frase. (A responsabilidade é repartida entre o realizador sueco, a Joana e os cinemas Millenium Alvaláxia. A Joana quis comprar um chocolate, mas eu sugeri-lhe as pipocas só para poder escrever este post e frustrar possíveis acusações de pseudo-intelectualismo.)
Saraband é um filme assombroso e assombrado, com planos arrumados, longos diálogos e monólogos que nos revelam como os indivíduos podem ser bons e maus para diferentes pessoas, em diferentes situações, a complexidade das relações familiares. Apesar de nunca o ter estudado convenientemente, julgo que foi Foucault que escreveu sobre a opressão por parte das pessoas que nos são mais próximas, dos limites à liberdade auto-impostos. Julgo que o filme é sobre isso ou também sobre isso. O resto é sobre as outras obsessões de Bergman, como o sentimento de perda e o passar do tempo.

Nota: Desconfortável, na última fila do cinema, a Joana só conseguiu saborear convenientemente as pipocas quando Johan decidiu ouvir música clássica num volume bastante elevado. Obrigado ao compositor, que não consegui identificar.

18 janeiro 2005

Leio: também o ar na casa é diferente desde que tenho estas janelas duplas novas. Dei por este facto mediante um pão embalado numa película. Abri com dificuldade a embalagem. Visto que não o pude realizar apenas com a força das minhas mãos, recorri a uma faca. A introdução da faca desencadeou um som curiosamente comovente que tinha quase algo de um suspiro, até de um último suspiro. Ao dar uma dentada no pão tinha a sensação ESTE PÃO ESTÁ MORTO. Absorveu o ar e morreu disso. Várias vezes ao dia abro as janelas inquietantes, apesar do barulho do trânsito.

Música Láctea (Alexandria, 2004) é um monólogo sobre a semelhança entre os reflexos de detergente na superfície do chá e as manchas de petróleo no mar, definições do dicionário Brockhaus, a relação entre o medo e a asma e outras lógicas do quotidiano. Thomas Strittmatter absorveu demasiado ar, morreu em 1995 com 33 anos.

Pitbull!! Terrier!!!

No final, parecia um filme do Kusturica: toda a gente bêbeda num casamento a dançar em cima da mesa e a dar tiros para o ar. Há meia hora acabou o concerto da No Smoking Band, ou Zabranjeno Pusenje, no Coliseu dos Recreios de Lisboa, com Emir Kusturica (o cineasta) na guitarra e uma banda de nove músicos loucos a fazer uma paródia que não devia caber numa só noite. O segundo encore acabou com com dezenas de miúdas do público a dançar no palco, no meio dos músicos (ou seriam artistas de circo?), numa explosão de energia onde só não houve tiros de pistolas, nem guerra fraticida, nem garrafas partidas na cabeça, nem gangsters a cheirar coca nos carris do comboio, nem putas a fugir de mafiosos balcânicos, nem gordas a arracar pregos com a força do cu (como nos filmes). Houve o mesmo ritmo da alegria cigana do cinema, a subversão do óbvio, a diversão pura (Pitbull!! -- Terrier!!)... E os números de ilusionismo do violinista, que não tocou de pernas para o ar mas fez outras acrobacias musicais. Há noites que valem por todo o dia, como esta. Uma paródia.

13 janeiro 2005

Através de UM ANO na blogosfera!

Para comemorar o primeiro aniversário do nosso blogue reeditamos o post inaugural, o Primeiro reflexo:

O espelho é um objecto estranho. Por reflectir a realidade, e sobre ela, mas não ser a própria realidade, abre infinitas possibilidades de distorção. Por isso, neste blogue, teremos por vezes uma realidade convexa ou côncava. Basta dobrarmos ligeiramente a superfície, mais por motivos estéticos do que ideológicos. Não para distorcer a realidade, mas para construir outras representações dela. A sensação poderá ser, para quem lê, a de caminhar pelo meio das galerias de espelhos dos parques de diversões, onde nós e tudo o resto que as atravessa passa do grotesco ao ridículo com um passo, do semelhante ao desigual. Também gostamos do jogo de distorcer pessoas, devolvendo-lhes depois os rostos intactos.

Os espelhos têm ainda outra característica, que não escapa a todos que se debruçam sobre eles*: a profundidade. Se nos aproximarmos, parece que podemos cair para o outro lado. Neste blogue seremos seres intermédios entre Giordano Bruno e Alice: acreditamos na infinidade dos mundos e usamos os espelhos para entrar neles. No mundo da política, da sociedade, da cultura, da ciência. Entramos e tudo nos é estranho. Contamos o que vemos. Regressamos aparentemente iguais. Depois ardemos todas as noites nas fogueiras ateadas com as folhas escritas.

E espelhos somos nós também, porque reflectimos as realidades conforme a nossa superfície foi sendo talhada: não pronunciamos verdades absolutas, que não as temos, mas aquelas que o nosso espelho de água devolve aos que se miram em nós, como o lago que chorou a morte de Narciso porque se reflectia nos olhos do jovem enquanto ele admirava o seu próprio reflexo. É através de um falacioso espelho de feira - a maneira de cada um de nós ver o mundo -, que aqui projectamos a imagem que temos dele.

Sejam bem-vindos outra vez

Tiago Araújo/Vítor Hermes (ou Matos, conforme a circunstância)

*Como Umberto Eco (Sobre os Espelhos e Outros Ensaios ,Difel) ou Jorge Luis Borges (Obras Completas, Teorema).
Surgiram dois bons blogues com o começo do ano: o Margens de Erro, do Pedro Magalhães, e o da literatura, do valter hugo mãe, do Jorge Melícias, do Pedro Sena-Lino e do João Paulo Sousa. Na próxima reunião do comité central do blogue vou propor que sejam pendurados aqui ao lado.

Este blogue fez um ano há alguns dias. Esquecemo-nos de comemorar. Pensei escrever um post sobre a relação entre isso e os primeiros sintomas de alzheimer, mas já não me lembro muito bem do que queria dizer nele.

11 janeiro 2005

Na semana passada passei dois dias derrubado por uma intoxicação alimentar de marisco. Nada disto teria acontecido se Artur Jorge já fosse o seleccionador nacional dos camarões.

