02 julho 2004

Jorge Sampaio está a auscultar as mais altas individualidades do país. Não consigo deixar de imaginá-lo a mandá-las entrar para o seu gabinete, a pedir para se despirem da cintura para cima e a pegar no estetoscópio. «Inspire fundo,... outra vez. Pois, o seu pulmão esquerdo quer dissolução da Assembleia e o direito Santana Lopes.» Também estou a imaginar alguns a susterem a respiração, amuados, até lhes fazerem a vontade.

Morreu Marlon Brando. Como vi os filmes mais importantes em que entrou pela ordem inversa (Apocalipse Now, O Padrinho, Último Tango em Paris, Há Lodo no Cais, Um Eléctrico Chamado Desejo), foi para mim tornando-se cada vez mais novo: Stanley a gritar por Stella na base das escadas de uma casa do Bairro Francês de New Orleans. Saber que morreu hoje, num hospital da Califórnia, foi por isso uma surpresa, notícias de alguém de quem não me lembrava há muito tempo.

Um por todos, todos por nenhum

Um homem. Bastou a vontade de um homem para o país ficar num alvoroço e agora parece que ninguém serve. Isto assusta. Numa democracia não devia ser assim. A pluralidade devia ser sinónmo de existência de muitas escolhas possíveis. E de gente boa para escolher à direita e à esquerda.

Durão Barroso escolheu a Europa, e seria difícil a um português rejeitar essa oferta. Mas devia haver algum sucessor no Governo, membro do Governo e do partido, que as pessoas pudessem ver com naturalidade no cargo de primeiro-ministro, mesmo que não concordassem com ele. O mesmo se passa no PS. Se houver eleições, quem é que está a ver Ferro Rodrigues como primeiro-ministro, depois de ter provado que não tem esse estofo, pela maneira como reagiu ao processo da Casa Pia?

O rectângulo está em risco. Alguém nos acode? Retiro a proposta do golpe de Estado. Talvez não houvesse ninguém a quem valesse a pena entregar o poder. A dona Constança não quer entrar nesta festança?

Primeiro-ministro sob caução, não!

O FC Porto é Campeão Europeu, Portugal está na final do Euro 2004, Durão é presidente da Comissão Europeia. Fizémos o pleno. Mas no campeonato nacional ainda está tudo por decidir. Santana já lidera o PSD, mas as coisas em Belém não estão claras. Ninguém é capaz de afirmar hoje, com a mesma convicção de há uns dias, que Jorge Sampaio não vai convocar eleições antecipadas.

Há um cenário que tem sido lançado, mas é indesejável: o do Presidente aceitar Santana se ele levar nomes fortes para as pastas económicas. Se Santana Lopes for aceite por Sampaio levando como caução nomes tão fortes como António Borges (nas Finanças) ou António Mexia (na Economia), para garantir a credibilidade do Governo, esta seria uma má solução. Por quê? Ou bem que se confia em Santana, ou bem que não se confia. Nomeá-lo primeiro-ministro por causa dos seus ministros faria dele um débil chefe de Executivo, que teria de se demitir um dos seus ministros um dia se fosse embora.

Santana deve ser primeiro-minstro, se os portugueses votarem nas listas do PSD, em eleições antecipadas. Instabilidade por instabilidade, a instabilidade já foi lançada.

26 junho 2004

Santana ganha na secretaria

Afinal Durão Barroso sempre se vai embora. Santana Lopes deve ser o sucessor, com Paulo Portas a vice-primeiro ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros. Ao que este País triste chegou. Santana ganhou na secretaria aquilo que nem o seu próprio partido alguma vez lhe deu. Será que o próprio PSD aceita uma coisa assim?

Se Jorge Sampaio agir à Sampaio, ficará tudo na mesma. Sem eleições antecipadas. Com Santana e Portas à frente da nação. Os próximos meses vão ser muito animados. É a única certeza.

Do outro lado temos a pobreza que é a oposição do PS e a liderança de Ferro Rodrigues. Portugal está em situação de emergência. Ou fazemos um golpe de Estado ou emigramos.

24 junho 2004

Demoliram uma fábrica e o rio já nos corre frente à janela. É apenas uma faixa estreita de rio, a trezentos metros de distância, mas já dá para mergulhar, molhar imaginariamente os pés ao fim da tarde. É um salto para a água mais horizontal do que vertical, com elementos técnicos que contrariam as leis da gravidade. Dentro dela, a trezentos metros de distância, é mais fácil suportar o calor das águas-furtadas e a tarde de trabalho. Por vezes, um navio acosta e tapa-nos a vista com uma parede de metal; prolongamos ainda mais o exercício de transmigração e partimos com ele, clandestinos.
As eleições europeias, perdoe-se o atraso do post, trouxeram ao país uma estranha discussão: quem ganhou as eleições foi Ferro ou o Partido Socialista? O PS ganhou por causa de Ferro ou apesar de Ferro? O homem resistiu e sobreviveu. E agora arrisca-se a que um dia o poder lhe caia no colo. Mas os seus amigos no partido querem livrá-lo desse fardo. É uma original consequência do melhor resultado eleitoral de sempre para o PS.

Na coligação a coisa também é excêntrica. O PSD foi um partido canguru que levou na bolsa um pequeno partido vampiro que, não só se deixou transportar através da campanha sem mostrar o que na verdade diria se estivesse a concorrer sozinho, como sugou dois deputados laranjas e não reduziu a sua representação em Estrasburgo. O PSD foi, de facto, o único partido que perdeu as eleições.

Não admira que o PSD ande a pensar se é melhor ir sozinho ou acompanhado às legislativas. Que podem ser bem depressa, se Durão Barroso aceitar ser presidente da Comissão Europeia. Depois de Guterres ter fugido pela porta baixa depois da derrota eleitoral nas autárquicas de 2001, Durão quererá sair entronizado pela grande porta depois da derrota eleitoral nas europeias de 2004? Ao alimentar o suspense sobre o seu nome, Barroso passa o sinal de que o país é uma realidade secundária. Ou quererá dizer depois que é querido lá fora para ganhar credibilidade cá dentro?

Um regresso

Regresso ao blogue, como se o blogue fosse meu, como alguém que regressa a casa anos depois de ter desaparecido pelo mundo, e já não sente bem aquele lugar como seu. Este é o blogue do Tiago, cada vez mais, e sobretudo por minha ausência, mas também melhor por isso mesmo.

21 junho 2004

É um dos momentos mais reconfortantes do quotidiano, quando acabamos de ler um livro e vamos à estante escolher o seguinte. Não sabemos muito bem o que nos apetece, lemos a contracapa, avaliamos o peso e o volume, o índice de legibilidade em transportes públicos, o tamanho da letra, etc. De todos os critérios, o que mais utilizo é o da leitura do primeiro parágrafo. É tão falível como todos os outros, mas é por causa dele que vou andar a arrastar por Lisboa, nos próximos dias, O Passageiro Walter Benjamin de Ricardo Cano Gaviria:

Por momentos, precisamente ao sair do túnel que desembocava na longa escadaria, conduzindo às primeiras ruas da aldeia, a ilusão de uma placidez reconfortante foi quase perfeita. O forte banho de luz arrancou-o por um instante do espaço opressivo delimitado pelo quadrado betuminoso dos cais de embarque, onde tudo, desde as paredes raiadas da estação, até aos sombrios e distantes vagões colocados na via desactivada, passando pelo próprio olhar da criança que transportava as bagagens e oferecia os seus préstimos à comitiva, parecia albergar uma secreta correspondência com o boné cinzento dos polícias, com a voz inflexível do homem uniformizado que se recusara a carimbar-lhes a entrada no país, e essa espécie de nó na garganta desapareceu por completo. Ali estava de novo a luz mediterrânica que os acompanhara, rude e estimulante, durante toda a travessia a pé pela estrada Líster, e que agora os abandonava à sua sorte ao entrarem propriamente na aldeia, após o opressivo parêntesis da estação.

(Dedicado à Isabel, para que não cancele a sua assinatura anual)

16 junho 2004

«O rapazinho está fora de si. Abre caminho através da multidão, gritando, até à égua, abraça-lhe o focinho morto e ensanguentado, e beija-a, beija-a nos olhos, nos beiços...» (Crime e Castigo) Raskólnikov sonha com a infância, com um domingo em que passeia com o pai e vê um camponês bêbado bater no seu cavalo até à morte. No acto que despertou a loucura que o acompanharia o resto da vida, Nietzsche, em Turim, em 1889, corre para um cavalo que está a ser açoitado pelo cocheiro e abraça-lhe o pescoço. A influência de Dostoiévski em Nietzsche ultrapassa nesse momento a ficção. Ou transforma-se em ficção, o que é quase a mesma coisa.

A ventoinha

O calor nas águas-furtadas já só pode ser atenuado com uma combinação de nudez e de ventoinha. O Carlos de Oliveira tem um poema sobre as vantagens de viver numa mansarda («Vidro», Micropaisagem), de que já não me lembro muito bem. Temos mais chuva, quando chove, e mais calor, quando faz sol, do que os andares mais baixos. Amanhece mais cedo, qualquer coisa assim. Vivemos em condições meteorológicas extremas. Abraçamo-nos mas está demasiado frio para nos despirmos. Despimo-nos mas está demasiado calor para nos conseguirmos abraçar. Etc.

14 junho 2004

Um dos conceitos mais interessantes da área dos estudos eleitorais é o do votante sofisticado ou inteligente. Simplificando, o eleitor não vota na que seria naturalmente a sua primeira escolha, mas tendo em conta outros factores, aritméticos ou simbólicos. Os eleitores têm motivações diversas e insondáveis e a agregação dos seus votos em percentagens torna-se na proclamação de um oráculo que «não revela nem esconde, dá sinais.» O facto de, esta noite, os sinais serem múltiplos e contraditórios revela apenas que precisamos de intérpretes mais sofisticados e inteligentes e de mais sociologia eleitoral.

08 junho 2004

Terça-feira, oito de junho de dois mil e quatro - Vénus em trânsito pelo sol, numa coreografia de sombras. Se tivesse um diário, esta seria a entrada mais importante do dia, mesmo de toda a semana. Vénus em trânsito pelo sol, num teatro de sombras.

02 junho 2004

Morar num terceiro andar obriga-nos a conviver com a atracção pelo abismo. Hoje suicidou-se-nos mais um pano do pó. Não deixou sequer uma nota a explicar uma decisão tão drástica. Mas já estamos habituados. Os nossos objectos têm tendência a lançar-se em queda livre. Quanto a isso, as molas da roupa são os escandinavos dos objectos. À mínima distracção uma lança-se no vazio. E os nossos vizinhos também parecem ter o mesmo problema. Há um telheiro no rés-do-chão onde repousam os restos mortais de cada vez mais objectos improváveis: um vaso inteiro, muitas molas de roupa, um pano do pó, um soutien, dois pares de cuecas. São apenas dados sem teoria, para o caso de alguém querer actualizar o trabalho de Durkheim.

01 junho 2004

Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Talvez seja mesmo possível entrar na cabeça de John Malkovich, cair dela para um terreno ao lado de uma auto-estrada. Mas mais interessante seria entrar na de Charlie Kaufman. As ideias labirínticas saem de cérebros labirínticos e todos temos cérebros assim, com os nossos próprios animais míticos. Charlie Kaufman parece ter simplesmente perdido a ponta do fio que indica o caminho mais rápido entre o cinzento mais profundo e a luz do dia. E leva-nos de memória em memória, numa organização improvável das imagens. Charlie Kaufman é o argumentista de Being John Malkovich, Adaptation (Inadaptado) e, agora, de Eternal Sunshine of the Spotless Mind (O Despertar da Mente). O título original do filme é retirado de um poema de Alexander Pope («How happy is the blameless vestal's lot!/ The world forgetting, by the world forgot./ Eternal sunshine of the spotless mind!/ Each pray'r accepted, and each wish resign'd.») e não se podia pedir mais do que a recusa de uma tradução literal. Três e muito.

28 maio 2004

O Embaixador de Jesus, Paula Rego

Amaro tem as mãos sobre o manto azul. A mão esquerda sobre a cabeça de Amélia, a direita na perna. Amélia retrai-se, perturbando por momentos o equilíbrio entre a razão e o desejo. A batina negra dele parece ganhar o mesmo valor simbólico do chapéu preto dos vilões nos westerns. Ela está vestida de branco. No fundo, em volta, anjos ou mulheres-cão, outras testemunhas de um crime, uma boneca, um bébe, o reflexo de Amaro.

Foi este o quadro – ou um dos quadros – de Paula Rego que ardeu, esta semana, em Londres, no incêndio de um armazém de obras de arte contemporânea.

Podemos, pelo menos, ficar com o momento seguinte da cena, pelo Eça:

Amaro então chegou-se por detrás dela, cruzou-lhe os braços sobre o seio, apertou-a toda - e estendendo os lábios por sobre os dela, deu-lhe um beijo mudo, muito longo... Os olhos de Amélia cerravam-se, a cabeça inclinava-se-lhe para trás, pesada de desejo. Os beiços do padre não se desprendiam, ávidos, sorvendo-lhe a alma. A respiração dela apressava-se, os joelhos tremiam-lhe: e com um gemido desfaleceu sobre o ombro do padre, descorada e morta de gozo.
Eça de Queiroz, O Crime do Padre Amaro

(Apesar de Eça ter quebrado uma das regras fundamentais de construção de cenas eróticas, a utilização do termo «beiços», não deixa de ser uma descrição sugestiva.)

Remover

Acabei de receber uma carta de José Luís Arnaut a motivar-me para o Euro, quando a única coisa que me poderia desmotivar era receber uma carta do Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro a tentar motivar-me. Apeteceu-me logo cancelar a encomenda da grade de «minis» e enrolar a bandeira, mas fiz o mais razoável - o mesmo que julgo que fará o resto dos «caros portugueses» - voltei-lhe as costas e colei-a no frigorífico (na parte de trás tem um calendário dos jogos).

26 maio 2004

O oásis de Amesterdão

A Gisela leu sobre o suicídio botânico e escreveu-me a dizer que lhe acontece exactamente o contrário. No escritório acham estranho que apenas as plantas que estão à volta dela sobrevivam. Imagino-a no seu oásis, a colher tâmaras com um braço e a agrafar com o outro, com um deserto de secretárias a estender-se centrifugamente. Depois de ver a mãe dela a cuidar do quintal de Moledo, acredito simplesmente que deve haver algo de genético na relação com os vegetais.
E a Eva, a irmã da Gisela, está grávida. Parabéns a ela e ao César, a ele o que é dele.

(Gisela, como não sei se conseguiste encontrar alguma coisa da Adília Lopes aí por Amesterdão, toma lá dois poemas.)


Minha avó e minha mãe
perdi-as de vista num grande armazém
a fazer compras de Natal
hoje trabalho eu mesma para o armazém
que por sua vez tem tomado conta de mim
uma avó e uma mãe foram-me
entretanto devolvidas
mas não eram bem as minhas
ficámos porém umas com as outras
para não arranjar complicações

A Pão e Água de Colónia, Frenesi, 1987




Maria Andrade vai
à casa de banho
do aeroporto de Kinshasa
para rezar
precisa de agradecer
o encontro fortuito
com Túlio
como nas igrejas
em que entra
pela primeira vez
(é a primeira vez
que entra na casa de banho
do aeroporto de Kinshasa)
pede três graças
que mantém secretas
o Pai bate na testa
o Filho entre as maminhas
o Espírito na maminha esquerda
e o Santo na direita
às vezes o Espírito Santo
fica todo
na maminha esquerda
outras vezes o santo
fica no ar entre as maminhas
Maria Andrade
de joelhos
de mãos postas
reza
mas as maminhas interferem
com os antebraços
Maria Andrade
nunca viu nada escrito
sobre este assunto

A Continuação do Fim do Mundo, & etc, 1995

24 maio 2004

Uma Primavera de mulheres

A Carla está grávida. O Pedro (Santos) mostrou-nos a ecografia. Como ainda é demasiado cedo para se distinguirem feições, convencionámos que o lado esquerdo se parece mais com a Carla e o direito como o Pedro. A Irene também está grávida e o Ireneu já começou a trocar os guias de viagem para os próximos anos: os do Perú, do Bangladesh, da Albânia, pelos da Eurodisney. A minha prima Sílvia também está. E a Celita, e a Sónia. Encontrei o Hélder da minha turma, que vai ter um filho em Setembro, e o Rui vai ter gémeos (contou-me o Fernando), e acho que ouvi falar que a Eunice também estava grávida, mas não tenho a certeza. Ainda é cedo para falar de uma explosão demográfica, mas a este ritmo os meus amigos vão obrigar o Professor Barata a actualizar a sua sebenta de 1961.

21 maio 2004

OS COMEDORES DE ESPAÇO
O terror instalara-se na região com a chegada dos comedores de espaço. Os habitantes olhavam atónitos o espaço a desaparecer a toda a sua volta, incluindo casas, ruas, rios, árvores. Nada indicava que atrás deles não surgissem criadores de espaço capazes de repor as coisas nos devidos lugares ou que os próprios comedores não pudessem vomitar tudo o que haviam devorado. Mas mesmo nesta circunstância o mais provável era que o espaço, transformado entretanto nas entranhas de quem o deglutira, pouco tivesse já a ver com o que os habitantes haviam conhecido, nele se misturando coisas que os comedores trouxessem na memória e que decerto lhe viriam agarradas quando violentamente o expelissem.
Luís Miguel Nava, Vulcão

(O itálico é meu.)

19 maio 2004

XXII
O crepúsculo excita os loucos. – Lembro-me que tive dois amigos a quem o crepúsculo punha muito doentes. Um deles, nessas alturas, desconhecia todos os deveres da amizade e da educação, e maltratava, como um selvagem, o primeiro que aparecesse. Vi-o atirar à cabeça dum mordomo um excelente frango, em que ele pretendia ver não sei que insultante hieróglifo. A tarde, precursora das volúpias profundas, estragava-lhe as coisas mais suculentas.
Outro, um ambicioso falhado, tornava-se, à medida que o dia tombava, mais acre, mais sombrio, mais travesso. Ainda sociável e indulgente durante o dia, era implacável à tarde; e não era apenas contra os outros mas também contra si mesmo, que raivosamente se aplicava a sua mania crepusculosa
O primeiro morreu doido, incapaz de reconhecer a mulher e o seu filho; o segundo traz em si a inquietação duma doença perpétua, e se fosse decorado com todas as honras que podem conferir as repúblicas e os príncipes, creio que o crepúsculo acenderia ainda nele um ardente desejo pelas distinções imaginárias. A noite, que lhes punha no espírito as suas trevas, ilumina o meu; e, ainda que não seja raro ver a mesma causa engendrar dois efeitos contrários, fico sempre como que intrigado e alarmado com ela.

Charles Baudelaire, O Spleen de Paris

Nunca atirei – nem tenho amigos que tenham atirado – frangos excelentes à cabeça de ninguém. A minha sanidade e a dos meus amigos vai ao ponto de não atirarmos a ninguém mesmo frangos menos bons. É um limiar de loucura muito débil, mas suficiente para tempos tão estranhos e agitados. Não tenho qualquer «mania crepusculosa», apenas o crepúsculo à minha frente e uma citação que não deve ser desperdiçada. Também não tenho nenhuma teoria geral sobre as personalidades crepusculares, capaz de explicar a diferença entre as matinais e as nocturnas. A passagem das trevas para a luz ou da luz para as trevas (qualquer que seja o sentido, real ou metafórico) não pode deixar de provocar distúrbios de personalidade. Talvez a loucura crepuscular seja uma doença mais comum do que os compêndios de psicologia admitam, e o seu primeiro sintoma seja o de se escrever textos sobre ela.
XXXIII
Devemos andar sempre bêbados. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê? Com vinho, com poesia ou com virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: «São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com virtude, a teu gosto.»

Charles Baudelaire, O Spleen de Paris

Sai um traçadinho, um hexâmetro e um pires da virtude do dia para a mesa do fundo.

Inventário de existências

Já só falta demolirem um ou dois pavilhões das fábricas para ter vista de rio, as sardinheiras estão a recuperar bem depois do coma, mais uma vez não consegui combinar qualquer coisa com o Zé Pedro e já não vejo o Armando há quase duas semanas, a médica olhou para a ecografia do meu ombro e está indecisa entre tendinite e micro-rotura, nenhuma das quais desculpa a minha má forma no vólei, a tradução vai lenta, ainda no capítulo sobre Rousseau, continuo, não desempregado, mas mal-empregado, a Joana já tirou para fora a roupa de Verão e fica muito bem com ela, já instalámos a ventoinha frente ao sofá para sobrevivermos aos meses quentes. Isto é um resumo de tudo sobre o que poderia ter escrito nestes últimos dias, para vos poupar tempo e dioptrias. Sobre a situação do mundo, comprem um jornal.

12 maio 2004

Não sendo pitagórico, dou comigo frequentemente a encontrar teoremas matemáticos no quotidiano. Hoje, com a greve da Carris, percebi claramente que o número de trabalhadores em greve cresce em igual proporção ao do de utentes reaccionários nas paragens de transportes públicos.

O suicídio botânico

Alguns dias depois de escrever o texto sobre a minha sardinheira suicida, chegou-me às mãos o livro do Seinfeld. Ao que parece, o meu problema é mais comum do que pensava:

Não tenho plantas em minha casa. Elas comigo não sobrevivem. Algumas nem esperam até morrer; suicidam-se. Um dia cheguei a casa e dei com uma enforcada num frio de macramé, com o vaso atirado fora do suporte. O recado dizia: «Odeio-te a ti e aos teus discos.

(Jerry Seinfeld, Linguagem Seinfeld, Gradiva.)

Nem enforcamento nem queda do terceiro andar. Com métodos suicidas tão espectaculares e interessantes, a minha sardinheira optou pela greve de fome. Definha lentamente, caem-lhe as pétalas. Se alguém conhecer um bom psicólogo de plantas, deixe por favor o contacto nos comentários. Ou o nome de uma boa marca de adubos.