05 janeiro 2005

Espelho mau, espelho mau - IX

Não seria de estranhar, se ele próprio não fosse um homem de futebol. Santana Lopes pensa de forma aritmética e não matemática. Faz contas. Não resolve equações. Por isso, quando os cálculos se desenrolam, chega ao fim com um resultado tão diferente daquele que candidamente tinha previsto. O futebol tem a ver com o que se segue:

1. Pôncio Monteiro, debatedor portista no Donos da Bola (Santana era o do Sporting e Fernando Seara o do Benfica), foi escolhido como nº2 no distrito do Porto para sacar votos aos adeptos do FCP que estavam irremediavelmente perdidos por causa das guerras de Rui Rio com o clube da cidade.
2. Pôncio, mesmo respondendo que sim ao apelo de Santana, acabou por dizer o que verdadeiramente pensava de Rio, porque não é um político, e porque gosta mais do seu clube do que do seu partido. E, já agora, dizer mal de Rio até dava votos ao PSD entre os portistas mais ferrenhos;
3. Logo, foi um erro político convidar o senhor, porque misturar estas coisas dá sempre mau resultado, quer as estratégias funcionem quer não funcionem. Neste caso o critério foi péssimo. 4. Pôncio foi afastado através de um processo no mínimo estranho, uma situação muito pior do que ter sido convidado. Santana foi mais uma vez enxovalhado em público com argumentos não muito diferentes daqueles que o seu ex-amigo Henrique Chaves usou.
5. Com tudo isto, o PSD não só não conquista os portistas que recusam votar PPD, como fez aparecer outra mão cheia deles que nem quer ouvir falar no partido.
6. Santana fez as contas de somar e de subtrair com o coração (sabe como as pessoas reagem emotivamente ao futebol), e obteve mais um resultado negativo porque não percebeu a equação onde estava a mexer.
O PSD está a ficar mais perigoso do que a corte de César Bórgia. Não há banquete que não termine com uma facada nas costas.

04 janeiro 2005

A Adília Lopes publicou Poemas Novos (&etc). São novos e mais curtos, como têm sido os dos últimos tempos. Individualmente, têm menos interesse do que as longas narrativas de outros livros (O Decote da Dama de Espadas, A Continuação do Fim do Mundo ou Florbela Espanca Espanca). Intercalados com citações, observações e comentários, reconduzem-nos ao universo de Adília a metamorfosear-se em Maria José de Oliveira.

(Nota posterior: Apesar de à primeira leitura poder não parecer, este texto é uma tentativa de crítica positiva ao livro. Li e gostei.)
No Mercador de Veneza, Antonio dá uma libra da sua carne como garantia para um empréstimo de três mil ducados por três meses. Quando o prazo termina e não consegue devolver o dinheiro, Shylock prepara-se para lhe cortar a pound of flesh nearest his heart. Para mim, a solução mais evidente e teatral seria retirar-lhe o próprio coração, que é um músculo e carne. Um atlas de anatomia explica-me a razão. Uma libra corresponde a 453,597 gramas e o coração humano médio pesa cerca de 300 gramas. Como em outras peças de Shakespeare, o coração não seria suficiente.

31 dezembro 2004

As ruínas circulares

Existe um tempo circular, marcado pela recorrência das estações, e um tempo linear, marcado pela sucessão dos anos. Os nossos antepassados reuniam-se em planícies ou cumes de montanha para celebrarem solstícios, nós comemoramos passagens de ano. Esta alteração nos rituais de celebração adequa-se provavelmente melhor ao carácter da vida moderna: não mudamos ao ritmo das estações; vivemos num tempo aberto e não fechado sobre si próprio, lento. Continuamos a habitar «ruínas circulares», mas existem mais saídas para o labirinto.
Como é que esta tragédia vai mudar as nossas vidas? O terramoto de 1755 (o sismo, a tsunami, e o incêndio), uma das maiores catástrofes conhecidas do mundo civilizado daquele tempo, ajudou a moldar as mentalidades. Em pelno Ilumunismo, deixámos de acreditar que os males naturais eram enviados por Deus para punir os males morais dos homens, ou mais simplesmente, para castigar os pecados. Nesse momento, a natureza ganhou o carácter de neutralidade que ainda tem hoje. E agora, duzentos e cinquenta anos depois, com tantas imagens e testemunhos que na Lisboa pombalina não havia? Embora esta seja uma visão eurocênctrica, parece que o 11 de Setembro (e cerca de três mil mortos) vão contribuir mais para definir o nosso futuro enquanto Mundo do que as dezenas de milhar de mortos causados pela tsunami. Um acidente é uma fatalidade e nada a fazer. Quando há uma mão humana a comandar o mal tudo muda. Mas o holocausto não foi há 50 anos e a humanidade não permaneceu a mesma?

25 dezembro 2004

Do outro lado do espelho - VI

O Chico Malveiro bebeu o último copo de tinto já a chorar, na tasca do algarvio, junto à praça das palmeiras.
- Então hoje, esta noite, você aqui ó amigo Malveiro? Não vai comer o bacalhau e as couves com a sua Maria?
O Malveiro voltou a cair em si, apesar do vinho. Sentou-se e chorou outra vez.
- Estou aqui a chorar porque a Maria ficou em casa sozinha a chorar porque vim aqui... Se eu fosse para casa esta já não era uma noite triste, porque é sempre... estas noites...
- Ó amigo Malveiro deixe-se de balbuciar. Venha lá comigo.
Levado pelo braço, desceu a avenida. À vigésima quinta amoreira que ladeia a estrada bateu à sua própria porta e gritou - Maria do Carmo! A seu lado ela limpou-lhe o suor do rosto, falando baixinho - Francisco, acorda... Sabes que não podes vestir esse pijama quente no Verão porque tens pesadelos. Queres água?

23 dezembro 2004

Nasceu a Carolina. A Carla vai ter de comer filhoses de hospital e o Pedro vai ter de se juntar ao seu presépio pessoal na maternidade. Nós, pastores ou reis magos, iremos vê-los mais tarde. Parabéns, feliz Natal.

22 dezembro 2004

Espelho mau, espelho mau - VIII

Espera-se a todo o momento ouvir uma ideia da boca de José Sócrates. Há quem tenha os foguetes preparados para quando o fenómeno ocorrer. Pedir uma maioria absoluta sem se saber para quê soa muito a santanista. E chegar ao poder assim sem se estar preparado, como estamos a ver, dá mal resultado. Guterres preparou-se anos e Durão sentou-se no trono pelo menos um ano antes do que esperava. Por este caminho o país não se endireita. Vamos continuar a viver num regime de comédia trágica que nos faz rir primeiro e chorar depois. Alguém sabe como estão as quotas de imigração da Nova Zelândia?