Catálogo de monstros

Não me tem apetecido escrever no blogue, por isso fiz a coisa óbvia: ler o Livro do Desassossego para inspiração. Se existisse a tecnologia, tenho a certeza que Pessoa o teria publicado em primeiro lugar em forma de posts, em insónias sucessivas. A consequência também é óbvia, depois de ler algumas páginas, nada que escreva suporta a comparação. A inspiração transforma-se em citação, como a sonolência em monstros:

243.

Quem quisesse fazer um catálogo de monstros, não teria mais do que fotografar em palavras aquelas coisas que a noite traz às almas sonolentas que não conseguem dormir. Essas coisas têm toda a coerência do sonho sem a desculpa incógnita de se estar dormindo. Pairam como morcegos sobre a passividade da alma, ou vampiros que suguem o sangue da submissão.
São larvas do declive e do desperdício, sombras que enchem o vale, vestígios que ficam do destino. Umas vezes são vermes, nauseantes à própria alma que os afaga e cria; outras vezes são espectros, e rondam sinistramente coisa nenhuma; outras vezes, ainda, emergem cobras dos recôncavos absurdos das emoções perdidas.


(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, p. 239.)

05 maio 2004

O eclipse nublado

Os fenómenos cósmicos não são tão espectaculares quando não os podemos observar. Com o céu nublado não consegui ver ontem o eclipse da Lua. Sendo assim, não passou de uma anotação num anuário ou de um ponto num cálculo de trajectórias. O mecanismo dos eclipses da Lua é igual ao do cinema. Temos, em uma ou duas horas, a sequência de planos que habitualmente se sucedem ao longo de um mês, do quarto crescente ao minguante. Para conseguir o mesmo efeito, vou ter de olhar para o céu nocturno todas as noites durante um mês e abstrair-me de tudo o que aconteceu durante os dias. Abstrair-me do que acontece durante os dias não é muito difícil mas, ainda assim, vou consultar os anuários e esperar pelo próximo eclipse.

(Os eclipses costumam ser presságios de acontecimentos. Ontem não era muito difícil de adivinhar. Com o céu nublado, bastava olhar para a televisão. Na mesma altura, o Porto passava à Final da Liga dos Campeões. Parabéns.)
- Por que não falas tu comigo?, perguntei eu à Júlia, a minha cadela, que sempre esboçou essa vontade contida nos latidos. Não comunicamos por telepatia, uma coisa bonita, como o Tiago e a Teresa, mas prosaicamente ela ladra e eu falo, e entendemo-nos assim apesar de termos os dois nomes de gente.

04 maio 2004

- É ridículo dar nome de pessoa a um animal doméstico, e a plantas ainda é mais, por o antropomorfismo ser mais difícil de compreender. – disse eu para a Teresa, a minha sardinheira, que não me contradisse. A pobre tem tendências suicidas, sempre no beiral a ponderar o voo e a queda. As flores vermelhas, que interpretamos como um despontar de beleza, talvez sejam apenas um pedido de ajuda, para chamar a nossa atenção. Não se preocupem comigo, estou só a brincar, não estou louco, não falo com as plantas. Na verdade, eu e elas comunicamos por telepatia.

30 abril 2004

Sejam bem-vindos...

... Estonianos, Letões, Lituanos, Polacos, Checos, Eslovacos, Húngaros, Eslovenos, Cipriotas, Malteses.

27 abril 2004

O Clube Schopenhauer

Fui hoje a mais uma reunião do Clube Schopenhauer, na sala de espera do Centro de Saúde de Alcântara. Só queria uma receita de medicamentos para a alergia, mas tive de assistir primeiro ao encontro. É uma reunião clandestina e espontânea entre desconhecidos. As pessoas vão entrando e, enquanto esperam pela voz do médico, iniciam diálogos e monólogos pessimistas e niilistas. Sobre a velhice, a doença, a passagem do tempo, os filhos ingratos e as filhas mal casadas. Leio o livro que trouxe para a espera (A Viagem Vertical de Enrique Vila-Matas), fingindo não ouvir nada. É sobre um homem que, no fim da vida, inicia uma viagem forçada que o leva a questionar a existência. A minha médica (Luísa de Jesus, a mais atenciosa que já tive) anuncia o meu nome e, quando entro no consultório, o meu mal já não é físico mas metafísico. Ao sair, dói-me mais o universo que a cabeça.

25 abril 2004

Tiros de pétalas vermelhas

Imaginemos uma quantidade de militares a preparar um golpe de Estado. Imaginemos que descem à cidade, à capital e centro do poder, com as suas armas. Sim, porque eles vinham armados, e as armas matam, acima de tudo. Imaginemos que eles tinham a consciência de que poderiam ter de disparar as suas armas para tomar o poder. Ou imaginemos que os do poder faziam fogo com as armas que também tinham, e que os revoltosos ripostavam. Agora, imaginemos uma quantidade de militares a fazer um golpe de Estado com flores no cano das espingardas, que acima de tudo matam. Há uma beleza romântica no dia 25 de Abril, que vai acentuar-se com o passar dos anos. À hora que os militares saíram os quartéis não imaginavam que iam terminar o dia vivos, com flores vermelho-vivo a sair da boca das armas.

23 abril 2004

Sobre o optimismo antropológico do Tiago

O ser humano não é apenas uma massa biológica modável pela educação: esse foi um personagem de Rosseau. Com o desenvolvimento da genética e da neurologia, temos cada vez mais consciência de como somos determinados biologicamente. Em todas as raças, em todas as culturas e em todos os tempos, um homem foi sempre um homem: angústias, temores, alegrias, traições, bens e males, luta pelo poder, pela sobrevivência, pelo sexo. Se em geral evoluímos, foi porque melhorámos a sociedade através das ideias: a vida nas democracias, em geral, fez-nos em geral melhores pessoas, mas as leis e as regras servem exactamente para travar a nossa natureza (ia dizer maligna, mas seria ir longe demais) imperfeita. Não sou tão crente nessa evolução que defines como positiva: não creio que cada pessoa seja melhor do que cada pessoa que viveu há 200 ou 500 anos. A crueldade permanece bem vincada no mundo: por mais que a sociedade evolua, não transformará o homem. Todos os projectos de homem novo falharam e nem o melhor dos sistemas erradicará os males do universo. Acredito que podemos melhorar colectivamente, através de organizações mais justas, mas seremos sempre iguais a nós mesmos. Daí o meu pessimismo antropológico estar aliado a um certo optimismo sociológico moderado. Utopia a pensar nas organizações, porque a razão pode criar sistemas perfeitos, realismo a pensar na massa humana, porque o interesse da espécie reside na sua imperfeição.

22 abril 2004

Brown Bunny, Vincent Gallo

A cena é tão desnecessária como todas as outras: o lago de sal seco, o circuito de corridas, Violet, Lilly, Rose. No final, gostei retrospectivamente das paisagens de pára-brisas, da lentidão das sequências. Ganham sentido apenas retrospectivamente com a tristeza e o desespero de Bud. Três, quase quatro.

Sobre o pessimismo antropológico (a propósito de um comentário do Vítor)

O ser humano é uma massa biológica que desperta num tempo e num lugar que desconhece. Nos primeiros tempos de vida, não é capaz de fazer as escolhas conscientes que estão na base da moralidade. Não sei se o homem é naturalmente bom ou mau, deixo isso para a genética. Acho, simplesmente, que é maleável (embora não infinitamente) e que existem épocas, culturas, ordenamentos políticos, educações, etc., que contribuem mais para a sua benevolência ou malevolência. Ao longo da história, os homens têm dado exemplos de bondade e de malignidade. Se os últimos excedem os primeiros é uma questão estatística que não me sinto capaz de resolver (ainda para mais porque não toma em consideração as acções futuras). Sou um optimista antropológico, no sentido de achar que é possível tornar o homem melhor. E, apesar de não acreditar em nenhuma lei de progresso contínuo das sociedades (em nenhuma lei de progresso ou de decadência), acho que temos melhorado bastante nos últimos séculos.

21 abril 2004

O Radicalismo de Bakri e o Racionalismo na ponta da baioneta

É impressionante a entrevista de um alegado teórico da al-Qaeda na Europa, Omar Bakri Mohammed, a Paulo Moura, na Pública , no passado domingo. E impressiona não só pela maneira de pensar de um líder deste radicalismo islâmico: o que não falta por aí são fundamentalistas religiosos de todos os credos, completamente inofensivos. O que importa considerar é a fragilidade das democracias liberais. Estes mujahidin urbanos odeiam o nosso sistema exactamente por ser livre, odeiam portanto a liberdade e as leis feitas pelos homens - pois só reconhecem as leis de Deus -, e assim odeiam-nos a todos, acreditando que a nossa morte fará a felicidade Dele. Não estivesse já a teoria posta em prática, e isto far-nos-ia sorrir se fosse dito no dia 10 de Setembro de 2001.

Uma fragilidade das democracias liberais consiste em aceitar os inimigos no seu próprio seio. Mas esta tolerância relativa também pode ser a sua força em múltiplos aspectos. Omar Bakri dá entrevistas, participa em programas de televisão, vive em Londres. Sete alunos seus foram presos recentemente por suspeitas de estarem a preparar um atentado, enquanto ele prega a morte, mas vai cumprindo a lei britânca. Não atacará Inglaterra por ter um pacto de segurança com o país onde vive legalmente. Foi preso 16 vezes e libertado outras tantas. Lançou uma fatwa para matar John Major e continua a viver no Reino Unido. Qual o limite da tolerância democrática em relação a casos como este, que prega o islão como a religião do massacre?

Considerando este modo de pensar dos jihadistas, o proselitismo democrático como meio de combater o terrorismo pode ser uma falácia, mesmo que tivesse boas intenções genuínas. O problema do terrorismo não se resolverá militarmente, assim como não é com caçadeiras que se matam moscas. Nem com a democratização forçada do Médio Oriente. Enquanto uma revolução Iluminista não abalar o pensamento destes muçulmanos, dificilmente o jihadismo será travado. Nunca haverá democracias nos países onde Deus ainda manda nos assuntos públicos. Levaria uns anos, mas o racionalismo não se expandirá por aqueles desertos na ponta das baionetas.

20 abril 2004

Chopin no Túnel

O Tiago esclareceu-nos sobre um mistério antigo: ora o violinista do semáforo mais não será do que o célebre intérprete das sonatas de Chopin para violinos, a ensaiar áreas para os futuros concertos que vai dar por entre o condutores parados no Túnel do Marquês, sob o alto patrocínio do dr. Santana Lopes. O afadigado edil tem a noção das proporções, e como tal, encomendou um estudo que deu o seguinte resultado: a) os pianos prejudicam o tráfego automóvel; b) os pianos que deslizam em superfícies muito inclinadas chocam contra os automóveis; c) taxistas irritados só se comovem com o relato da bola; d) os violinos são mais leves.

19 abril 2004

Violinos no semáforo

É nestes pormenores que podemos aferir o grau de sofisticação e de progresso de uma sociedade. Vi um novo serviço a ser prestado nos semáforos. Depois da venda de pensos rápidos e da limpeza de pára-brisas, a música de violino. Com o semáforo no vermelho, um homem caminha por entre os automóveis a tocar violino, pedindo retribuição. Nem todos contribuem, mas já sabemos como o público do trânsito costuma ser exigente. As necessidades individuais evoluem com a afluência, e o que poderíamos julgar surrealismo é simplesmente Lisboa em dois mil e quatro: um homem a tocar violino no meio do trânsito. Talvez seja um retrato do país. Uma sociedade em que as pessoas têm cada vez mais qualificações e mais problemas financeiros.
«Calcular a velocidade e a posição.» A «posição» também pode ser entendida como uma metáfora. A posição geográfica é substituída pela posição política, ideológica, filosófica. Para marcar a minha posição e a velocidade a que me afasto dos meridianos mais a oeste (os que ficam à direita).
Talvez para provar que todas as palavras são metáforas (como escreveu Borges), blogue deriva de weblog, que deriva de log-book, abreviado simplesmente para log. Log (tronco, toro) refere-se ao dispositivo flutuador que se arrastava atrás de um navio para calcular a sua velocidade e posição. Log-book seria então o livro onde se registava esses movimentos. Um diário de navegação, um diário de bordo. A metáfora parece não ter perdido a sua força e utilidade: dezanove de abril de dois mil e quatro, onze horas e quarenta e seis minutos, ando lentamente, em Alcântara.

18 abril 2004

Hoje não ouvi notícias Não li os jornais O mundo todo sou eu e tu Prokofiev desfaz-se como a neve A música devia ser toda a melodia num momento só Vamos manietar notas Ouvi-las de uma vez Sorver tudo pelo gargalo do instante A falange na tecla fugaz do piano E logo noutra

16 abril 2004

The Dream of Reason. A History of Philosophy from the Greeks to the Renaissance, Anthony Gottlieb (Nova Iorque, W.W. Norton, 2001)

É um livro extraordinário para quem gosta de filosofia e de ciência, e de uma época em que as duas se confundiam. A análise condensa todos os mitos e histórias registados sobre cada um dos filósofos e reflecte sobre o que se conhece sobre os seus sistemas. No caso específico dos pré-socráticos, podemos perceber o quanto a ciência dependia (como ainda hoje) da imaginação e da observação. O conflito entre os elementos de Anaximandro, o mundo turbulento de Heraclito, a imobilidade do mundo de Parménides, poderão parecer-nos descrições demasiado imaginativas do funcionamento do universo. Mas não mais, por exemplo, do que um universo fechado sobre si próprio, finito mas sem limites, de Einstein.

O Atiçador de Wittgenstein, David Edmonds e John Eidinow (Temas e Debates, 2003)

A análise da realidade pode ser decomposta, para fins de simplificação. Um jantar entre duas pessoas, por exemplo. Podemos optar por estudar a complexa vida microscópica que se desenvolve em cima da mesa ou a própria estrutura física da mesa; a arquitectura do mobiliário; o estilo da gastronomia; o passado de cada uma das duas pessoas e do país onde tudo se desenrola; o significado do que dizem uma à outra; etc. O livro trata de um encontro entre Popper e Wittgenstein, numa conferência em Cambridge. E, se não fala da vida microscópica na sala da reunião do Clube de Ciência Moral, é bastante minucioso em praticamente tudo o resto. Mas, para mim, o seu maior problema será provavelmente o de transformar uma questão filosófica numa questão sociológica. É de leitura bastante agradável, enquanto estudo biográfico, mas submerge o encontro nas biografias. É como se tivéssemos a possibilidade de ler um relato sobre um jantar entre Platão e Aristóteles, Hobbes e Locke, Rawls e Hayek e o cronista descrevesse pormenorizadamente a refeição, das azeitonas à sobremesa, e apenas isso. Talvez a sociologia explique a animosidade entre os dois homens, mas esta é irrelevante para o problema filosófico de saber se existem genuínos problemas filosóficos.

Sobre a expressão «este não é o melhor dos mundos possíveis»

«Este não é o melhor dos mundos possíveis» é uma expressão optimista. A possibilidade de haver outro mundo, diferente, dependente das escolhas humanas, nega a crença realista e conservadora na inevitabilidade da desgraça. Mais pessimista seria: «vivemos no melhor dos mundos possíveis e é assim.» No caso do Iraque, o que mais me perturba é esta sensação de culpa por não ter solução para um problema que não criei. Às vezes temos de nos contentar com a escolha entre males menores, por mais que isso nos angustie. Ou ir assistir a concertos com sopranos, pianos e violoncelos.
Mas ontem, o concerto de Michael Nyman levou-me a um dos melhores mundos possíveis no Coliseu de Lisboa: o da fantasia abstracta da música de um piano, três violinos, um violoncelo e uma soprano. Há momentos com o mundo todo lá dentro.

15 abril 2004

Um dos piores mundos possíveis

Qualquer pessoa de bom senso devia subscrever o post do Tiago (uns quantos posts abaixo deste) sobre A Democracia e o Iraque. Concordo em pleno. A destituição e captura de Saddam valerão, moralmente, o número de mortos e estropiados que a guerra já causou? Uma democracia injectada à pressão será alguma vez uma democracia? O Iraque não é Portugal em 1974 e mesmo assim o país esteve por diversas vezes à beira de uma guerra civil. Se ali um líder político-religioso dissesse - matem-se os fascistas no campo pequeno! - eles acabavam lá mais do que mortos, esfolados. Como se está a ver com Moqtada al-Sadr.
Quanto às Nações Unidas, Tiago, tenho algumas reservas. Podem legitimar a ocupação com as resoluções que forem precisas, mas comandarem tropas combatentes no terreno, de peace enforcement, poderia ser igualmente um erro. Aquilo não é Timor, as Nações Unidas são odiadas no Iraque por causa do embargo (não são vistas como se fossem a Santa Casa), e a miscelânia de países que resultasse de uma força multinacional tornar-se-ia militarmente inoperante. Este não é de todo o melhor dos mundos possíveis.

14 abril 2004

Areia movediça

A actual e previsível situação no Iraque, para a qual tantos analistas avisaram vezes sem conta nos comentários antes da tomada de Bagdad, transporta consigo uma estranha pergunta: partindo do princípio que os membros da administração Bush não são completamente tontos, embora o pareçam, como é possível - com tantas informações à disposição -, que os falcões não tenham previsto a inevitabilidade do caos e da desordem entre a população xiita, sunita, ou curda? Assim, considerando que sabiam o atoleiro que os esperava, o que os motivou a desencadear uma guerra apenas positiva para empresas como a Halliburton e a Bechtel, no domínio da reconstrução, e para os empórios do armamento no domínio da Defesa?
Não creio que a decisão de fazer a guerra se baseasse apenas em 'wishful thinkings' embalados no messianismo democrático predestinado a dar a vitória aos 'bons', como nos filmes: votaram, e viveram felizes para sempre. O mundo é mais complicado do que isso, e os conservadores deviam ser os primeiros a sabê-lo.
Sem resposta a estas perguntas, resta uma certeza e uma suposição: é de supor que os eleitores norte-americanos vão sancionar Bush por ter criado um problema para o qual agora não tem solução; e é certo, ganhe Bush ou Kerry, que uma retirada precipitada do Iraque teria consequências muito mais nefastas do que teve a própria invasão. Este mundo não é mesmo o melhor dos mundos possíveis...

Soprar borregos

Debaixo da oliveira da minha infância, ao fundo do quintal na casa dos meus avós paternos, em Ermidas-Sado, no Alentejo, tive uma visão pascal, ou melhor, uma re-visão pascal. Lembro-me bem. Eu era pequeno, quase do tamanho do borrego que o meu avô António levava pela mão até ao altar de imolação debaixo daquela oliveira sagrada. E mostrava-me como se fazia. Duas facas: o canivete pequenino, o mesmo dos petiscos, e uma faca média de matança - pois havia uma maior para matar os porcos (embora na família não houvesse indús, há muito que não se matavam vacas). Primeiro, o meu avô metia a faca no pescoço do bicho, por uma das carótidas, de onde jorrava o sangue que regava a árvore (se a natureza tivesse imaginação, aquela dava azeitonas de cabidela). O animal não se manifestava. Ia desfalecendo devagarinho, um cordeiro, como se diz. Depois punha a faca maior de lado, e abria o canivete. Fazia um buraquinho numa das mãos do falecido, entre a carne e a pele, e enfiava por lá uma cana de soprar borregos: é uma cana normal, fina e pequena, previamente preparada pelo matador, para isso mesmo. Soprar os borregos. E era isso que o avô fazia: prendia a cana com um cordel, e soprava por ali adentro (por vezes deixava-me experimentar) e o borrego começava a inchar como se fosse um balão, conforme a pele lãnzuda se separava da carne. Quando estava bem cheio, quase a levitar, pendurava-o na oliveira, por um gancho de arame, passava-lhe a faquinha pela pele insuflada e descascava-o num instante. Eu levava a pele para o casão, e houve vezes em que chegou a oferecer duas ou três ao meu irmão, para vender. Valeram 300 escudos cada uma no curtidor lá da terra. A partir daqui, o ritual começava a meter tripas e cacholas e para mim, perdia o interesse. Este fim-de-semana, o meu avô, que já não mata os borregos - agora é o meu tio, ou o meu pai -, esteve a mostrar-me a sua horta, debaixo da oliveira, ao fundo do quintal. Mas, à mesa, cortou a linguiça com a tal faquinha de esfolar os borregos, afiada, pontiaguda, a mesma dos petiscos. Tudo isto a propósito de uma pequena reportagem no Diário de Notícias, sobre a proibição de imolar borregos nas ruas das terras alentejanas, que na Páscoa enchiam os poiais de sangue escuro.

«A blindness that touches perfection, / But hurts just like anything else.»

Se pudessem ver a beleza de tudo o que não consigo descrever... Os Joy Division servem de banda sonora para a minha incapacidade de expressão («if you could just see the beauty, / These things I could never describe», Isolation). (A Joana não gosta da voz o Ian Curtis, acha que é má, como a minha. Talvez seja porque a tenho ouvido tanto desde os quinze anos, quando alguém me emprestou uma cassete com o Closer.) Oiço a música e não escrevo.
Talvez seja isto o progresso. Tenho notado, nos últimos anos, que em Salto, uma vila de Trás-os-Montes, o número de jornais disponíveis está a aumentar em proporção inversa ao número de vacas que passam junto à minha porta. Há três ou quatro anos, só se conseguia arranjar o Jornal de Notícias, se encomendado de véspera, e as manadas de vacas barrosãs passavam pontualmente duas vezes ao dia. No ano passado, abriu uma papelaria onde se podia comprar, sem aviso prévio, o Diário de Notícias e o Público, mas as vacas começaram a atrasar-se ou a saltar refeições. Fui este ano, pela primeira vez, passar lá a Páscoa (a minha avó fez 90 anos a 9 de Abril, Sexta-Feira Santa). Na porta da papelaria podia ver-se à distância o característico saco do Expresso, mas nem uma vaca passou junto à minha porta nos três dias que lá passei. Um conservador ficaria provavelmente perturbado por uma mudança tão rápida nos costumes e nas paisagens rurais (mas, por outro lado, um conservador gosta de ler o seu Expresso ao Sábado). Eu, limitei-me a comprar o jornal, a comer ao jantar bifes de vitela e a pensar nisso só o suficiente para escrever este texto.