Do outro lado do espelho - V

Voltei a conversar longamente com Deus depois do meu neuropsicólogo estimular com choques eléctricos o lóbulo temporal que me causava os ataques de epilepsia. Dessa vez quase tive uma visão piedosa, como se fosse um pastorinho de Fátima. Ainda não percebi se é o meu cérebro fantasioso que é crente se sou eu que acredito. Tenho de voltar a tomar os comprimidos inibidores da transcendência porque a minha sugestão natural para achar que Ele existe está a tornar-se demasiado forte.

Espelho mau, espelho mau - VII

Facadas nas costas, diz ele, que se atira para trás cada vez que vê uma coisa afiada e vai caindo, caindo, para cima das facas que vê no caminho. Ora ontem foi ver Santana e Bagão de facas longas apontadas a Ferreira Leite. Ainda vamos ver os ministros deste Governo às navalhadas de rectaguarda com os do anterior.

20 dezembro 2004

Leitor externo

Acredito por momentos na validade de algumas teorias idealistas quando visito bibliotecas. Passo a tarde mais em lugares criados concretamente no cérebro do que numa mesa da biblioteca. Os estudantes lêem muito longe de mim, em outras cidades. Quando ponho os auscultadores, o fenómeno amplifica-se: estou em São Petersburgo, num bar da 52nd Street e na biblioteca da Faculdade de Letras. Sou um leitor externo e só agora entendo o significado da classificação.
Não consigo ler o Cântico Negro de José Régio («Ninguém me diga: ‘vem por aqui’! [...] // Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou, / - Sei que não vou por aí!») sem pensar na semelhança de alguns versos com os de Lisbon Revisited de Álvaro de Campos («Assim, como sou, tenham paciência! / Vão para o diabo sem mim, / Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! / Para que haveremos de ir juntos?»). E o tom de Noite antiquíssima de Álvaro de Campos («Vem, Noite antiquíssima e idêntica [...] Vem, vagamente, / Vem, levemente, / Vem sozinha, solene, com as mãos caídas / Ao teu lado») lembra-me alguns versos de Romeu e Julieta de Shakespeare («Come Night, come Romeo [...] Come gentle night...»). Não acho que todos os poetas sejam meros continuadores de um longo poema universal e não tenho nenhuma teoria sobre os limites do plágio ou do contágio. Esta não é uma observação sobre a influência, é mais sobre a leitura do que sobre a escrita: as palavras não se esgotam, repetem-se.
As traduções das letras dos Joy Division são más. As traduções das letras dos Joy Division não podem ser boas. Há bastante tempo que partilho com o Zé Pedro este desconforto. O erro é estrutural, nenhum tradutor pode atenuar a estranheza. (A Assírio & Alvim tem duas edições, uma com tradução de Paulo da Costa Domingos e de mais alguém cujo nome não me recordo e a outra de José Alberto Oliveira.) Não conseguimos simplesmente ler os poemas, ouvimo-los mentalmente em português com a música original. É indiferente se «o amor nos destroçará» ou se «nos dilacerará», nunca chegará para «tear us apart». É como tentar ler aquele soneto da Florbela Espanca sem ouvir a voz do Luís Represas a querer amar-nos perdidamente.

Dezoito de Dezembro

Sónia, Gonçalo, Luísa, Andreia, Pedro Saragoça, Pedro Santos, Carla/Carolina, Armando, Paulo, Ana Luísa/Gustavo, Pedro, Rodrigo, Vítor, Carla, Catarina, Paula, Xana, Cláudia, Nuno Moura, Maísa, Irene, Ireneu, Francisco, Mafalda, Mafalda de Castro, Miguel, Hugo Franco, Dina, Zé Pedro, obrigado. Obrigado à Isabel que teve de cobrir a inauguração de quarenta metros de tronco de natal e a todos os outros que não puderam aparecer. Obrigado ao fofo de Belas gigante e ao travesseiro da Piriquita por se terem deixado comer passivamente. Obrigado à Joana, que tem sempre boas surpresas preparadas para mim.

17 dezembro 2004

O niilismo e a taxa metabólica

Num artigo já com alguns anos, Stephen Jay Gould escreve sobre a taxa metabólica dos mamíferos. Ao que parece, há uma relação entre o tamanho do corpo e o ritmo do metabolismo e os animais com um metabolismo mais acelerado vivem menos tempo (os mais pequenos respiram e morrem mais depressa). Vivem aproximadamente o mesmo tempo biológico, mas a ritmos diferentes. Segundo estimativas, os mamíferos tendem a respirar cerca de 200 milhões de vezes no espaço da sua vida e, como respiram uma vez por cada quatro batimentos cardíacos, os seus corações batem cerca de 800 milhões de vezes. Antes que comecem a fazer contas, Gould explica que os seres humanos escapam a este padrão geral, vivendo cerca de três vezes mais tempo do que os outros mamíferos do mesmo tamanho: os pulmões respiram 600 milhões de vezes e o coração bate 2400 milhões de vezes. Já é um pouco tarde para começar a contar, mas sei que, pelo menos, vou passar a respirar muito mais devagarinho.

16 dezembro 2004

Espelho mau, espelho mau - VI

Qual é coisa qual é ela, que antes de o ser já o era?
a) O cherne.
b) A pescada.
c) A coligação PSD-CDS/PP.
d) O carapau de corrida.
Nos séculos XVI e XVII descobriram-se muitas ilhas imaginárias, com constituições perfeitas e habitantes pacíficos. Os oceanos eram perigosos e um naufrágio era uma bênção concedida aos marinheiros imaginários. Encontravam Utopia (More), Oceana (Harrington) ou Bensalem. Esta última é descrita por Francis Bacon em Nova Atlântida: uma ilha centrada na ciência e nos frutos da ciência. Da mistura entre filosofia política e ficção científica, o que mais me interessou quando li a fábula foi a ocupação de uma das divisões da classe dirigente. É constituída por homens que navegam para outros países em busca de livros e de conhecimento. Chamam-lhes mercadores de luzes (merchants of light). Actualmente, temos uma coisa parecida mas com um nome muito menos fascinante, são os bolseiros e já não navegam, andam de avião. Do cais em frente à minha janela chegam e partem navios; não sei se me candidate a uma bolsa ou se viaje clandestino.

15 dezembro 2004

Num daqueles livros que se lêem na adolescência, o narrador descreve os dias que passou num quarto, sem a noção do tempo, sob o efeito de uma droga qualquer. Também eu vivi pelo relógio sem ponteiros de Morangos Silvestres nestas duas últimas semanas, sem ter tomado nada. Acabei a tradução de um livro difícil, comemorei a dissolução do parlamento e a evaporação do governo (passagem do estado líquido ao gasoso), vi A Costa dos Murmúrios, participei na maratona gastronómica de recepção ao Ruca, assisti ao empate do Sporting em Alvalade, não escrevi postais de Natal, li pouco. Já preguei os ponteiros ao relógio: estou atrasado, estou muito atrasado. Estou de volta.