Lá Fora, Fernando Lopes

Em diversas alturas do filme, ficamos com a ideia de que José Maria (Rogério Samora) está a ponderar o suicídio, mas não tão seriamente como eu a meio do diálogo de Laura (Alexandra Lencastre) com a sua psicoterapeuta. A única coisa que me impediu de tomar os comprimidos foi a curiosidade em saber o que era a encomenda do Jean-Luc.

12 abril 2004

Pintámos uma parede da nossa sala de azul. Uma parede com cor não serve qualquer propósito ou reflexão. Talvez inconscientemente quiséssemos prolongar o exterior para dentro de casa, rodando os planos. Se pintássemos a tecto, era uma metáfora. Assim, é um plano onde a luz que entra pela janela é absorvida. Apenas isso. Mas, não intencionalmente, alterou-se com isso a nossa percepção do espaço, como se caminhássemos agora perpendicularmente em relação ao hábito.

1000

Acabámos de chegar às mil visitas. Ao visitante anónimo, o nosso obrigado.

07 abril 2004

A Democracia e o Iraque

Acredito na universalidade da democracia; que não existe tempo e lugar específicos para ela. É conhecido que existem determinados factores que a favorecem, como a existência de uma classe média ampla e sólida, mas não há provas de que existam regiões, religiões ou povos incompatíveis com uma qualquer forma democrática de organização política. Logo, gostaria de ver a democracia estender-se a todos lugares do planeta. Mas existem princípios políticos perfeitos cuja invocação pode tornar-se perigosa. A autodeterminação e a democracia são, na política mundial, dois dos exemplos mais expressivos. A autodeterminação, aplicada como princípio universal, resultaria em caos e mortes num mundo com muitos mais grupos étnicos e linguísticos do que estados. Da mesma forma, a imposição da democracia pode ter custos proibitivos, para quem acreditar que a vida humana deve ser um fim e não um meio, que não se podem sacrificar vidas por um fim de resultado incerto. Especialmente para quem considerar, como eu, que as vidas de ocidentais e de cidadãos de outros lugares do mundo têm o mesmo valor. Os estados democráticos devem fomentar a democracia, mas devem adoptar regras de prudência quando acharem que a sua imposição possa ter resultados contraproducentes. No Iraque morreram hoje cerca de cento e oitenta pessoas e mais morrerão nos próximos tempos. (Claro que, no caso desse país, a questão nem se põe, pois esse não foi o argumento utilizado para a invasão, mas apenas uma atenuante para o desastre.) Agora, ainda do ponto de vista da perda de vidas humanas, a retirada imediata e incondicional das tropas estrangeiras do país seria outro erro, por muito que nos custe a nós, os que sempre estivemos contra a invasão. A única solução poderá agora ser procurar construir a legitimidade que os Estados Unidos perderam em volta das Nações Unidas.
MORTE DE RIMBAUD (III.)

[...] um espelho onde não me reconheço. mas o pior é que nunca acreditei no que me disseram, e parti o espelho.//o azar nunca mais me largou, e também não posso dizer que os negócios me tenham corrido bem. [...]

Al Berto
No fim-de-semana estarei em Salto, Trás-os-Montes. A minha mãe já me telefonou a dizer que o carvalho que egoisticamente (trans)plantei no Verão, com 10 cm, sobreviveu (contra todas as probabilidades e conselhos). Egoisticamente, porque daqui a cinquenta anos já terá crescido demasiado e a geração seguinte terá de o cortar, para que as raízes não deitem as paredes da casa abaixo. Ou talvez não tanto, porque espero ser eu, um pouco mais velho, a cortar o carvalho ou a derrubar as paredes da casa, o que me parecer mais importante na altura. Até lá, a sombra.

Livro de Reclamações

Este blogue não é de serviço público, mas cada vez mais se parece com uma repartição pública. Atrasos, reclamações, a Joana sentada na sala de espera com uma senha na mão ou a marcar o livro, a minha mão lenta com o carimbo. Vão lendo as revistas, cruzando e descruzando as pernas, que o senhor doutor já está quase a chegar.

Recados (3)

Tiago BC, não te preocupes, era só para te mandar um abraço. E ao Rogério e à Susana. Para dizer-vos que gostei muito de vos conhecer, apesar do fracasso do projecto. E, já agora, para saber se as fotografias do Rogério e da Susana acabaram por ser reveladas, se ficaram boas. Podem servir de pósfácio. A história da montagem da peça teve uma carga dramática maior do que a própria história. Obrigado.

Mafalda, na sexta-feira não estarei em Lisboa, por isso: Parabéns! Este ano os teus convidados têm azar. Um aniversário comemorado na Sexta-Feira Santa é sempre muito triste, uns a comerem peixe cozido e a olharem para a picanha dos ateus do lado.

João, Fati, como está Paris nesta época do ano? Vamos passar a Páscoa a Salto. Pode ser que nos encontremos por lá.

31 março 2004

Recados: (continuação do episódio anterior)

Sónia e Gonçalo, parabéns! S., quantos graus aumentou a inclinação da parábola (será este o termo, já não tenho geometria há alguns anos) da tua barriga desde o aniversário do G. (já agora, como é que estava o bolo de bolacha?). No primeiro filho, temos de manter um registo minucioso da evolução biológica. De guardar todas as ecografias para o álbum de fotos.

Celita e Nuno, parabéns! Se bem que isto já me soe a conspiração. Parece que os nossos amigos começaram todos a ter filhos só para nos fazerem inveja. Não perdem pela demora, os nossos vão ser mais bonitos que os vossos. É por isso que estamos a esperar mais um bocado, para que as técnicas de manipulação genética evoluam e as crianças saiam todas à mãe.

Isabel, não fiques triste e traz-me cajú. Sabes bem que é isso ou cocaína. Espero que as praias de Moçambique já tenham ligação à Internet e possas ler este recado: é só para avisar para te virares ao contrário, que já estás a ficar com um escaldão nas costas. Mas não te preocupes, o Ruca pode pôr-te um pouco de creme à noite.

Ana Mota, Isabel Ferreira, o que é feito de vocês? Perdi-vos, mesmo numa cidade tão pequena como Lisboa. Já andei às voltas, mas nada. Talvez estejam no cimo da cabeça, onde costumam estar os óculos de que andamos à procura.

Cristina Falcão, o teu último postal tem data de 20-12-2003. Só tens mais uma semana para não deixar expirar a tua licença de escritora oficial de postais. E a tua casa, já tem sardinheiras nos beirais?

Jorge, valter, obrigado.

(continua)
(Vítor, tens de ir alimentando o nosso blogue peixe-vermelho.)
Sinto-me de consciência pesada. Como a criança a quem deixaram ter um animal de estimação, com a condição de não se esquecer de o alimentar. Depois a criança vai jogar futebol, ler livros do Salgari, traduzir, andar de transportes públicos, e quando regressa encontra o seu blogue a boiar de barriga para cima dentro do aquário.

27 março 2004

Hoje levantei-me com um poema feito sem palavras.
Dentro dele havia luz macia
e um tom azul ao longe para onde caminhava.

26 março 2004

Mira técnica

Antes da chuva, a mira técnica. É igualmente inútil, mas com alguma cor e simetria. Agora que já acabei mais uma tradução, pode ser que me apeteça ter opinião sobre alguma coisa. O mundo anda interessante, mas passa ao largo de Alcântara. Mas tenho de escrever para a Joana não ficar nublada. E, a avaliar pela pulsação do blogue (no fundo, à esquerda), de escrever só para ela e para um ou outro tresmalhado que aqui venha parar sem querer. Não se vão já embora, tenho recados para muita gente:

Gisela, recebi as extraordinárias fotografias da neve no Vondelpark. Agora o teu jardim já deve estar a começar a ficar verde, como o resto da Holanda. E eu, de inveja - pelos canais, pelos crepes do upstairs, pela tarte de maçã no mercado.

Zé Pedro e Mafalda, um café logo à noite? Este fim-de-semana não vamos a Espinho.

Marta, espero que esteja tudo a correr bem: que já te possas levantar para que o Nuno possa descansar. Se precisares de uma lasanha, liga-nos. E quando a criança nascer, claro.

Analú e Pedro, por onde andam? Sempre vão comprar a casa?

Catarina, se já acabaste a cerveja da esplanada em Copacabana, liga-nos. Podemos beber outra este fim-de-semana em qualquer lado.

Inês, parece que não vai estar um Sábado bom para um piquenique. Ou então, além de uma toalha aos quadrados prepara também uns cobertores às riscas.

Paula, não te preocupes, vamos retocar o teu bronze do Brasil para uma esplanada qualquer este fim-de-semana.

Xana, boa sorte para a tua viagem até Castelo Branco e para o curso. Vê lá se aprendes como consertar-me o ombro.

Bertrand, Katell, ça va? Je ne sais pas écrire rien plus en français.

Mário, de que cor estão as estepes russas nesta altura do ano? Tens sabido alguma coisa dos nossos amigos Daniel, Eunice, Rui, etc.

Guitinha, Lisboa é uma aldeia e nunca te encontro na padaria, na leitaria, na rua. Um postal por ano não chega. Já estava na altura de trazer o Ricardo Pinheiro da Madeira, telefonar ao Zé Paulo, ao Rui, ao Quim, à Mónica, ao Místico, à Sandra, ao Sardinha e a todos os outros e fazer um jantar da AEISCSP.

Vítor, como se estão a portar os teus novos coleguinhas. Não deixes que te estraguem os lápis de cera e te roubem plasticina.

Joana, vou almoçar contigo e digo-te ao ouvido o que me apetecer dizer-te. Está aqui demasiada gente. Na Tentadora?

(continua) (cenas dos próximos capítulos: recados para o Armando, a Cláudia, o Pedro Saragoça, o Pedro Santos, o Jean e a Fati, o Tiago B. C., a Cristina Falcão, a Carla Castro, a Carla Antunes, a Sónia e o Gonçalo, etc.)

18 março 2004

Caros telespectadores, pedimos desculpa por esta interrupção. Este blogue segue dentro de momentos.

14 março 2004

A VIDA QUOTIDIANA
Espelho fechado/Manequim de pássaros/A vida breve/Te corta os sonhos//Cai a cidade/Das prateleiras do céu//Homem-gaveta/Guardou lembranças/Guardou laranjas e o semen/De outros meninos-gavetas//Três sereias ameaçam o mar//Cordélia na varanda/Engole nuvens/Cospe jasmins

Murilo Mendes, 1941

12 março 2004

O mal está no meio de nós

Não foi um «mal absoluto» que se abateu sobre Espanha (como classificou ontem Durão Barroso). Foi pior do que isso: um mal tradicional, maléfico, do tipo do que existe desde sempre mas raramente se manifesta, e ultrapassa os nossos piores pesadelos porque existe.
Quase duzentos mortos.
O medo, que vai fazer-nos agora? Que país vai atacar a Espanha? O Afeganistão não vale a pena. No Iraque rebentam as bombas todos os dias... Talvez os subúrbios de Paris onde foi proibido o véu islâmico? Ou os ghetos muçulmanos de Londres onde se vende o jornal que recebeu o fax da Al-Qaeda? É lá que eles estão agora, no meio de nós, os que accionam este eixo do mal.
Não quero pensar. O mundo tornou-se demasiado complexo e as coisas não fazem sentido. O nosso mundo não é com certeza o melhor dos mundos possíveis. Se alguma ciência vai estudar estes fenómenos, que seja a mesma que trata a loucura. Que pena a vida real não ser como as ficções: esta manhã ninguém desligou as bombas no último segundo... Talvez deixem de fazer filmes assim porque já ninguém acredita.

10 março 2004

Chove sobre a cidade a um ritmo constante, desagradável. Um pouco menos e teríamos apenas de respirar nevoeiro. Não se conseguiria ver de brônquio a brônquio, de prédio a prédio, mas poderíamos pelo menos sair de casa.
Ah, as coisas que se passaram por aqui, enquanto andei embrenhado a resolver os problemas que aparecem no tipo de vida somos obrigados a viver: vi sonhos irrigados por corações generosos, a nossa inexistência perante a existência, deuses de onanismo fecundo, histórias de Borges, e a descoberta de um grande texto de um grande amigo. Com a leitura de tantos livros, Armando, nem podias ser diferente.

09 março 2004

Lugones

Há muito que Fernando Pessoa nos ensinou que alguns escritores criam os seus próprios mestres. Ao lermos os contos de Leopoldo Lugones, não podemos deixar de imaginar se Jorge Luis Borges não terá, também ele, criado o seu. Uma criação que os milhares de discípulos borgianos, anónimos nas suas profissões quotidianas, terão encoberto com a inclusão de biografias em enciclopédias e de recensões em revistas de literatura. Nelas, fala-se de um argentino, nascido em Rio Seco em 1874, que terá ajudado a renovar a poesia hispano-americana. Existirão provavelmente também fotografias e relatos de familiares, mas afirmo que Lugones nunca terá existido para além de Borges. Digo isto convictamente, após ter lido «Os Cavalos de Abdera», um livro de oito contos publicado, em Portugal, pela Vega (1988), onde em todas as linhas se pode pressentir Borges. Num dos contos, o terceiro, inserido entre «A Chuva de Fogo» e «A Estátua de Sal», Borges terá dado uma pista para resolvermos o mistério, que só quem não reconhecer o seu génio poderá pensar tratar-se de um erro. O conto é intitulado «Um Arquitecto no Deserto» e é a história de um homem que constrói uma pequena cidade de areia, destruída a cada ano pelos ventos sazonais. A pista para conhecer a verdadeira identidade do autor do conto pode ser encontrada logo na primeira página.

05 março 2004

Armando, só posso responder com uma evidência: há críticas a filmes melhores do que os próprios filmes. E, depois de ler o teu texto, com cada vez mais pena de não ter sentido o mesmo que tu. Não gostei particularmente do filme, mas gostei muito dos vossos textos sobre ele (o teu e o do Vítor). Todos temos caos prestes a explodirem em supernovas. Mas reagimos a estímulos diferentes. Muitos dos sentimentos que o Big Fish vos derpertou, senti-os ao sair do Lost in Translation. Talvez por me ter identificado com Charlotte, um personagem que acabou a universidade há algum tempo e não sabe o que fazer da vida. Ou por qualquer outro motivo inexplicável, como acontece com muitos filmes.


Exercício de direito de posta

Comentário definitivo sobre o visceral filme de Burton ou Onde se explica Tim Tim por Tim Tim porque há realizadores de quem se pode dizer que são apenas Fish(es) e, outros, muito poucos, que são verdadeiramente Big.

Há quem coleccione moedas, outros reúnem livros, outros ainda acumulam obras de arte. Eu colecciono sonhos, vidas que não poderei viver e pedaços da irrealidade quotidiana. E devo dizer para que conste -verdade minha, por isso, desde logo, absoluta, inquestionável e indesmentível - que alguns dos melhores exemplares desta tão intima, preciosa e nada prosaica colecção, que vai para pouco mais de trinta anos iniciei, os desenterrei em salas escuras, depositadas sobre frágeis teias e tramas de um branco espectral, povoadas por seres luminosos e mágicos.

Ao contrário do que é crença comum, os sonhos, pelo menos este particular tipo de sonhos, não devem ser guardados em qualquer recôndito canto, mais ou menos sombrio, do cérebro humano. Eu arrumo-os numa caixa, que é exactamente o lugar onde devem ser guardados todos os sonhos. Não será necessário explicar que nem todas as caixas se adequam à função, tal se deve às particulares formas dos sonhos e às suas propriedades voláteis. Por isso no meu caso optei por os albergar na caixa torácica, mais precisamente no interior cavernoso do meu ventrículo esquerdo, válvula cardíaca responsável pela irrigação sanguínea de todo o organismo. Graças a isso, impulsionados pelo ritmo cadenciado de cada sístole e diástole, percorrem todo o meu ser, em harmonioso convívio com a amálgama de glóbulos brancos, vermelhos e plasma, pequenas partículas de celulose e nitrato de prata, materiais alquímicos usados na confecção dos sonhos.

E é com certeza por isso que amo o cinema, porque ele me corre nas veias.

Não será então de estranhar -silogismo simples, duplo axioma com um único corolário possível -, que se o cinema me está alojado no coração e que é do interior desse órgão que nasce o amor (lei universal afirmada por poetas e testemunhada por amantes), que devote profunda afeição aos demiurgos que criam universos, aos efabuladores míticos que ao sétimo dia não descansaram, antes se afadigaram a fazer nascer uma nova arte e a que, talvez por isso mesmo, chamaram sétima. E, nesse novo panteão, um Deus ex-machina, pairando sobre todos Los Angeles, num reino onírico e distante a que chamam Hollywood, ocupa o lugar central no firmamento. Burton, de seu nome.

Há quem tenha os filmes da sua vida, eu tenho os realizadores da minha (Burton, Eastwood, Scorcese, Curtiz, Capra, Coppola...) e sou-lhes violentamente fiel, intransigente na defesa contra os seus detractores, infinitamente orgulhoso na forma como desdenho os que não veneram a sua mestria.

E não percebo, verdade que não, como é possível ser-se insensível à pincelada do génio, ao toque do artista, ao desfilar de emoções que o seu talento faz assomar e que não deixam outra saída ao comum mortal, senão maravilhar-se perante o carrossel caleidoscópico de luz, cor e magia que dele brota, todo ele ilusão e mistério, milagre e profissão de fé.

Poderia invocar infinitas razões para amar esse luminoso objecto de desejo (não sei se acabo de contra-citar, ex-citar ou in-citar Buñuel, outro surrealista e sonhador como Burton) que é o Big Fish. Mas em vez de invocar prefiro lançar mão de outro verbo que me é muito mais caro: convocar. Porque, ao fim e ao cabo, tudo neste filme se resume a isso. Convocar os mais íntimos desejos, as mais pungentes inquietações, os medos mais atrozes: amar e ser amado, o apelo ancestral que me faz ansiar pela vinda de um filho, o valor inestimável que atribuo à amizade, o receio que me faz acordar de noite, sobressaltado, de perder o meu pai sem lhe dizer tudo o que ele significa para mim, de lhe dizer o tanto que gosto dele e de lhe agradecer tudo o que sou. Tudo isso estava lá. No Big Fish. Tudo eu vi e em tudo me revi. Lamento, se houve quem tivesse visto menos.

É um filme que fala da morte, celebrando a vida; que fala de mulheres e homens, celebrando o amor; que fala de pessoas, quantas vezes estranhas e bizarras, celebrando a amizade; que fala de filhos, celebrando os pais; que, no fim, e por fim, fala da realidade, celebrando a fantasia.

Vi, no Big Fish, bruxas que profetizam mortes. Cartografei cidades cujos habitantes permaneciam descalços, refugiados num limbo idílico e testemunhei o bom coração de gigantes. Também por lá andavam directores de circo que são lobisomens quando o sol se ausenta do céu e gémeas siamesas que cantam celestialmente. E vi milagres acontecerem, um homem que ao morrer se transformou em peixe e um filho que, na hora da morte do pai, se deu conta do muito que lhe devia, milagre maior entre todos os milagres.

Mas, acima de tudo, foi ao ver o Big Fish que tive a certeza de que até hoje nunca amei verdadeiramente, porque nunca, até então, tinha visto o amor acontecer perante os meus olhos. Mas agora que sei o que é o amor, que é quando espaço e tempo congelam, estarei preparado para o receber e para não o deixar fugir nunca. E recebê-lo-ei, de certeza num campo de narcisos, amarelos, como o sol, pois essa, sei-o agora, é a única maneira possível de colher o amor.

Foi Nietzsche, creio, que disse ser preciso muito caos interior para parir uma estrela que dança. Para parir três estrelas, três estrelas e meia, Tiago, não imagino quanto de caos, matéria e antimatéria reunidas, será necessário. Muito menos para parir todo um universo... Big Fish ou Big Bang???

Armando Norte

04 março 2004

Leio num livro que o deus egípcio Amon deu vida ao mundo masturbando-se sobre a terra. De todas as cosmogonias, nenhuma me parece mais deprimente: uma figura meio humana com cornos de carneiro a masturbar-se no deserto. (Faz-me lembrar as capas dos discos de heavy-metal dos anos oitenta.) Tem uma vantagem, explica claramente a natureza dos oásis.

03 março 2004

As cuecas semitransparentes de Charlotte

Lost in Translation. Vi o filme ontem à noite, com um atraso de alguns meses em relação ao resto do mundo ocidental, e ainda não consegui tirar da cabeça o More Than This dos Roxy Music. E o filme não é mais do que isto: um grande hotel espelhado, como uma ilha de vidro, no meio de uma cidade estranha. Dentro e fora dele, os dois náufragos tropeçam numa ternura imensa, imersa em música de bar de hotel, trânsito caótico, salões de videojogos, karaoke caseiro, quartos silenciosos e piscinas. Quatro e tal.

02 março 2004

Contribuição para o niilismo

Uma equipa de astrofísicos descobriu que o universo pode durar mais 30 mil milhões de anos do que se pensava. O universo vai existir sem mim mais 30 mil milhões de anos do que eu pensava. A minha contribuição para o universo (em percentagem de anos) vê-se assim encurtada drasticamente. É só aplicar uma regra de três simples. Não exponho aqui o resultado para que quem visite a página não pense que estamos com um erro informático que nos enche a página de zeros após uma vírgula. Mas é só fazer as contas. O problema é que temos não uma, mas duas incógnitas. É que ainda não sabemos quantos anos irei viver. Sugiro que se utilize a esperança média de vida para a população masculina portuguesa para acabar com a incógnita, embora espere ultrapassá-la. Claro que, como podem imaginar, o meu niilismo tem uma relação inversamente proporcional com a percentagem de contribuição para o universo. Aproximo-me de Nietzsche à velocidade da luz.

Se não fosse materialista, poderia acreditar que todo o universo é uma construção mental minha. E que, por conseguinte, a sua duração é igual à da minha vida, a minha contribuição para ele absoluta. Mas, por mais que tente, não consigo acreditar que possuo dentro de mim tanta criatividade, tantos cometas. Por vezes, pressinto o vazio estelar, mas logo o estômago ocupa o seu lugar e «o universo/Reconstr[ói]-se-me sem ideal nem esperança» (A. C.).