14 dezembro 2004

Espelho mau, espelho mau - V

A coligação vai descoligada a votos com uma aliança firmada para coligar-se a seguir. De que cor é o cavalo branco de D. José?

Do outro lado do espelho - IV

Aquele homem tinha-se alimentado toda a vida de uma incubadora de sonhos, muito transparente, pendurada na sala como se fosse um aquário por cima da telefonia. Conforme os anos passavam e os tempos se tornavam mais modernos, mais deprimido ficava com a realidade. Então, para fugir do mundo que o iludia com empirismos, punha os óculos de mergulhador e aspirava pelo tubo da incubadora os sonhos sedimentados ora em camadas ora em forma de maçanetas que lhe abriam novas passagens.

Um dia, já os tempos eram muito modernos, porque tinham passado muitos anos, não aguentou. Partiu a incubadora e fez dos sonhos a realidade, à qual só regressou verdadeiramente já era muito velho. Quando saiu da clínica de desintoxicação, onde tinha entrado entre a vida e a morte - com o cérebro a querer expandir-se pelos orifícios da cabeça com tantas imaginações -, prometeu que nunca mais se punha a levitar à frente das pessoas esfumando-se para dentro de chaleiras quando concedia três desejos surreais. Para lhe proibir a actividade, as autoridades alegaram que a satisfação plena prejudicava a economia.

13 dezembro 2004

Espelho mau, espelho mau IV

Santana demitiu-se e bem. Mas a notícia (no Público) de que pretendia abandonar funções só vinca ainda mais as verdadeiras características dele. Este homem tem vertigens e quando olha para baixo de um lugar alto atira-se em desespero, se ninguém lhe joga a mão.

12 dezembro 2004

Espelho mau, espelho mau III

Dias Loureiro já tinha aconselhado Santana Lopes a demitir-se, e disse-o numa entrevista à TSF. Pedro concordou porque não lhe iam perdoar estar no cargo sem ter sido eleito.

Agora só lhe resta agradecer a Sampaio por ter dissolvido a Assembleia, deixando-o aparecer como a vítima (se ele próprio se demitisse era sinal de fraqueza); ou então pode aproveitar a embalagem e atirar-se ao Presidente por o ter feito primeiro-ministro, quando era mais que visto que isso só o ia prejudicar (um Santana virgem de acção governativa seria muito mais eficaz em campanha eleitoral). E, já agora, dizer ao 'Manel' (Dias Loureiro) que com amigos destes...

11 dezembro 2004

Se eles até ganham é que vai ser o bonito

... E Sampaio falou.
Para dizer tudo o que já se sabia, tão óbvias eram as suas razões. Foi assassino quando disse que as reacções [da maioria] à sua decisão ainda reforçaram mais essa certeza. Talvez as reacções do PS à nomeação de Santana, há quatro meses, tenham funcionado de forma simétrica. Só que fruto da decisão de Sampaio o PS mudou. Agora, com um discurso como este, onde se percebe a desconfiança pessoal absoluta do Presidente em Santana Lopes, que condições políticas terá Sampaio para dar posse a um Governo Santana/Portas, se a actual maioria ganhar as eleições, o que não é completamente disparatado?

08 dezembro 2004

Espelho mau, espelho mau II

Santana nunca percebeu o papel de primeiro-ministro. Quando revelou em público a conversa tida no Palácio de Belém - e a tripla negação de Sampaio à pergunta da dissolução -, não percebeu que aquela tinha sido uma conversa entre dois titulares de órgãos de soberania unipessoais, e não uma troca de palavras entre o Pedro e o tio Jorge. Nunca se vai perceber se estava a falar a verdade, porque jamais alguém de Belém vai dizer o que se passou naquela sala. Santana Lopes transportará esse ónus de traição da confiança institucional durante a campanha eleitoral. E, se ganhar as eleições, a confiança entre os dois será tanta que terá de fazer como Eanes e Balsemão que gravavam as conversas para não haver dúvidas.
Nô mais, ficção, nô mais! Desce tu, Musa, a de sorriso loução, ganha-me a benevolência dos meus concidadãos e diz-me: Há emenda para este país?
Últimas frases do livro de Mário de Carvalho Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina (Caminho)

05 dezembro 2004

Espelho mau, espelho mau I

Obrigatório ler o artigo de Vasco Pulido Valente, no Público de hoje, sobre os maus políticos e tudo o resto que também é mau. Mas se todos nos olhássemos ao espelho que VPV segura, corríamos para a Ponte 25 de Abril numa romaria suicida colectiva.

Do outro lado do espelho III

Olho para cima. Na fachada do edifício estende-se o cartaz imenso daquela campanha publicitária que se repete há três Invernos, para coincidir com o Natal: "Adopte uma pessoa abandonada. Ofereça uma vida." Entro. Respondo a um questionário ao computador. Tenho o perfil indicado. Quando chega a minha vez, uma mulher de branco conduz-me pelos corredores até aos aposentos. "Esta semana tem sido uma loucura, levaram-nos quase tudo, são boas prendas, sabe..." Pois, penso eu, ao preço que estão as coisas... Ela abre a última porta e deixa-me em frente a uma fila de quartos com portas de vidro. "Pronto, pode escolher, já só temos estes quatro, mas daqui a uns dias devemos ter mais. Quando quiser, chame".

Perco-me tempos sem fim a andar de um lado para o outro diante das pequenas celas. Havia uma namorada abandonada a chorar sentada de cócoras a um canto. Um ministro remodelado a redigir decretos para não perder o jeito. Um velho sentado na cama, de bengala na mão, como se estivesse num banco de jardim. E uma menina encontrada num hipermercado, não reclamada pelos pais, a jogar num telemóvel. Escolhi o ministro. Mandei entregar dali a três dias e paguei o transporte. Fica bem na minha secretária, bem penteado e com a sua gravata, tem lá muito com que escrever despachos, faz-me companhia a beber um uísque ao serão e a minha mulher acha o máximo ter gente importante lá em casa.

03 dezembro 2004

Borges quer meter-se "nisto"?

No último post, questionava quem quer meter-se nisto, na política, tendo em conta o modo como estão as coisas. Hoje, António Borges diz numa entrevista ao Diário Económico: "Portugal atravessa um momento em que ninguém com responsabilidades pode afirmar ‘eu fico de fora’". É uma atitude patriótica, desde que seja consequente com as palavras ditas. Resta saber quem está com Borges no PSD para expulsar a chamada moeda má. Mas agora, quatro meses depois do tempo certo, pode ser tarde de mais...

02 dezembro 2004

The end of the affair

A falta de legitimidade é uma coisa terrível, por mais legalidades que justificassem a nomeação de Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro. O homem nunca se sentiu legitimado, foi sempre uma espécie de adolescente vigiado pelos tutores. Isso ficou provado durante estes longos quatro meses trapalhões, em que o Governo andou trôpego e o PSD passou o tempo encalhado em si mesmo. De qualquer maneira, valeu a pena para sabermos o que vale Santana em S. Bento. Jorge Sampaio percebeu e emendou a mão, com todas as consequências que isso agora vai ter.

Vivemos em democracia. Num regime semi-parlamentar - ou mais para o semi-presidencial desde há dois dias (ou desde há quatro meses) -, ir a eleições não pode ser um drama. Mais dramático seria viver com um Governo artificial, ligado à máquina, a precisar de oxigénio a toda a hora, sem autonomia para respirar. Mas se não é um drama, não deixa de ser grave que agora funcionamos em ciclos de dois anos. Das próximas eleições devia sair um Governo de maioria, fosse de quem fosse, para isto normalizar.

Só que a realidade e a Constituição estão desfazadas: as pessoas votam para o primeiro-ministro, que não é eleito, e não para os representantes parlamentares; o sistema partidário não permite um esquema de alianças possíveis à direita e à esquerda como vemos noutros países europeus; e o Presidente da República é percebido como uma Rainha de Inglaterra ou um notário que, de facto, como vemos, não é.

Vivemos uma crise de regime. Da maneira que as coisas estão, quem vai querer meter-se nisto?

29 novembro 2004

O Governo na incubadora

Cavaco Silva escreveu que os políticos competentes devem afastar os incompetentes. Henrique Chaves não esperou. Ainda não há garantias de substituição por um competente.

Não há memória de uma demissão tão violenta de um ministro, ainda por cima amigo e apoiante de sempre do primeiro-ministro. Tudo o que houver por detrás de tudo isto será mais grave do que possa pensar-se. E terá os seus efeitos no castelo de cartas governamental.

Ontem Santana Lopes fez um discurso com metáforas que ficam mal. Comparou o Governo a uma criança mal parida, aquilo a que ele chama "um parto difícil", assumindo que o Executivo está numa "incubadora", mas depois vêm os "irmãos mais velhos" - sim, o mesmo Cavaco Silva a quem ele apelou para Belém -, que dão "estalos e pontapés, em vez de o acarinhar". Isto é tudo ingenuidade?

É a declaração de fraqueza mais franca e trapalhona alguma vez feita por um primeiro-ministro.

Jorge Sampaio está neste momento reunido em Belém com um nascituro precoce que vive numa incubadora por ser imaturo para funções tão solenes. A pedir garantias de quê?

28 novembro 2004

As meninas de Picasso
Saímos do Museu Picasso para as ruas estreitas do bairro gótico de Barcelona, tão diferentes das Ramblas: trazíamos ainda os desenhos de infância, os primeiros retratos clássicos do pintor - ou não tivesse o pai dele sido professor de belas-artes -, tudo aquilo que não se imagina que Picasso pudesse ter pintado, como a cena realista de uma primeira comunhão com que ganhou um prémio aos 15 anos, mas levávamos na mente sobretudo o quadro e as dezenas de variações distorcidas das "Meninas", de Velasquez, vistas por ele.

As anchovas de Dalí
À procura de um bar de tapas, andámos às voltas pelo bairro até voltarmos à rua do museu e darmos com uma fila de gente que entrava para uma taberna a abrir a porta naquele exacto momento, sete da tarde: seguimos a procissão para o "Xampañet", sentámo-nos, pedimos tapas de tudo, repetimos, e acompanhámos as ditas, deliciosas, com um vinho branco espumoso, que não é espumante nem vinho verde, a que eles chamam o "cava". As melhores e a jogar com o vinho eram as de achovas, "as preferidas de Dalí", como estava destacado num artigo de jornal pendurado na parede, debaixo das pipas. Parece que o surrealista gostava de ir ali beberricar e petiscar as melhores anchovas da cidade. Uma fonte de inspiração a que fomos sensíveis. Pelo menos eu saí de lá um bocado mais surreal...

A sombra do vento
Na mesma noite, um pouco mais tarde, Fermín Romero de Torres era violentamente feito em papa quando ia a entrar para o mesmo "Xampañet", de tanta porrada que apanhava de um tal de inspector Francisco Javier Fumero, um esbirro e assassino do pior, da polícia política espanhola, que deixou o homem de costelas partidas e impróprio para consumo durante dias. Mesmo com tanto sangue, foi uma agradável surpresa: agora, quando viajo de férias, leio sempre um romance que se passe nos lugares onde vou, e foi o que aconteceu. Antes de dormir, li que Fermín queria comer umas tapas ao tal de "Xampañet", mas teve azar, e só quando revi as fotos na máquina digital confirmei, satisfeito, que era o mesmo lugar... "A Sombra do Vento", de Carlos Ruiz Zafón (Dom Quixote), ganhou prémios em 2001 e 2002 e é um best-seller mundial, mas não é um grande livro, apesar da história ser impulsionada pelos livros. Lê-se compulsivamente, mas vale duas estrelas em cinco. Para apreciar em viagens descontraídas de férias.

Irlandeses de Glasgow
Em Barcelona respira-se futebol. Depois da vitória sobre o Real Madrid, a cidade recebeu os adeptos listados de verde e branco (como o Sporting) do Celtic de Glasgow - o mesmo clube que o Porto venceu na final da Liga dos Campeões o ano passado (eh, eh!). Os escoceses enchiam os bares, os pubs e as ruas com cânticos de cerveja aos litros. Tudo normal. Menos a quantidade de bandeiras da Irlanda que desfraldavam pelas ruas e a ausência total da flâmula da Escócia. Depois de cruzadas quatro fontes muito entornadas e de sotaque impossível após um jogo que acabou empatado um igual, solucionei o mistério: o fundador do Celtic foi um irlandês, daí que o símbolo do clube seja um trevo de quatro folhas; os adeptos são maioritariamente de um bairro situado na West Wing de Glasgow, onde se fixaram os imigrantes irlandeses no início do século; os avós são irlandeses, eles são escoceses e não gostam lá muito de ingleses. Por isso nem eles perderam nem os da Catalunha ganharam. Afinidades...