01 março 2004

O carapau do Tim Burton

Vítor, é difícil não concordar com a tua argumentação. Mas o teu texto fala da ideia geral de imaginação e memória, de pais e de filhos, e não da concretização dessa ideia em filme. Entre os irmãos Lumière e Tim Burton vai um século de cinema. Dos milhares de filmes produzidos em todo o mundo nesse período de tempo, a maioria transporta-nos para universos estranhos de criatividade, mesmo que em ambiente realista. Mas uns são melhores do que outros. Não basta uma boa ideia para fazer um bom filme (ou um bom livro, um quadro belo). Mesmo assim, devo relembrar que gostei do filme. Mas não mais do que três estrelas e um pequeno cometa. A outra estrela e meia vais ter de justificar num novo texto (tu ou o Armando, ao abrigo do direito de resposta), onde fales da interpretação dos actores, do argumento, da realização. Quanto ao resto, concordo contigo, a nossa vida é feita de mais construções mentais, da manipulação criativa da memória, do que nos apercebemos. E, mais importante, da memória dos outros.

Fragmento de Alice

Num instante, Alice passou através do vidro, e saltou agilmente para a sala do Espelho. A primeira coisa que fez foi ver se havia lume na lareira, e ficou muito contente por descobrir que havia um fogo verdadeiro, ardendo em grandes labaredas como o que ela deixara para trás. ‘Então estarei aqui tão quentinha como na velha sala’, pensou Alice, ‘ou até mais quente, na realidade, porque aqui não haverá ninguém para me mandar afastar do fogo. Oh, que divertido vai ser quando me virem aqui através do espelho, sem poderem apanhar-me.’

Lewis Carroll, Alice do Outro Lado do Espelho, trad. Margarida Vale de Gato

Big Fish: a realidade é uma fábula

Regresso. Passei demasiado tempo fora, no mundo-longe-dos-blogues. Volto agora, depois de ter visto o último filme do Tim Burton, 'Big Fish'. E regresso, para dizer o seguinte ao meu amigo Tiago, que num post mais ou menos recente afirmava não ter gostado do filme: um tipo que tem um blogue chamado Através dos Espelhos e que não gostou do 'Big Fish', não devia ter dado esse nome ao dito cujo.
E porquê? Porque quem não gosta do 'Big Fish' não acredita que é possível atravessar os espelhos para lá daquilo a que chamamos: a realidade.

Vamos por partes: o facto do filme ser bom é uma parte; é mais profundo do que pode parecer; não é tudo tonteria. Não quero contar a história, mas acho que uma ideia subjacente a toda a narrativa deve tocar-nos a todos de um modo ou de outro. Os filhos, normalmente olham para a vida dos pais como icebergues, dos quais apenas conseguem ver 10 por cento. A psicologia terá certamente estudado isto. E é esta a base do argumento. Qual terá sido a verdadeira história da vida do meu pai, para além daquilo que ele me conta?

As histórias fabulosas do pai do filme, afinal foram exageradas. Será? Aqui deixamos a psicologia e entramos num campo que não sendo o da filosofia, pode considerar-se perto dele. A vida é real? O que é a realidade? O que são as aparências? Qual o lugar da fantasia na realidade?

Às vezes penso que toda a minha vida se passou no domínio da fantasia, desde tudo o que foi bom até tudo o que foi mau. É que, passado o momento em que as coisas acontecem, tornam-se memória, e a memória das coisas não é o mesmo do que as coisas em si. Ora a vida, a nossa vida, a realidade do que foi e é a nossa vida, são as histórias que contamos dela. O que é um curriculum vitae? É a nossa vida? Não. É o que nós achamos que devemos contar dela para nos darem um emprego, e não se trata de fantasia, mas da coisa mais seca que devemos apresentar a um potencial empregador.

Assim, quando passamos a contar as histórias da nossa vida, esta torna-se um exercício da memória, o que não a torna propriamente exacta, mas uma fábula mais ou menos real.

O meu pai, por exemplo, como muitos pais com filhos da nossa idade, foi à guerra. Esteve na Guiné. Anos a fio, contou-me a história de uma macaca que morreu de cirrose por gostar tanto das bebidas alcoólicas que os soldados lhe davam a beber. Contou outras que tais. Só depois de ele se ter juntado, pela primeira vez em 25 anos, com os amigos da tropa desse tempo, é que pude ouvir algumas das histórias que ele me contava, contadas por outras vozes.

Há também a história do cão fiel, que voltou ao monte, no Alentejo, depois de ter sido oferecido a um homem que vivia a dezenas de quilómetros e que regressou um dia, com as patas todas feridas, a arranhar à porta... ouvi-a uma segunda vez da boca do meu avô. Era uma fábula, mas era verdade.

A nossa vida, meu caro Tiago, tem mais de fantasia que de realidade porque o acaso, a contingência e o absurdo interferem mais no mundo do que à partida a nossa racionalidade faria supor. A vida, na realidade, é uma fantasia. Contada ninguém acredita. É esse o tributo do filme do Tim Burton. A vida não é uma coisa como uma notícia de jornal. É uma ficção como as que são contadas nos livros. E as únicas pessoas que sobrevivem depois da morte são apenas aquelas sobre as quais se contam histórias.

Quem tiver dúvidas, e houve quem as tivesse, há dois posts neste blogue que atestam isso mesmo. São histórias passadas do lado de cá do espelho, no mundo real, e nas quais as pessoas têm dificuldade em acreditar: é o post sobre o "Quarto do Filho" e a história do "Judeu Messiânico". Que seria de nós se por vezes não parecesse que tínhamos atravessado o espelho?

24 fevereiro 2004

Observações sobre a inversão de prioridades num jornal atrasado

Na primeira página do Público de Sexta-Feira, a notícia com maior destaque era: «Cirurgias da Lista de Espera Feitas no Horário Normal de Trabalho». Na última, que «Dois Observatórios de raios X fotografaram o massacre de uma estrela do tamanho do sol». Duas observações. Em primeiro lugar, a perda do sentido das proporções, que os leitores podiam facilmente ignorar invertendo o sentido da leitura. Em segundo, que os jornalistas da área da ciência têm o privilégio de poder escrever coisas como: «Tudo se passou num ápice. O enorme buraco negro despedaçou uma estrela parecida com o nosso sol, tragou um bom pedaço dela e pulverizou o resto pelas redondezas, como quem deixa toneladas de migalhas depois de se banquetear.»

21 Gramas, Alejandro González Iñárritu

A cor, nas tonalidades certas, no volume certo, pode salvar uma história. Em 21 Gramas, o grão ligeiro da imagem confere uma grande profundidade às cores e aos personagens. E as cores profundas de uma paisagem urbana intimamente americana libertam um filme onde se parecem conjugar demasiadas construções recicladas de outros filmes: a estrutura narrativa, muitos dos pormenores da história. Sean Penn, Benicio del Toro, Naomi Watts, mergulham profundamente na cor.

22 fevereiro 2004

Quando começa a chover podemos optar pela depressão ou pelo guarda-chuva. Se escolhermos a primeira, podemos ficar em casa a ler um livro. Então, não nos podemos admirar que os personagens se tornem mais sombrios ou que enxurradas submirjam os desertos. A leitura pode ser tão influenciada pelo ambiente como a escrita. Podemos ser leitores impressionistas, expressionistas, cubistas, dependendo da disposição e da meteorologia.

19 fevereiro 2004

Se ficarmos parados durante tempo suficiente, podemos observar que a natureza começa a regressar às nossas construções artificiais. A crescerem mentalmente rebentos por entre as fendas que separam as tábuas de madeira do soalho, a ouvirem-se vozes de animais nocturnos. E assim podemos disfarçar a indolência com a curiosidade científica de observação do mundo natural. Podemos olhar fixamente para o tampo de uma mesa vazia durante horas, a analisar o sofisticado mecanismo de um insecto.

Mais estranho ainda é sentir que nos embrenhamos cada vez mais nessa selva de imobilidade, quando, com movimentos rápidos, tentamos terminar trabalhos com prazo e sem interesse.

18 fevereiro 2004

No saguão há um espelho, que fielmente duplica as aparências. Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que serviria esta duplicação ilusória?); eu prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito... A luz provém de umas frutas esféricas que têm o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante.

Jorge Luis Borges, «A Biblioteca de Babel», Ficções

17 fevereiro 2004

Eu sei que temos de ser tolerantes para com as opções dos outros. Mas é minha impressão ou o cabelo de Paulo Portas está a ficar cada vez mais estranho e ofensivo. Sou suficientemente liberal para não o aconselhar a ir ao barbeiro. Mas talvez fosse boa ideia recolher umas assinaturas para uma petição que lhe sugira a utilização da boina, que costuma usar em campanha eleitoral, durante o resto da legislatura.

A erva e as papoilas

Parece que a nova relva do Estádio do Dragão vem da Holanda. Não há ninguém como os holandeses para arranjar uma boa erva. Por que não plantam também uma papoilas nos limites das quatro linhas? Uma dose bem calculada de bucolismo poderá ajudar a acalmar os adeptos. E, para além disso, as SADs precisam de diversificar as suas fontes de rendimento e talvez seja preferível o negócio da droga a concertos do Rui Veloso. Claro que, por outro lado, isso poderá tornar as invasões de campo mais frequentes. Proponho que se crie imediatamente uma comissão científica para estudar o assunto, a tempo para o Euro.

12 fevereiro 2004

Big Fish

Armando, tenho pena de não poder partilhar o teu entusiasmo com o Big Fish do Tim Burton. A culpa talvez seja da tradicional gestão das expectativas. Ponho-me a olhar para as estrelas (dos críticos) e a ouvir os comentários dos amigos e depois entre o filme e a minha ideia sobre o filme abrem-se abismos. Três estrelas,... três estrelas e meia.

Sobre espelhos e outras irrealidades

POR TRÁS DO ESPELHO

Há sítios, como aquele pedaço de parede a que se encoste um espelho, que, embora existam, estão mesmo à beira da absoluta irrealidade, a qual de tal maneira neles mergulha às vezes as raízes que quase os diríamos definitivamente transportados para o lado de que só deus pode apreender a luz.


CRAWL

Às vezes, entranhando-me num espelho, consigo dar nele duas ou três braçadas sucessivas.

Luís Miguel Nava

10 fevereiro 2004

cumo disse...

No tempo próprio da poesia, síntese monádica transfiguradora estética do tempo histórico, criadora de um mundo específico elidido de sucessividade, cuja continuidade é tecida de diferenças singulares, ... Assim começa o artigo de Miguel Real (Jornal de Letras, 4-2-2004) sobre o último livro de Pedro Mexia, Eliot e Outras Observações. O resto do texto é mais comestível. Coloca o livro entre a «figuração realista de C. [esário] Verde» e o «perpétuo sentimento do nada de B. [ernardo] Soares». Tendo a concordar. Mais com a primeira afirmação do que com a segunda.

O revivalismo do sabão natural

A grande novidade deste ano nos produtos domésticos parece ser o sabão natural. O cheiro que deixam na roupa e na casa remete para um tempo idílico de mães e avós nas margens de rios e ribeiras. A mim também me traz boas recordações. De no Verão, em Trás-os-Montes, brincar na relva entre a roupa a corar enquanto as mulheres lavavam as camisas e as toalhas no Rio do Capelo. Mas não era eu que tinha de ajoelhar-me nas pedras e pôr as mãos na água gelada. As margens do rio estão agora vazias, as máquinas de lavar cheias. Felizmente.