21 novembro 2004

Voltando atrás: ontem quando chegámos as ruas estavam assustadoramente desertas. De vez em quando (aconteceu três vezes) ouvíamos as explosoes de alegria dentro das casas: golos contra os de Madrid. Perto da meia-noite as ruas estavam alagadas de gente a festejar. E quando eles gritam "Puta Espanha!" (cantando com a música do "Viva Espanha!") nao é a mesma coisa de quando os do Porto dizem que querem ver Lisboa a arder. Ao apanhar com isto logo na primeira noite percebe-se melhor o que é este país.

Gaudí, Picasso, Dalí:
Quando os artistas mudam a face de uma cidade, como Gaudí marcou esta, mudam a nossa vida: quem é o nosso Gaudí, o nosso Picasso, o nosso Dalí? Que artistas mudaram a nossa vida e a das nossas cidades? Assim também pecebemos melhor o que é o nosso país. Nao há como relativizar para percebermos a nossa verdadeira dimensao. A palidez...

Tudo ganha cor quando se chega a Barcelona em noite de jogo com o Real Madrid. Mais quando o Barca ganha por 3-0. Foguetes, festa e petardos na rua. Gritos de "puta es España". Foi uma rececpao de aniversario para a Carla.

20 novembro 2004

Vi no espelho que estou pálido. Sentei-me aqui ao computador. Do outro lado da rua, através da janela, o amarelo da parede do Arsenal da Marinha está pálido. Esta luz empalidece-nos a todos. O país também está pálido, na palidez do Governo, das oposições, das pessoas nos comboios de manhã ou a trabalhar no campo, na palidez das casas de emigrantes com azulejos de fora como há por aí, ou na palidez do Palácio de Queluz, que também o há. O país deve ver-se ao longe quando se quer vê-lo melhor. Daqui a nada vamos para Barcelona, onde o espírito das cores dos artistas da cidade absorvem a nossa palidez. Boa viagem! Obrigado. Talvez fiquemos por lá, nunca se sabe o efeito que certas cidades têm sobre as pessoas.

(Aceitam-se parabéns à Carla nos comentários, a partir da meia noite, porque faz anos amanhã, dia 21)

2046
É um filme curioso, lento, longo. As memórias são lugares de onde nunca se regressa, como em 2046. Cada plano é quase um quadro que apetece guardar. E as personagens perdidas são todas gente desesperada como tanta gente. Wong-Kar-Wai, depois de Disponível para Amar, está mais amargo. Demasiado. Nem quando as pessoas se divertem estão felizes. Que assim não seja.

Vieira da Silva
Na respectiva fundação, os quadros da artista dispersos pelo mundo em colecções particulares ou de instituções. Vale a pena ver, porque não sabemos quando voltarão a juntar-se. Ontem flutuei pelos espaços profundos de alguns quadros, outras dimensões que nos levam por eles a dentro como poucos, num movimento perpétuo de absorção do vidente.

18 novembro 2004

O Zé Pedro diz-me que este blogue está a ficar cada vez mais esquizofrénico. Uma parte de mim concorda com ele. Outra não. Outra ainda chama-se Olaf e não liga a essas coisas.

17 novembro 2004

A Ana Luísa está grávida. Depois do Rodrigo, o Gustavo. Nasce lá para a Primavera. Parabéns, amigos.

16 novembro 2004

Regressámos às Vicentinas, onde já não íamos há mais de um ano. É como ir visitar umas tias-avós solteiras ou entrar numa estalagem de aldeia. As tias fazem um chá e um bolinho para agradecerem a nossa visita. São um misto de Miss Jane Marple e daquelas velhotas simpáticas de um filme de Capra com o mau hábito de envenenarem os convidados. E com uma divisão social do trabalho muito rígida: umas despejam o arsénico sobre o bolo de amêndoa e outras descobrem quem o colocou. Hoje à tarde só houve uma vítima, o bolo de chocolate, e eu sou o suspeito do costume.

(Nota: Para quem não sabe, as Vicentinas é uma casa de chá, gerida por uma instituição de beneficência, na Rua de São Bento, perto do Rato. Não contem a muita gente.)

14 novembro 2004

Não sei se só acontece comigo mas, quando estou ainda longe da paragem, olho para trás e vejo que se aproxima o autocarro, começo automaticamente a ouvir a música do «Momentos de Glória». Porém, como nunca estou vestido com os calções e a t-shirt brancos e os sapatos de corrida, como os do filme, é muito mais difícil bater recordes. Ainda assim, sou medalha de prata de 38 (Calvário – Quinta de Barros) e medalha de bronze de 15 (Algés – Praça da Figueira). Para além disso, há muitos anos que detenho o recorde (ex-aequo com o Mário Leite) dos 200 metros Rua de São Pedro – Estação do Algueirão, obtido num dia memorável em que estávamos atrasados para a primeira aula e tínhamos idade para correr tão rápido.

12 novembro 2004

O panfleto santanista ou a regra do contraditório

O Governo vai editar um livro com as fotos e os extraordinários avanços do país nos primeiros 100 dias de governação com o sr. Santana Lopes em S. Bento. Deixamos aqui uma ideia e não cobramos um tostão: já agora, se fizessem uma publicaçãozinha trimestral para os pategos da nação saberem de fonte segura que alguém está a cuidar deles sem a interferência desse ruído anti-sr. Santana que tanto o apoquenta? Ao fim de 100 dias e já tanto para nos dizer. Aleluia. Viva o contraditório! Viva o panfleto anti-marcelista! E um especial obrigado à central de comunicação do sr. Sarmento.

Post-scriptum (que em latim quer dizer para além do post): Eles falam, falam, falam... essa é que é essa, porque quanto ao fazer, quando se faz não é preciso apregoar aos berros o que se fez aos quatro ventos. O povo pode ser aparvalhado, mas é menos parvo do que se pensa.

11 novembro 2004

Lembram-se de ter escrito aqui sobre a vaga de mulheres grávidas da minha geração. Agora, o período de gestação parece ter chegado ao fim. Nasceu o Miguel, o filho da Celita e do Nuno; o Francisco, o filho da Irene e do Ireneu; e o Tomás, o filho do José Rui Teixeira e da Ana. As boas-vindas para os três. O país não está grande coisa e o mundo um bocadinho pior, mas vamos tentar arrumar as coisas antes de terem aprendido a compreendê-las.

08 novembro 2004

A Avozinha América ou as diferenças genéticas entre a Europa e os EUA

Aquela mulher com mais de 70 anos era um retrato da América. Quando visitei o battleship USS Wisconsin, um navio de guerra fabuloso, da segunda guerra mundial (do Pacífico), que está ancorado em Norfolk, a velhota, que era um dos guias da visita, foi uma surpresa. Falava como um soldado ou um velho marinheiro antigamente embarcado naquele navio. Contava como os mísseis Tomahawk tinham sido ali instalados para a última missão operacional do navio durante a I Guerra do Golfo, na presença do Colin Powell, e onde tinham estado alojadas as ogivas com armamento químico - que, esclarece, graças a Deus, não foram usadas. Explicava como "our boys", os dela, tinham dado cabo dos japoneses na II Grande Guerra. Falava sempre num tom onde separava os bons dos maus com uma naturalidade impressionante. Não tinha, e pelo menos não demonstrava, grande piedade das vítimas dos ataques. Muito menos por iraquianos, por exemplo. Esclarecia que os longos canhões à proa não eram "canons", mas sim "guns", como se fosse um sargento-mor a corrigir recrutas, e descrevia-nos como eram as batalhas navais como se tivesse lá estado.

Quando nos afastámos dela, depois de nos ter falado da neta como se fosse uma doida que agora até andava a aprender japonês (vejam lá, a língua do inimigo), o meu colega alemão, jornalista do Merkur (um semanário nacional de grande tiragem na Alemanha), confessou-se impressionado com a naturalidade ou o orgulho com que a mulher falava da guerra e das armas. Lembrei-lhe que a avó dele, tal como as avozinhas europeias contemporâneas daquela avó americana, nunca poderiam ter um discurso igual porque as consequências das guerras na Europa não são apenas os corpos que chegam dentro dos sacos de plástico à pátria. A avozinha da América não sabe o que é ter a casa destruída em cada 20 anos; não sabe o que é ver a sua cidade completamente arrasada pelos raides aéreos do inimigo; nunca soube o que é ter a sua nação dividida pelas armas (a Guerra da sessessão, onde já vai?), nem conhece o ódio entre vizinhos, nem o medo de um inimigo a quem pode ver-se o rosto. Na Europa a guerra é ao pé de nós e ainda há memória. Ele, o alemão cujos avós conheceram o nazismo, concordou. Para a avó americana a guerra foi sempre lá longe, coisa de heróis.

É por estas e por outras, em coisas simples do quotidiano, que descobrimos que a América e a Europa são terras diferentes com outros códigos genéticos.

05 novembro 2004

O Ruca começa a trabalhar em Lisboa na segunda-feira. As boas-vindas são bem-vindas nos Comentários.
Sempre encarei os hábitos como rituais de uma religião natural. O mesmo jornal comprado na mesma tabacaria, a mesma italiana em chávena escaldada com meio pacote de açúcar e um croquete pela manhã. Nesta matéria, tenho percebido que os grandes evangelizadores são os empregados de café. Hoje entrei na pastelaria onde ultimamente tenho bebido o primeiro café da manhã, sentei-me a uma mesa e, antes que tivesse tido tempo de fazer o meu pedido, apareceu uma chávena à minha frente. Não gosto de ser previsível. Para mim, a cena mais triste da história da literatura é, em «A Morte de Carlos Gardel» de Lobo Antunes, a do casal que, para além de morar em Benfica, todos os Domingos comia frango assado. Se tomo um café sempre todos os dias antes de apanhar o autocarro não é por hábito mas por absoluta necessidade. Para conseguir ler e não ir a dormir todo o caminho, a babar o vidro que se pode «quebrar em caso de emergência».
Para que a vida não se torne a repetição de um mesmo dia, tenho desenvolvido ao longo do tempo alguns truques. Utilizar uma diferente combinação de transportes públicos para chegar ao mesmo lugar, deixar de frequentar os sítios onde já me adivinham o pensamento. Há quem possa considerar este comportamento um pouco obsessivo, mas esses são provavelmente aqueles que gostam de ver surgir do nada a sua bica escaldada.

(Agora que acabaram as eleições americanas, é bom poder voltar finalmente a assuntos mais sérios.)

A nova força do filho de Bush

Bush teve mais oito milhões de votos do que na primeira eleição, mau prenúncio se pensarmos que ele ia corrigir os erros do primeiro mandato. Lembro-me do Paulo Portas que nas campanhas eleitorais pedia a peixeiras e lavradores: "Dêe-me força!". Ora os americanos deram força, muito mais força, a George W. Bush. Que motivos tem ele para achar que errou ou para sentir que deve mudar a sua forma de agir? Tivesse ele errado assim tanto, não teria merecido a confiança de tanta gente. É assim mesmo, a democracia encerra alguns perigos, como fazer de toda uma nação a cúmplice de um erro colossal. E com esta legitimidade acrescida, arricamo-nos, desta vez sim, a ver a verdadeira natureza de Bush filho. Ainda tenho algumas esperanças de estar enganado...

03 novembro 2004

A nova acuidade de W.

A propósito de vitória de Bush, Jorge Sampaio disse esperar que a experiência do primeiro mandato de W. desse ao segundo «uma nova acuidade».

a) Será que Sampaio queria dizer "um novo cuidado"?
b) Será que isto é uma reminiscência eanista? Eanes teria dito "cuidade", "a cuidade"", ou "acuidade"?
c) Ou seria uma forma subtil, à Sampaio, de dizer para ele, o Bush, "andar mas é com cuidado", porque anda uma data de pessoal a jurar-lhe pela pele?
d) Sampaio quis passar a ideia de que ele próprio no segundo mandato é um rapaz muito mais acuitado?
e) Isto era um sinal para o Governo porque no segundo mandato Sampaio vai acuitar Santana?
d) O que é que afinal Sampaio quis dizer com isto?

Segundo o Dicionário de Sinónimos da Porto Editora:
Acuidade - acume; agudeza; finura; penetração; perspicácia; subtileza.
Acuitado - aflito, triste.
Acuitar - acoitar; afligir; apoquentar; entristecer.

A disposição individual potencia a percepção meteorológica dos dias. Este acordou cinzento, com algum nevoeiro. Não vejo o rio e para oeste, ao que parece, há quem tenha ainda piores governantes do que nós.

W.

George W. Bush está prestes a anunciar a vitória nas eleições, para passar mais quatro anos nas nossas vidas. Definitivamente, que isto nos entre na cabeça: a América não é a Europa, os americanos não pensam como os europeus e Nova Iorque e a Calofórnia não representam aquilo que os Estados Unidos verdadeiramente são.