Do lado de lá do espelho II

«E que tal se tem dado com os comprimidos?», perguntou o filosiatra do outro lado da mesa. «Bem, parece-me», respondeu o paciente. «Mesmo assim, houve um dia em que disse "até amanhã, se Deus quiser". Mas pensei logo a seguir que, se Deus não quisesse, não haveria amanhã, ou não haveria eu ou talvez pudesse nem haver a outra pessoa. Seria um disparate. Acho que é um efeito... De resto, nem tenho pensado muito em Deus. Têm-me feito bem. Acho...».
«Acho eu que vai ter de passar a tomar duas cápsulas logo pela manhã, e manter o comprimido antes do deitar. Vamos aumentando a dose. Não é normal que o seu organismo continue com essa tendência transcendental positiva, depois deste tempo todo a tratar-se», adiantou-se o filosiatra, dos mais respeitados do país.
«Não sei... o doutor é que sabe. Herdei esta tendência para acreditar dem Deus, sempre tentei evitá-lo, a minha mãe era muito religiosa, e o senhor está a ver... não é de um dia para o outro que uma pessoa bloqueia essa fé, é uma coisa genética...»
O filosiatra, ateólogo conceituado, respirou fundo. «Sim, mas vai ver que melhora. Vamos inibir os neurotranscendoreceptores quando encontrarmos a dose certa. Há quem reaja mais depressa que o senhor. As estatísticas do laboratório dizem que a partir desta dose, 70% dos pacientes ficam inibidos da tendência natural para acreditarem. Você vai curar-se».
O paciente despediu-se e saiu. Sentiu-se melhor e deu graças por não dar graças a Deus por estar a sentir-se melhor.

Do lado de lá do espelho I

«É um facto extraordinário! Acabou de ser alcançado um novo recorde mundial nos 100 metros em atletismo! O canadiano Trent Mason atingiu, há pouco mais de cinco minutos, no Campeonato Mundial de Pista Coberta, um dos objectivos perseguidos há séculos pela humanidade, ao conseguir percorrer os 100 metros em apenas zero segund...» A televisão eclipsou-se. Os seres humanos sofreram o impacto da reversão do tempo. O sol inflamou-se pela última vez. Inverteu-se. Tornou-se um buraco negro e toda a existência foi sugada para sempre pelo seu simétrico contrário.
Não sei se vão ser torres ou prédios rastejando até ao leito do rio, mas da minha janela posso assistir ao movimento de demolição de algumas das velhas fábricas de Alcântara. Talvez consiga prolongar, com esforços de distorção, aqueles momentos breves entre a demolição e a construção em que vou poder finalmente ver o rio. Agora, só o consigo ver, entre duas fábricas, quando a maré está bem cheia e não está um navio de cruzeiro acostado.

09 fevereiro 2004

A deriva dos continentes

Podemos partir do princípio de que o Oceano Atlântico é estático. Ou, para efeitos de análise, definir que ele se contrai e se expande, tornando variável a distância entre a Europa e a América (os Estados Unidos da América). Graficamente, podemos imaginá-las como dois pontos na superfície de uma esfera. Quando esta se expande, a distância aumenta e, quando se contrai, diminui. Um movimento a que, acrescentando a ciclicidade, os optimistas (idealistas) podem comparar ao bater de um coração e os pessimistas (realistas) a uma cabeça latejante.

É difícil definir com exactidão o papel que a política interna dos estados desempenha na definição das suas políticas externas. A maioria dos autores realistas tendem a subalternizá-lo, acreditando que a natureza anárquica das relações entre os estados e o cálculo dos equilíbrios de poder constrangem as decisões dos governantes. Que as acções dos Estados Unidos seriam muito semelhantes qualquer que tivesse sido o presidente nestes últimos anos: Clinton, Bush, Gore, etc. Apesar de não conseguir determinar uma percentagem, acredito que a política interna dos estados tem uma importância considerável para as relações internacionais, para a gestão dos sistemas de governação mundial. E é por isso que tenho a esperança de que nas próximas eleições presidenciais norte-americanas George W. Bush não seja reeleito, provocando uma contracção da esfera, de preferência até à dimensão de uma mesa da ONU.

Santa Catarina

No Domingo, já em Lisboa, jantar em casa do Hugo Franco e da Dina, com a Joana, o Armando, o Pedro, a Analú e o Rodrigo, a Carla e o Vítor. Nas entradas, as histórias do Inter-Rail do Armando nas ilhas gregas, a que decidimos, caso alguma fez passe a livro ou a filme, dar o título de Em Lesbos sem Dinheiro; as histórias do Hugo e da Dina no Inter-Rail pelo sul de França e em Amesterdão. Depois da lasanha e do pão de ló, as recordações da infância em Grândola do Vítor e da Ana Luísa («-Qualquer dia o Rodrigo tem a mesma idade que nós quando nos conhecemos (na primária).» Com nomes de personagens e de terras de fábula ou de livro do Jorge Amado, de amigos que já cresceram. As recordações do Armando, do Hugo e minhas da escola preparatória rodeada de mato e de floresta por todos os lados e que agora parece ter encolhido no meio dos prédios que se preparam para a engolir. Algueirão, Mem Martins, a envelhecerem, o Cinema Chaby demolido. O Guigo a brincar com os carrinhos a um canto da sala, com uma otite. Um chá para terminar com o pão de ló.

Maus Hábitos

No sábado à noite, por duas horas, atravessar o espelho, ou como é possível entrar num elevador para subir ao quarto andar de um prédio e sentir que entramos numa cave, num tempo e num espaço diferentes. Fui, pela primeira vez, ao Maus Hábitos, no Porto, em frente ao Coliseu, com a Joana, a Paula, a Olga e a Mariana. Numa das muitas salas, tocavam os Radiohead portugueses. Nas outras, andavam o que pareciam ser os convidados de um dono da casa invisível. Apesar de ter pago 3 euros, senti que estava a entrar numa festa, na casa de alguém, sem ter sido convidado. Pareceu-me que toda a gente sentia o mesmo que eu. Encontrámos o Carlos Seixas. Também era a primeira vez que lá ia.

Onde as ruas não têm nome...

Deste lado do espelho, o fim-de-semana foi passado em Espinho. Na cidade geométrica e aritmética, onde as ruas não têm nome nem passeios (por causa das obras). A salgar os brônquios no Golfinho, a cortar o cabelo na Barbearia Silva, a ler os jornais no Palácio e no Esquimó, a comer Bacalhau com Natas e Bolo de Anjo na Avenida 8. Nos dois extremos, duas viagens de comboio e a importância de escolher o livro certo para o fim-de-semana. O meu passou da vertical, na estante, para a horizontal, na mesa do Alfa. E a minha disposição mudou com a rotação dos planos. O que na sexta-feira me parecia ser a salvação para 6 horas de viagem, serviu apenas de companhia e de base para copos.

Diário de Maria

Será que a gripe das aves é o castigo divino para os bestialistas? Pelo sim, pelo não, recomendamos que façam como o Woody Allen no ABC do Amor e limitem a vossa dieta a ovinos. Para uma reflexão mais aprofundada e gráfica sobre o tema, remetemos para a fotonovela do Pelejão, O Pastor das Almas e o Molestador de Ovelhas, no Vodka7.

07 fevereiro 2004

O calhau da Noruega

Perante o olhar atento mas impassível dos noruegueses, Manuel João Vieira, ex-vocalista dos Enapá 2000, cantava uma das suas letras em norueguês com uma perfeição para nós irrepreensível. Foi na passada quarta-feira, no centro de arte moderna de Oslo, onde ele também tinha uma instalação em vídeo na exposição «30 artistas portugueses com menos de 40». Os louros cidadãos da Noruega esbugalhavam os olhos, e das duas uma: ou não percebiam a canção tão devotadamente cantada na língua escandinava ou não lhe acharam qualquer graça. Fiquei a pensar que não tinham sentido de humor: são muitas horas nocturnas à hora de ser dia e frio a mais na moleirinha. Uma pena. Riram-se mais das canções em português. Povo estranho. Nós rimos muito com aquela em norueguês.

João Manuel Vieira acompanhava a comitiva do Presidente da República que visitou a família real da Noruega. Portou-se bem. Foi estagiar para ver se é preciso candidatar-se contra o Pedro Santana Lopes. A instalação de vídeo não era mais do que colagens dos tempos de antena da sua campanha presidencial de 2001. Se virmos bem, o que ele nos disse lá no museu faz todo o sentido. Na nossa sociedade «há demasiado absurdo por defeito e pouco absurdo por excesso». O homem é um filósofo.

05 fevereiro 2004

Maps, Yeah Yeah Yeahs

Vi a Karen O a trincar um ananás e a tentar engolir o microfone no palco de Paredes de Coura (o melhor concerto, apesar do da P.J.). Agora, em casa, consigo analisar com mais pormenor a capacidade de controlo e de abandono de que é capaz em Maps , pressentindo a presença perturbada de Karen a caminhar pelo palco.

Culinário - 5 de Fevereiro

O Culinário da Assírio & Alvim sugere para hoje - entalado entre as costeletas de carneiro à portuguesa, de dia 4, e os fritos de arroz, de dia 6 - o Pudim do Patrono. Parece-me uma sobremesa demasiado requintada para o meu almoço de douradinhos do Capitão Iglo com arroz de pimentos. Mas fica aqui a receita, caso alguém o queira fazer e trazer-me uma fatia:

Bata 8 ovos com 300 gramas de acúçar e junte 300 gramas de amêndoa ralada fina. Adicione 300 gramas de doce de chila e envolva tudo muito bem. Unte uma forma com manteiga e leve ao forno a cozer em lume médio.

Quanto ao Poemário, não sei o que escolheram para hoje, este ano não mo ofereceram.

01 fevereiro 2004

Uma relação inversamente proporcional

Não sei se sou eu que ando distraído e sou o último a saber, mas vi numa reportagem hoje transmitida que o Artur Jorge já não tem bigode. Já muito se tem falado e escrito sobre a relação entre o progresso do país e o desaparecimento do bigode, mas mesmo os espíritos mais progressistas não podem deixar de sentir uma certa nostalgia perante determinados abalos no quotidiano. Como o bigode do Artur Jorge já tinha personalidade jurídica – número de contribuinte e de segurança social próprio -, gostava de saber se o que aconteceu foi uma rescisão amigável, se o contrato terminou e o bigode se transferiu para outro lábio superior ou se pendurou definitivamente as chuteiras. E logo quando o Artur Jorge mais precisava dele, para o ajudar a suportar as temperaturas negativas do Inverno da Rússia, onde se encontra actualmente a treinar. Nunca se podia ter a certeza onde acabava o bigode e começava a gola da samarra (ou onde terminava o chapéu típico de pele que os russos usam na cabeça). Ou talvez os dois acontecimentos estejam relacionados. É que um bigode daqueles ainda é capaz de trazer muitas más recordações para aqueles lados.

Com uma simples navalha de barba, Artur Jorge terá feito mais pelo progresso do país do que todas as medidas do Ministério da Ciência e do Ensino Superior dos últimos anos.