02 novembro 2004

ESPECIAL: ATRAVÉS DAS ELEIÇÕES AMERICANAS

Em quinze dias nos Estados Unidos podem ouvir-se muitas opiniões, mas o que mais me espantou, entre visitas ao Departamento de Estado, ao Pentágono, ao Congresso, ao Senado e a respeitados think-tanks, é que a Política Externa de Bush e de Kerry poderá não será radicalmente diferente. Este é um resumo muito ligeiro do que disseram algumas pessoas que ouvi, com um grupo que integrava.

Simon Serfaty : Eleições para os próximos 20 anos
Professor universitáro, analista político, foi durante mais de 10 anos director do Programa para Europa do Center for Strategic and International Studies (CSIS) (http://www.csis.org/)

Para Simon Serfaty, estas são “as eleições mais significativas desde 1948, em termos de implicações internacionais”. Nem Kerry nem Bush podem fugir das novas estratégias de segurança traçadas depois do 11 de Setembro, daí o professor considerar que “o que eles puserem em marcha vai definir o que será o mundo nos próximos 20 anos”.
Mas em que sentido é que podem prever-se essas mudanças? Serfaty diz que não está preocupado com “a transição de Bush para Kerry”, mas sim com a transição de “Bush para Bush”. E porquê? Porque “Bush é um homem de convicções, ele sente as coisas, não as explica ou compreende”. É o homem que respondeu a um jornalista que o seu filósofo preferido era Jesus Cristo, mas não se deu ao trabalho de dizer porquê, alegando que o outro não compreenderia. “Ele diz ‘I feel’ e não ‘I think’”. Para o analista do CSIS, a personalidade do indivíduo que se senta na Sala Oval pode fazer toda a diferença. “Kerry vai querer ir ao encontro dos europeus e reabrir o diálogo”. Mas a sua política dependerá das respostas que obtiver.

The Atlantic Council: Política externa europeia está à espera do resultado das eleições
Neste think-tank que se diz independente, mas onde estava um cartaz de apoio a Kerry, uma das altas responsáveis resumiu muito bem qual a sensação que se tem em Washington em relação aos governos europeus: “Aqui sente-se que os europeus estão à espera do resultado das eleições para avançarem na sua política externa. Isso é muito mau se Bush ganhar”. E ainda foi mais concreta: “Tenho avisado os nossos amigos a não esperarem grandes mudanças na nossa política externa. Não esperem mudanças fundamentais com uma alteração de administração. Esperar isso seria esperar em vão”. A diferença seria a seguinte: “Kerry pode ser mais activo a abordar o conflito israelo-palestiniano. Mas na questão multilateral isso depende de como os parceiros europeus reagirem. As administrações querem é eficácia”.

John Huslman, Heritage Foundation : Simpatia não é tudo
Para este republicano da fundação conservadora da escola realista (e não neoconservadora), o caso do Irão pode vir a ser o paradigma de uma alteração na Política Externa norte-americana. “Todos achamos que é útil encontrar uma solução diplomática. Todos temos medo que os israelitas tomem a situação nas suas mãos”. Os americanos estão muito preocupados com isto e Kerry não se cansou de o dizer na campanha.
Huslman diz que “Kerry começará por ir à Europa dizer que tudo se trata de uma questão de estilo”, mas o analista também entende que “não é esse o problema”. E concretiza: “Há pessoas da entourage de Kerry que acham que os países europeus não vão dar mais tropas [para o Iraque e o Afeganistão] só porque ele irá à Europa falar com os líderes de uma forma mais simpática”. No caso de haver um segundo mandato de Bush, “o tempo definidor será entre Janeiro e Fevereiro [com as eleições no Iraque]. No Partido Republicano haverá uma guerra civil entre realistas – que é a visão tradicional – e neoconservadores. Se Bush perder as eleições, os neocon serão os culpados”, considera.
As diferenças entre os dois candidatos serão mais de estilo, segundo Huslman. No caso do Irão, por exemplo, “Kerry terá maior capacidade para se coordenar com os três da União Europeia [Alemanha, França e Reino Unido] nos primeiros quatro meses. Se Bush disser que vai atacar, todos sabem que será assim”.

Congresista Robert Wexler, democrata, da Flórida: "A fresh new start"
Pertence ao sub-comité para a Europa
Claro que agora é contra a intervenção no Iraque, destacando a ida para a guerra com base em falsas premissas, mas tal como Kerry votou a favor. “A pessoas como eu, que não alinham com Bush, colocou-se a questão: vamos votar por Bush ou por Chirac?” Embora seja um democrata do tal Estado, a Flórida, concorda que as maiores diferenças entre Kerry e Bush “são uma questão de grau”. É o que se deduz também destas palavras: “Talvez o melhor fosse mudar de administração e ter mais credibilidade. A União Europeia tem um papel a desempenhar. Mas se a Europa não for séria, apenas os EUA podem actuar”. No caso concreto do Irão, Wexler concretizou melhor a sua opinião: “A Europa ainda parece incapaz em termos de vontade política, para dar os próximos passos, o que me leva a pensar que se a União Europeia não actuar, serão os EUA a ter de agir”. Ora que diferenças temos aqui para os maiores falcões da administração Bush? “Com Kerry seria diferente porque toda a abordagem da sua administração seria muito mais multilateral. Bush não tem credibilidade e com Kerry teríamos um ‘fresh new start’”.
No entanto, quando se fala da reconstrução do Iraque, ele responde aquilo que os seus eleitores gostariam de ouvir: “Estou é preocupado com a reconstrução da Flórida, não com o Iraque”. (A conversa tinha-se passado poucos dias depois dos furacões terem devastado o seu estado).

Senador Richard Lugar, presidente do Foreign Relations Committee
Richard Lugar falou ao grupo na sala da comissão de Senado que durante anos partilhou com o senador John Kerry. Portanto, apesar de ser republicano, diz conhecer bem o candidato democrata: “Kerry é muito como Bush. Ainda são as mesmas pessoas que o aconselham e eu conheço-as muito bem”.
É preciso retribuir tanto o bem como o mal: mas porque há-de ser precisamente à pessoa que nos fez bem ou mal? (Nietzsche, Para Além de Bem e Mal)

Um estudo divulgado há alguns dias estima que poderão ter morrido cerca de cem mil civis iraquianos desde o início da ocupação americana. Os números, sobre ou subavaliados, recordaram-me mais este aforismo moralmente errado (na vertente de retribuição do mal, obviamente).